Texto redigido pela inteligência artificial sob as diretrizes estritas de Côme Felx.
As ideias, as personagens, a orientação narrativa, as escolhas de fundo e o universo da obra pertencem a Côme Felx. A inteligência artificial serviu como ferramenta de redação, estruturação e formulação, seguindo as indicações precisas do autor.
« Como um funâmbulo sem rede, eu escrevia sem plano. Sentia-me só, demasiado isolado para prosseguir a escrita de uma série de novelas. Depois, a minha alma reparou nela. »
Pascal Pascal releu esta frase pela décima segunda vez.
Era boa. Talvez até excelente. Tinha aquele pequeno ar de profundidade que dá a uma banalidade o prestígio de uma revelação. Ele gostava disso. Gostava muito disso. As frases que pareciam sofrer no seu lugar evitavam-lhe muitas vezes sofrer verdadeiramente.
— Então nunca hei de conseguir — murmurou.
Empurrou a folha, depois puxou-a imediatamente de volta para diante de si. O gesto era teatral. Ele sabia-o. Mesmo sozinho, representava. Sobretudo sozinho.
Aos quarenta e sete anos, Pascal não publicara nenhum livro, mas possuía a elegância obscura dos homens que já se consideram traídos pela posteridade. Não tinha leitores, ou tinha muito poucos, mas tinha atitudes de autor. Silêncios de autor. Cóleras de autor. Pobrezas de autor também, que usava como outros usam uma condecoração militar.
Naquela manhã, contudo, nada avançava.
Tinha algumas ideias. Pedaços de diálogos. Imagens. Dois ou três finais inesperados que lhe pareciam suficientemente brilhantes para justificar o romance inteiro. Mas faltava-lhe o impulso. O incêndio. O pretexto. Talvez a vítima.
Desde a aurora, rondava aquela frase: « Como um funâmbulo sem rede… »
Vinha de um sonho.
Nesse sonho, via-se vestido com um fato de circo extravagante. Um fato a meio caminho entre Fellini, um carnaval veneziano e uma velha cortina de teatro esquecida numa cave húmida. Na cabeça, um chapéu gigantesco. Nos pés, sapatos demasiado pontiagudos. Nas mãos, não uma vara, mas um imenso lápis de madeira, comprido como um mastro de navio, que utilizava para conservar o equilíbrio sobre uma linha de chumbo traçada no ar.
Por baixo dele, não havia nada.
À sua volta, caíam flocos. Primeiro, julgara que era neve. Depois compreendera que eram folhas brancas. Folhas virgens. Milhares de folhas. Desciam lentamente, sem ruído, como se o céu se esvaziasse de todos os livros que nunca tinham sido escritos.
Não, não eram inteiramente brancas.
Em algumas havia um rosto.
Um rosto de mulher.
Ao acordar, Pascal decidira que esse sonho era um sinal. Gostava muito de sinais, sobretudo quando lhe davam razão. Concluíra, portanto, que não devia planear nada. Nada construir. Nada organizar. Pela primeira vez, escreveria sem plano. Avançaria sobre o fio, por cima do vazio, com o lápis como única arma.
Mas, como era domingo de manhã e a coragem literária se acomoda mal ao café morno de um apartamento pobre, decidiu ir brincar aos poetas no seu pequeno restaurante habitual.
A cinco minutos de casa, na rua Saint-Denis, havia um café modesto, um pouco antiquado, quase acolhedor apesar das mesas demasiado juntas, das plantas cansadas e das reproduções amarelecidas penduradas na parede. Ainda lhe chamavam, por hábito, o restaurante do senhor Prahallis, mesmo que este passasse mais tempo a vigiar a caixa do que a cumprimentar os clientes.
Pascal tinha ali os seus hábitos.
Mais exatamente, conquistara ali um território.
A mesa quinze.
Uma pequena mesa redonda, colocada perto da saída de emergência, entre dois espelhos que lhe permitiam ver-se entrar na sua própria personagem. Era uma mesa ridícula, desconfortável, quase isolada, mas Pascal adotara-a. Desde então, já não suportava que alguém se instalasse ali antes dele.
Dizia que aquela mesa era o seu ateliê.
Na realidade, era o seu trono.
Naquela manhã, preparou-se com cuidado. Escolheu umas calças pretas demasiado gastas para serem elegantes, uma camisa branca que conhecera melhores dias e uma capa escura que usava apenas nos dias seguintes à lua cheia, sob o pretexto de que as influências noturnas mereciam uma peça de roupa apropriada. Por fim, pôs o seu largo chapéu de feltro, aquele que ostentava uma longa pena de ganso e dava à sua silhueta um ar de mosqueteiro desclassificado.
Olhou-se no espelho da entrada.
— Ridículo — disse.
Depois, satisfeito, saiu.
Lá fora, Montréal parecia ainda não ter decidido se queria ser uma cidade ou um cenário. O céu estava claro. Um vento suave descia a rua Saint-Denis. As montras brilhavam com aquela polidez fria das manhãs de domingo, quando as lojas ainda não abriram e os transeuntes parecem perguntar-se por que razão já existem.
Pascal avançava lentamente, com o caderno debaixo do braço, uma caneta presa atrás da orelha, a capa a ondular o bastante para atrair olhares. Fingiu não os notar. Era uma das suas especialidades: provocar a atenção e depois comportar-se como uma vítima da atenção.
A meio caminho, diante da farmácia, entrou no seu estado de cena.
O exterior tornava-se camarim. As montras, espelhos. Os transeuntes, figurantes. Ele não ia beber um café. Ia fazer a sua aparição.
Já imaginava Claire, a empregada, a revirar os olhos.
Já ouvia Pierrette gritar para o fundo:
— Eh, Claire! Chegou o senhor que atira areia para os próprios olhos!
Elas provocavam-no assim desde o dia em que tinham compreendido que as suas esquisitices não eram totalmente perigosas. Ou melhor, desde que ele as levara a acreditar que não o eram.
Era esse o seu pequeno talento.
Não forçava portas. Fazia sorrir quem as guardava. Depois, suavemente, entrava.
Claire e Pierrette gostavam dele, apesar dos suspiros. Ele divertia-as. Dava-lhes a impressão de que o café delas era mais interessante do que realmente era. Por vezes, cantavam algumas medidas de Carmen quando ele entrava de modo demasiado teatral. Por vezes, inquietavam-se quando ele ficava calado mais de cinco minutos. Conseguira tornar-se indispensável, não por bondade, mas por espetáculo.
Pascal sabia disso.
Sabia que as pessoas perdoam muito aos seres que as distraem.
Naquela manhã, contudo, no momento em que se aproximou do café, alguma coisa quebrou o mecanismo.
Diante da montra estava uma mulher.
Viu-a primeiro de perfil.
Um vestido bege, leve, florido sem excesso. Um vestido de verão que parecia ter sido desenhado para não pedir autorização para ser bonito. Cabelos flexíveis, caindo sobre os ombros. Uma postura direita, mas sem rigidez. Havia no seu corpo uma elegância natural, essa espécie de precisão involuntária que as mulheres realmente belas possuem sem precisarem de a aprender.
Ela virou-se ligeiramente.
Pascal abrandou.
Os olhos.
Primeiro, só pensou nisso.
Olhos verdes. Não. Não apenas verdes. Um verde que se movia. Um verde molhado de azul. Um verde que parecia conter um rio, ou melhor ainda, uma frase que ele ainda não escrevera.
— Verde vertiginoso — murmurou.
A mulher não o ouviu.
Felizmente.
Ele viu-a entrar no café. Ela percorreu a sala com um olhar curioso, hesitou um segundo, depois foi sentar-se à mesa quinze.
A mesa quinze.
Pascal ficou imóvel.
Decididamente, o destino tinha maus modos.
Lá dentro, fez-se silêncio com a rapidez de uma cortina que cai. Claire, atrás do balcão, ficou imóvel com uma cafeteira na mão. Pierrette, perto da caixa, entreabriu a boca. Dois habituais voltaram a cabeça para Pascal, já prontos a saborear o drama.
A mesa quinze não estava apenas ocupada.
Estava ocupada por uma aparição.
Pascal entrou.
Ninguém lançou uma piada. Até as colheres pareciam ter compreendido que era melhor evitar tilintar.
Aproximou-se do balcão.
— Pierrette. Um café, por favor.
A empregada serviu-o em silêncio. Conhecia aquela voz. Era a voz de Pascal quando preparava alguma coisa. Uma voz demasiado calma. Demasiado polida. Quase administrativa.
— Pascal — disse ela docemente —, vais portar-te bem, não vais?
Ele olhou-a com surpresa, como um inocente injustamente suspeito.
— Mas eu porto-me sempre bem.
O que era falso.
Pegou na chávena.
No seu espírito, vários cenários se apresentaram de imediato. Podia tossir. Podia fingir um mal-estar. Podia aproximar-se da mesa com ar alucinado e perguntar se a cadeira lhe tinha falado. Podia também, mais simplesmente, entornar um pouco de café perto da mulher, de modo a fazê-la levantar-se. Nada de grave. Um pequeno abalo do real. Uma artimanha de criança.
Não queria fazer-lhe mal.
Queria apenas recuperar o seu lugar.
Ou talvez já forçá-la a reparar nele.
Avançou.
A mulher ergueu os olhos para ele no exato momento em que chegava perto da mesa. Esse olhar, oferecido sem defesa, desregulou-lhe a comédia. Ele previra uma manobra. Recebeu uma presença.
— Desculpe — disse ela. — Tem horas?
A voz completou o que os olhos tinham começado.
Pascal não entornou o café de propósito.
Não exatamente.
Houve uma hesitação, um tremor mínimo, um movimento desajeitado do pulso. Mas, no fundo de si, uma pequena parte lúcida, um pequeno escrivão da consciência, anotou que o acidente não era inteiramente inocente. Poderia ter retido a chávena. Não o fizera suficientemente depressa.
O café espalhou-se sobre o vestido bege.
A mulher soltou um grito breve.
— Ah! Mas não podia ter cuidado? O meu vestido!
Pascal ficou imóvel, a chávena ainda na mão, numa postura absurda de estátua culpada.
O café salpicara o tecido à altura das coxas e do ventre. Uma mancha escura estendia-se lentamente sobre as flores claras, como se alguém acabasse de estragar uma manhã inteira com uma única frase mal escrita.
Claire e Pierrette acorreram.
— Santo Deus! O vestido tão bonito! — exclamou Claire.
— Agora, Pascal, foste longe demais! — acrescentou Pierrette.
A mulher ergueu os olhos para ele. Já não eram verdes e azuis. Estavam feridos.
— Estragou-me o dia — disse ela. — O meu amigo vem buscar-me daqui a poucos minutos. Devíamos ir tomar brunch juntos.
Pascal quis pedir desculpa. Realmente. Mas sofria daquela enfermidade moral: até os seus remorsos procuravam uma fórmula brilhante.
— Desculpe, minha senhora. Sinceramente. É que… durante um segundo, o mundo desapareceu.
— O seu café também, aparentemente.
A réplica era seca, mas não vulgar. Pascal ficou quase admirado.
— Pagarei a limpeza — disse ele.
— Guarde o seu dinheiro para mandar branquear a pena do chapéu. Talvez tenha sido ela que lhe fez cócegas no ego.
Pierrette abafou uma gargalhada. Claire deu-lhe uma cotovelada.
Pascal corou.
Poderia ter aceitado a humilhação. Poderia ter sido simples. Poderia ter dito: « Tem razão, sou desajeitado. » Mas Pascal possuía o dom infeliz de sujar até as desculpas com literatura.
— Sonhei consigo esta noite — disse.
O silêncio caiu de novo.
A mulher fixou-o.
— Perdão?
— Não sei o seu nome. Nunca a tinha visto. Mas sonhei com um rosto. O seu, creio. Folhas caíam à minha volta. Páginas. E a senhora estava em cada uma delas.
Claire fechou os olhos, como uma mulher que vê chegar uma catástrofe e já não tem força para a impedir.
A mulher levantou-se lentamente.
— Entorna café sobre desconhecidas e depois diz-lhes que elas estavam nos seus sonhos?
— Não é uma estratégia.
Ao dizer isso, Pascal soube que mentia.
Talvez não exatamente desta vez. Mas na sua vida, sim. Tudo se tornava estratégia assim que se sentia ameaçado: a pobreza, a solidão, as frases, os olhares abatidos, a maneira de parecer demasiado frágil para ser responsável.
A mulher, essa, não se deixou enganar.
— Quem é o senhor?
Levou a mão ao chapéu, como se se apresentasse diante de uma duquesa.
— Pascal Pascal. Escritor.
— Publicado?
A pergunta atingiu-o mais duramente do que um insulto.
— Ainda não.
— Então, Pascal Pascal ainda não publicado, aconselho-o a escrever isto algures: as mulheres não são sinais enviados aos homens para alimentar os seus romances.
Ela pegou na mala.
Pascal sentiu algo dentro de si retesar-se. Devia ter-se inclinado. Deixá-la partir. Mas ela acabava de o tocar exatamente onde ele se julgava protegido: na sua grandeza imaginária.
— E a senhora? — perguntou ele. — Quem é, para entrar na vida das pessoas como se já soubesse o que elas valem?
Ela voltou-se.
— Uma cliente manchada.
— Não. É muito mais do que isso.
— E o senhor é muito menos do que pensa.
Desta vez, as duas empregadas não esconderam a satisfação. Pascal sentiu-o. Acabava de perder a sala. Pior: acabava de perder a própria encenação.
Então fez o que sempre fazia quando se sentia descoberto.
Tornou-se digno de pena.
— Peço-lhe desculpa — disse mais baixo. — Não queria magoá-la. Às vezes sou ridículo, mas não sou cruel.
Essa frase, usava-a muitas vezes. Funcionava bem. Obrigava os outros a escolher entre esmagá-lo ainda mais ou reconhecer-lhe uma sensibilidade. A maioria optava pela segunda opção. As pessoas não gostam de se sentir carrascos diante de um homem que baixa a voz.
A mulher hesitou.
Apenas um segundo.
Mas Pascal viu a hesitação. Anotou-a. Guardou-a.
Ela tinha compaixão.
Logo, tinha uma falha.
— Não se preocupe — disse ela finalmente. — Mesmo vivendo longe, o meu amigo fará um desvio. Vou mudar de roupa. De qualquer maneira, ele não gosta deste vestido.
Baixou os olhos para o tecido manchado. O rosto perdeu a dureza.
— Eu gostava dele. Achava-o mágico.
— Mágico?
— Sim. Sempre que o uso, acontece alguma coisa inesperada. Muitas vezes alguma coisa feliz. Hoje, parece que a magia tinha mau gosto.
Pascal olhou para a mancha.
Depois para o vestido.
Depois para ela.
— Talvez a magia nem sempre seja amável ao primeiro contacto.
— Que frase conveniente para um homem que acabou de cometer uma asneira.
— As frases convenientes são por vezes as mais verdadeiras.
Ela abanou a cabeça, quase apesar de si. Não sorriu. Não verdadeiramente. Mas uma sombra de sorriso passou, e Pascal agarrou-se a ela com a avidez discreta de um ladrão.
Pierrette, que ainda limpava o tecido com uma toalha húmida, ergueu subitamente os olhos para a cliente.
— Minha senhora, tenho de lhe dizer uma coisa. Não deve ouvi-lo muito quando ele fica assim.
— Pierrette, não — disse Pascal.
— Sim, Pascal. Sim. Porque agora estás a fazer de pobre mártir, e isso não é honesto.
A mulher voltou para a empregada um olhar atento.
— Quase todos os domingos — prosseguiu Pierrette —, o senhor Pascal vem instalar-se aqui, nesta mesa. Se alguém está sentado no lugar dele, faz fitas até a pessoa se ir embora. Nunca tinha entornado café, mas…
— Pierrette — disse Pascal —, foi um acidente.
— Talvez. Mas contigo os acidentes muitas vezes parecem ensaiados.
Essa frase ficou suspensa.
Pascal sentiu uma cólera fria subir-lhe. Não contra Pierrette. Não exatamente. Contra aquela exatidão. Contra a maneira como ela o despia diante da desconhecida.
A mulher apanhou a mala.
— Agora compreendo melhor.
— Não — disse Pascal. — Não compreende. Elas exageram. Gostam de me caricaturar. É a maneira delas de gostarem de mim.
— E a sua, qual é? Fazer fugir as pessoas dos seus lugares?
Ele quis responder. Não encontrou nada.
A mulher dirigiu-se para a saída. Antes de atravessar a porta, voltou-se uma última vez.
— Quando voltar a ver-me, senhor Pascal, guarde os seus sonhos para si. E saia-me da frente.
Saiu.
Pascal ficou plantado no meio do café.
Lá fora, a luz da manhã envolveu-a de imediato. A mulher parou no passeio, como se já não soubesse muito bem onde pousar a cólera. Pascal olhava-a através da montra. Teria querido correr para ela. Teria querido pedir desculpa sem figuras de estilo. Teria querido ser um homem simples.
Não era capaz.
Um BMW cinzento parou diante dela.
Um homem elegante saiu imediatamente. Bigode fino, casaco impecável, gestos rápidos mas calculados. Tinha a pressa de quem está atrasado, mas a segurança de quem acredita que o mundo esperará na mesma. Contornou o carro e abriu a porta com uma galanteria tão precisa que parecia aprendida num manual de dominação cortês.
— Bom dia, Louise — disse ele. — Lamento estar atrasado. Tive de passar pelo escritório. Algumas chamadas para o estrangeiro. Dossiês a verificar. Sabes como é.
Louise.
Pascal recebeu o nome como uma bofetada doce.
Louise.
Repetiu-o interiormente, já a roubá-lo.
Jean Chauvet, por seu lado, só reparou primeiro no vestido.
— Mas que mancha é essa?
— Café.
— Podias ter tido cuidado.
Louise enrijeceu.
Pascal, atrás da montra, observou a cena. Aquele Jean era um homem desagradável. Visível. Quase repousante na sua mediocridade. Um egoísta clássico. Um manipulador de boa família. Um daqueles homens que ferem julgando gerir.
Pascal desprezou-o imediatamente.
O que lhe permitiu esquecer comodamente que ele próprio acabara também de ferir Louise.
— Temos de passar por minha casa — disse ela. — Preciso de me mudar.
— Não temos propriamente tempo. William Lee espera-nos no Ritz.
— William Lee?
— Um investidor. Falei-te dele.
— Não.
— Ah. Devo ter-me esquecido. Mas é importante, Louise. Muito importante. Para nós dois.
Ela baixou os olhos para o vestido.
Jean pousou uma mão possessiva na parte inferior das suas costas.
— Depois, para me redimir, iremos ao chalé. Preparo-te codornizes com estragão.
Pascal viu o gesto. Aquela mão. Aquela maneira de guiar o corpo de Louise para o carro, dando à ordem a aparência de uma atenção.
Jean voltou subitamente a cabeça para ele.
Os olhares cruzaram-se.
— Irrita-me, aquele tipo — disse Jean.
Louise seguiu-lhe a direção do olhar. Viu Pascal no enquadramento da porta do café. Ele parecia ainda mais ridículo do que antes, com o chapéu, a pena, a capa e a vergonha mal disfarçada.
— Conhece-lo? — perguntou Jean.
— Não.
Mentiu por pouco. Não o conhecia. Apenas o encontrara como se encontra um mau presságio.
— Parece um pobre louco — acrescentou Jean. — Ou um poeta, o que muitas vezes vem dar ao mesmo.
Louise sentou-se no carro.
Não respondeu.
Pascal, imóvel, viu-os partir.
No momento em que o BMW se afastou, experimentou uma sensação estranha. Não apenas arrependimento. Não apenas desejo. Algo mais turvo. Quisera a sua mesa. Obtivera um nome. Perdera a manhã, mas ganhara um começo.
Regressou lentamente à mesa quinze.
Agora estava livre.
A mancha de café permanecia no chão, perto da cadeira. Claire limpava-a com um pano.
— Devias ter vergonha — disse ela.
— Tenho vergonha.
— Não. Estás a representar que tens vergonha.
Ele olhou-a.
Desta vez, não encontrou réplica.
Sentou-se no lugar de Louise.
Diante dele, num dos espelhos, viu o próprio rosto sob o chapéu grotesco. Um homem de quarenta e sete anos, pobre, vaidoso, ferido, e já ocupado a transformar a culpa em matéria literária.
Tirou o caderno.
Na primeira linha, escreveu:
« Chamava-se Louise, e eu roubara-lhe primeiro o vestido antes mesmo de ousar roubar-lhe o coração. »
Releu a frase.
Demasiado bonita.
Demasiado culpada.
Demasiado útil.
Sorriu apesar de si.
Depois conservou-a.
FIM DO CAPÍTULO I