Louise pediu alguns dias de folga à Maison Valombre.
Esperava ter de explicar demoradamente, justificar a partida, tranquilizar Solange, Armand, Camille, Noé, Baptiste, como se Paris corresse o risco de ruir porque ela regressava a Montréal para enterrar um homem que já nem sabia como amar.
Mas Solange Arvay fez-lhe apenas uma pergunta.
— Vai voltar?
Louise hesitou.
Não porque não quisesse voltar. Pelo contrário. Tinha medo de responder demasiado depressa.
— Sim — disse enfim. — Acho que sim.
— Não ache. Volte.
Era a sua maneira de lhe conceder ternura.
Armand Vidal estendeu-lhe um envelope com croquis dobrados.
— Para o avião. Corrige-os, se não dormir.
— É de uma delicadeza rara, senhor Vidal.
— Eu sei. Censuram-me por isso.
Noé beijou-a nas duas faces com uma intensidade dramática.
— Não deixe que ninguém a volte a meter numa caixa montralesa. Nem mesmo numa bela caixa.
Baptiste deslizou-lhe para a mão um pequeno quadrado de tecido pálido.
— Um pedaço do vestido fantástico. Para se lembrar de que Lou existe.
Camille, que nunca se enternecia inutilmente, limitou-se a ajeitar a gola do casaco de Louise.
— Os funerais cansam menos quando se está bem direita dentro da roupa.
Louise sorriu.
— Isso é quase uma máxima.
— Não. É uma instrução.
Partiu no dia seguinte.
No avião, dormiu pouco. Através da vigia, as nuvens pareceram-lhe feitas do mesmo tecido que o vestido fantástico: uma matéria leve, quase impossível de coser, mas capaz de transportar sombras.
Pensou em Jean Chauvet.
Não apenas na sua morte.
Na sua maneira de entrar numa divisão como se os móveis lhe devessem espaço. No riso curto. Nos silêncios calculados. No dinheiro. Nas censuras. Nas mãos que assinavam cheques com menos emoção do que outros assinam um cartão de aniversário. Nos elogios raros, por vezes tão desajeitados que pareciam ordens.
Jean fora um obstáculo, um apoio, uma ameaça, uma segurança. Um homem de poder. Um homem de medo. Um homem que quisera protegê-la possuindo-a.
Morto, tornava-se mais difícil julgá-lo.
Era muito irritante.
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Em Montréal, o ar parecia mais cru.
Paris tinha cinzentos elegantes; Montréal tinha cinzentos francos, mais húmidos, menos polidos. Louise foi diretamente para casa, pousou a mala, tomou um duche, mudou de roupa e dirigiu-se à Coração de Tecido.
A loja estava aberta.
Essa simples verdade comoveu-a mais do que teria imaginado.
A montra fora refeita. O vestido vermelho já não estava sozinho. À volta dele, Marie-Soleil dispusera tecidos escuros, lenços, um casaco marfim e um cartaz manuscrito:
UMA MULHER NEM SEMPRE PRECISA DE UMA OCASIÃO PARA SER BELA.
Louise ficou lá fora alguns segundos.
— Isto não é meu — disse.
Atrás dela, uma voz respondeu:
— Não. Mas poderia ter sido.
Voltou-se. Marie-Soleil estava ali, envolta num casaco violeta, com os olhos cansados mas brilhantes.
Louise abraçou-a.
Depois Élodie saiu da loja e quase se lançou nos seus braços. Claire apareceu com dois cafés. Até o velho senhor da lavandaria vizinha pôs a cabeça à porta para dizer:
— Voltou, a Parisiense!
A loja aguentara.
Não só aguentara. Vivera.
As vendas não tinham explodido, mas as empregadas tinham aprendido a decidir sem tremer. Élodie vendera melhor do que julgava possível. Claire desenvolvera um método estranho que consistia em perguntar às clientes o que queriam esconder, para depois as levar a experimentar exatamente o contrário. Marie-Soleil vinha todos os dias, oficialmente para « vigiar as vibrações », oficiosamente para impedir Pascal Pascal de colonizar a atmosfera.
— E o Pascal? — perguntou Louise.
O nome provocou um pequeno arrefecimento.
Élodie baixou os olhos.
Claire tomou um gole de café.
Marie-Soleil respondeu:
— Hoje não veio.
— Sabe que voltei?
— Provavelmente.
— Como estava depois da morte do Jean?
— Calmo demais.
Louise franziu o sobrolho.
— Calmo demais?
— Sim. Disse que certos homens não morrem, retiram-se do palco para melhor julgar o último ato.
— Muito Pascal.
— Depois desapareceu.
— Desde quando?
— Desde ontem à noite.
Louise olhou para o andar por cima da loja.
— As coisas dele?
— Ainda estão lá, creio. Mas não mostrou a ponta do lenço.
Essa ausência deveria tê-la aliviado.
Inquietou-a.
Pascal Pascal era dissimulado, vaidoso, insinuante e perigoso à sua maneira. Mas gostava demasiado de cenas para faltar a um regresso, a um funeral ou a uma crise. A sua ausência não era vazio. Era uma frase interrompida.
— Veremos mais tarde — disse Louise.
Entrou na loja.
O cheiro dos tecidos acolheu-a como uma casa.
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O funeral de Jean Chauvet realizou-se na manhã seguinte.
O número de pessoas fora estritamente controlado. Isso não surpreendeu ninguém. Mesmo morto, Jean não parecia querer deixar entrar qualquer pessoa numa sala onde ocupava o centro.
A cerimónia decorreu numa capela sóbria, quase fria. Flores brancas. Madeira escura. Silêncio de circunstância. Alguns homens de fatos caros. Duas mulheres que Louise não conhecia, elegantes sem tristeza aparente. William Lee, o homem de negócios associado a Jean, sentado na primeira fila, de rosto fechado. O notário, mestre Delaunay, discreto, ligeiramente curvado, já presente como um parágrafo legal entre as orações.
Louise fora convidada.
Não estava sozinha.
Élodie, Claire e Marie-Soleil acompanhavam-na. Tinham-se colocado perto dela sem nada perguntar, formando em redor da sua dor incerta uma pequena muralha de fidelidade. Havia ali algo mais sólido do que uma família oficial.
— Estamos deslocadas? — sussurrara Élodie antes de entrar.
— Não — respondera Louise. — Estão exatamente no vosso lugar.
Pascal não estava lá.
Louise reparou logo.
Procurou-o sem querer procurá-lo, examinando chapéus, casacos, perfis. Nada. Nenhuma silhueta poética num canto. Nenhum olhar divertido atrás de uma coluna. Nenhuma presença teatral disposta a transformar a morte de Jean em cenário para as próprias frases.
Essa ausência lançava uma sombra diferente.
A cerimónia foi breve.
Um padre falou de responsabilidade, de generosidade, da obra de um homem que marcara o seu meio. Louise escutava em silêncio, incapaz de ligar completamente aquelas palavras a Jean. Generosidade? Sim, por vezes. Responsabilidade? Sem dúvida. Mas não se falava do seu controlo, do seu orgulho, dessa forma de dar que mantinha uma mão sobre aquilo que dava.
Ela não lhe guardou rancor.
Os funerais não são feitos para dizer toda a verdade. Apenas para que os vivos suportem continuar.
No cemitério, o vento era cortante.
O caixão desceu lentamente à cova. Nesse instante, Louise sentiu qualquer coisa fechar-se. Não a sua dor. Não a sua história com Jean. Algo mais administrativo e mais profundo. Uma porta cuja chave ela não tinha acabava de se trancar do outro lado.
Élodie chorava um pouco.
Claire mantinha os braços cruzados.
Marie-Soleil olhava para o buraco como se tentasse ler nele uma mensagem.
William Lee aproximou-se de Louise depois das últimas palavras.
— Senhora Lang.
— Senhor Lee.
— Jean estimava-a muito.
Louise sustentou-lhe o olhar.
— Tinha uma maneira particular de o exprimir.
— Sim. Ele era particular.
— É uma palavra prudente.
William Lee quase sorriu, mas conteve-se.
— É provável que receba comunicações nos próximos dias.
— A propósito de quê?
— De certas disposições.
— Podia ser mais claro.
Olhou à volta.
— Não aqui.
Antes que ela pudesse insistir, aproximou-se um jovem de casaco preto. Não parecia pertencer ao funeral. Demasiado apressado. Demasiado direito. Demasiado vivo.
— Senhora Louise Lang?
— Sim.
Entregou-lhe um envelope creme, espesso, com o nome dela escrito à mão.
— Da parte do mestre Delaunay.
Louise pegou no envelope.
— Obrigada.
O mensageiro inclinou-se ligeiramente e afastou-se.
Marie-Soleil inclinou-se.
— O que é?
Louise abriu.
Lá dentro, um cartão breve.
Minha Senhora,
De acordo com as instruções do falecido senhor Jean Chauvet, solicita-se a sua presença no meu escritório hoje mesmo, às catorze horas e trinta minutos, para a leitura de certas disposições testamentárias que lhe dizem respeito.
Queira aceitar, Minha Senhora, a expressão dos meus sentimentos respeitosos.
Mestre Augustin Delaunay, notário
Louise releu duas vezes.
— Hoje? — perguntou Claire.
— Sim.
Élodie empalideceu.
— Disposições testamentárias… quer dizer que ele lhe deixou alguma coisa?
Louise dobrou o cartão.
— Provavelmente uma dívida moral.
Marie-Soleil não sorriu.
— Vais lá.
— Sim.
— Vamos contigo.
— Não.
— Louise.
— Não, Marie. Desta vez, não.
Olhou para o caixão no fundo da cova.
— Jean falou-me a sós vezes suficientes enquanto era vivo. Posso ouvi-lo uma última vez dessa maneira.
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O escritório do mestre Delaunay ficava num edifício antigo do centro da cidade, com uma sala de espera demasiado silenciosa e poltronas que pareciam ter ouvido várias más notícias.
Louise chegou dez minutos adiantada.
Usava um vestido preto simples, um casaco comprido e, no bolso, o pequeno pedaço de tecido do vestido fantástico que Baptiste lhe dera. Deslizava os dedos sobre ele sempre que sentia a respiração desregular-se.
Mestre Delaunay veio buscá-la pessoalmente.
— Senhora Lang.
— Mestre.
Introduziu-a num gabinete onde tudo parecia classificado havia um século. Lambris, livros encadernados, candeeiro verde, dossiers alinhados. William Lee já estava presente, sentado junto à janela. Isso não agradou a Louise.
— Também está aqui?
— Sim — respondeu ele. — A pedido de Jean.
O notário indicou uma cadeira.
— Faça favor.
Louise sentou-se.
— Confesso que não compreendo muito bem a minha presença.
Mestre Delaunay juntou as mãos.
— O senhor Chauvet tinha previsto que diria isso.
Louise sentiu uma irritação atravessar-lhe o peito.
— Mesmo morto, corrige-me.
O notário teve um sorriso muito leve.
— O senhor Chauvet reviu o testamento há cerca de seis meses. Estava perfeitamente lúcido. Os documentos foram validados, assinados e registados segundo as regras.
— Muito bem. Mas em que é que isso me diz respeito?
William Lee baixou os olhos.
Mestre Delaunay abriu um dossier.
— Senhora Lang, Jean Chauvet designa-a como sua legatária universal.
Louise ficou imóvel.
— Perdão?
— Herda todos os seus bens pessoais, participações empresariais, ativos financeiros, imobiliários e mobiliários, sob reserva de alguns legados particulares já previstos.
A sala pareceu afastar-se.
— Não.
— Compreendo que a notícia seja considerável.
— Não — repetiu Louise. — Deve haver um erro.
— Não há erro.
— Jean nunca teria…
Interrompeu-se.
Porque, na verdade, não sabia.
Jean poderia tê-lo feito.
Jean era capaz de gestos enormes, desde que permanecessem sob o seu controlo. Legar uma fortuna depois da morte: era ainda uma maneira de continuar na sala.
— Toda a fortuna dele? — perguntou.
— Sim.
— Os negócios?
— Também.
— Os imóveis?
— Sim.
— As aplicações?
— Sim.
— As quotas nas sociedades?
— Sim.
A respiração de Louise encurtou-se.
— Não posso.
William Lee interveio suavemente.
— Legalmente, pode.
— Não estou a falar de direito.
Mestre Delaunay estendeu-lhe um copo de água.
Ela pegou nele, mas a mão tremia tanto que a água vacilou.
— Porquê? — perguntou.
O notário tirou um segundo envelope.
— O senhor Chauvet deixou uma carta destinada a ser-lhe entregue depois do anúncio principal.
Louise fixou o envelope.
— Leia-a.
— Prefere que eu…
— Leia-a.
Mestre Delaunay abriu o envelope e leu.
« Louise,
Se ouves esta carta pela voz de Delaunay, é porque morri, o que já me irrita. Detesto deixar coisas inacabadas.
Vais pensar que te lego tudo por culpa. Seria lisonjeiro para ti e demasiado simples para mim. Lego-te tudo porque és a única pessoa à minha volta que ainda tem a coragem de criar algo que não seja apenas útil.
Passei a vida a construir, comprar, proteger, controlar. Tens razão: confundi muitas vezes ajudar com possuir. Não te pedirei perdão. Nunca tive jeito para a humildade, e seria ridículo começar numa carta póstuma.
Mas sei reconhecer uma força quando a vejo.
Tiveste mais medo de vencer do que de falhar. Quis empurrar-te. Por vezes esmaguei-te. Mesmo assim, safaste-te.
Faz do meu dinheiro algo que eu não teria sabido fazer.
E, sobretudo, não deixes que ninguém te convença de que me deves a vida. Estou morto. É muito prático: já não posso reclamar-te juros.
Jean »
O silêncio durou muito tempo.
Louise tinha os olhos fixos na superfície da secretária. Sentia o sangue abandonar-lhe o rosto.
— Senhora Lang? — perguntou o notário.
Tentou responder, mas a sala inclinou-se ligeiramente.
William Lee levantou-se.
— Vai cair.
— Não — murmurou Louise.
Mas o corpo já não a escutava.
O notário contornou rapidamente a secretária. William Lee segurou-lhe o ombro. Fizeram-na baixar a cabeça. Abriram uma janela. O ar frio entrou.
Louise não perdeu completamente os sentidos. Ficou à beira, nesse lugar estranho onde os ruídos parecem vir debaixo de água.
Toda a fortuna de Jean.
Todos os negócios.
Tudo.
O poder que a intimidara acabava de mudar de mãos.
E essa mão era a sua.
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Nos dias que se seguiram, Louise descobriu que o dinheiro não chega como uma chuva de ouro.
Chega como uma avalanche de documentos.
Contas. Sociedades. Imóveis. Aplicações. Contratos. Seguros. Procurações. Fiscalidade. Assinaturas. Reuniões. Consultores. Inventários. Responsabilidades.
Jean Chauvet não deixara uma fortuna.
Deixara um império.
Não o maior. Não um império de romance. Mas suficientemente vasto para transformar a vida de Louise para além do verosímil.
William Lee acompanhou-a nos primeiros passos com uma competência que a tranquilizou e uma reserva que a surpreendeu.
— Sabia? — perguntou-lhe um dia.
— Uma parte.
— Desde quando?
— Há alguns meses.
— E não disse nada.
— Jean provavelmente ter-me-ia processado a partir do além.
— Está a brincar?
— Estou a tentar. É novo para mim.
Louise ainda não sabia se confiava nele. Mas ele conhecia os dossiers. E, sobretudo, não tentava falar por ela.
A Coração de Tecido foi salva em primeiro lugar.
Não por orgulho.
Por reconhecimento.
Louise pagou as dívidas. Resgatou as linhas de crédito. Regularizou os fornecedores. Mandou reparar a fachada. Substituiu a iluminação. Abriu um fundo para criar uma primeira pequena coleção própria.
Depois reuniu Élodie, Claire e Marie-Soleil na retaguarda da loja.
Sobre a mesa, três envelopes.
Élodie olhou para o seu como se receasse uma má notícia.
— O que é isto?
— Um presente — disse Louise.
— Não gostamos dessa palavra quando vem de uma patroa — declarou Claire.
— Então chamemos-lhe uma prova.
Marie-Soleil, que já compreendera, ficou calada.
— Mantiveram a loja aberta quando parti — retomou Louise. — Apoiaram-me antes mesmo de saberem se eu merecia ser apoiada. Deram-me tempo. Deram-me ar. Por isso, dou-vos algo para respirarem um pouco, por vossa vez.
Élodie abriu o envelope e levou logo uma mão à boca.
— Senhora Lang…
— Louise.
— Não posso aceitar isto.
— Podes.
Claire abriu o dela e praguejou baixinho.
— É demais.
— Não.
— Sim.
— Então faz de conta que é menos.
Marie-Soleil nem sequer olhou imediatamente para o montante.
Fixou Louise.
— Cuidado.
— Com quê?
— Com quereres reparar o mundo porque acabaste de herdar um homem complicado.
Louise acusou o golpe.
— Não é isso que estou a fazer.
— Um pouco.
— Talvez.
— Então fá-lo bem.
Riram-se as quatro, mas Louise sentiu nesse riso uma nova aliança.
Também atribuiu prémios às outras empregadas. Regularizou salários em atraso. Criou um fundo de emergência para quem viesse a precisar. Não queria tornar-se uma benfeitora teatral. Queria apenas que ninguém, à sua volta, tremesse diante de uma fatura como ela tremera.
Quanto a Pascal Pascal, continuava impossível de encontrar.
As coisas dele ainda estavam por cima da loja.
Os livros, as camisas, o casaco velho, alguns cadernos.
Mas ele desaparecera.
— Ele voltará quando sentir que a cena mudou — disse Marie-Soleil.
Louise não respondeu.
Sabia que Marie tinha razão.
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A notícia correu rapidamente por Montréal.
Louise Lang, herdeira de Jean Chauvet.
Uns diziam amante. Outros, protegida. Outros, manipuladora sortuda. Alguns, mais maldosos, falavam em recompensa póstuma. Louise aprendeu depressa que o dinheiro atrai interpretações como as lâmpadas atraem insetos.
Decidiu não responder.
Tinha mais que fazer.
Regressou a Paris três semanas mais tarde.
Na Maison Valombre, Solange Arvay esperava-a no gabinete.
— Parece que ficou rica.
— As notícias atravessam depressa o Atlântico.
— O dinheiro viaja sempre mais depressa do que o talento.
— É encorajador.
Solange indicou-lhe uma cadeira.
— O que quer?
Louise sorriu.
— Não perde tempo.
— Nunca voluntariamente.
Louise pousou um dossier sobre a secretária.
— Quero investir na Maison Valombre.
Solange não tocou no dossier.
— Porquê?
— Porque esta casa me deu um lugar quando eu precisava dele.
— Má razão.
— Porque acredito no seu trabalho.
— Melhor, mas insuficiente.
— Porque quero que a Valombre tenha meios para correr riscos sem se tornar escrava de compradores prudentes.
Solange permaneceu imóvel.
— Continue.
— Não quero comprar a sua casa. Não quero controlá-la. Não quero transformar os seus desfiles num brinquedo de bilionária. Quero investir no atelier, nas matérias, nos artesãos, nos jovens criadores. E quero uma ligação entre a Valombre e a Coração de Tecido. Não uma cópia. Uma ponte.
— Uma ponte?
— Paris e Montréal. Alta-costura e mulheres reais. Sonho e uso. Ainda não sei exatamente como. Mas quero que isso exista.
Solange abriu enfim o dossier.
Leu lentamente.
— Propõe muito dinheiro.
— Jean tinha muito.
— E decidiu gastá-lo depressa?
— Não. Fazê-lo circular.
Solange ergueu os olhos.
— Mudou.
— Sim.
— Por causa do dinheiro?
Louise refletiu.
— Não. O dinheiro apenas me retirou certas desculpas.
Solange pareceu apreciar a resposta.
— Vou estudar esta proposta.
— Claro.
— E, se aceitar, aviso-a: não a deixarei confundir mecenato com intervenção sentimental.
— Já esperava.
— Não desenhará um vestido simplesmente porque financia um atelier.
— Desenharei um vestido se ele for bom.
— E se for mau?
— Dir-mo-á.
— Com prazer.
Louise sorriu.
— Foi por isso que voltei.
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A última compra foi a mais imprevista.
Um rancho.
A palavra fê-la rir da primeira vez que William Lee a pronunciou.
— Um rancho?
— Uma propriedade rural com pastagens, estábulos e edifícios anexos.
— Portanto, um rancho.
— Se quiser.
— Nunca possuí um cavalo.
— Justamente. Este já os possui.
Explicou-lhe o dossier. Uma propriedade à venda, a algumas horas de Montréal. Antiga criação mal gerida. Vários cavalos idosos, feridos ou considerados improdutivos corriam o risco de ser vendidos para o matadouro se ninguém retomasse rapidamente o conjunto.
Louise escutava.
Primeiro com interesse.
Depois com uma emoção que a surpreendeu.
— Seriam abatidos?
— Alguns, sim.
— Porque já não dão lucro?
— É muitas vezes assim.
Pensou nos vestidos que não se usam por serem demasiado ousados. Nas mulheres que se dizem demasiado velhas para serem belas. Nos talentos que se afastam porque não entram no quadro certo. Em Jean, que transformara os seres em investimentos. Nela própria, que quase se vendera à prudência.
— Compre-o — disse.
William Lee pestanejou.
— Quer visitá-lo primeiro?
— Sim. Mas compre-o.
— Seria sensato…
— Senhor Lee, fui razoável com demasiadas coisas. Não com esta.
Alguns dias depois, visitou a propriedade.
Estava frio. O céu era vasto. A terra, ainda dura, guardava marcas de cascos e de cansaço. Os estábulos precisavam de reparações. As vedações também. A casa principal era grande, simples, um pouco triste.
Depois viu os cavalos.
Alguns eram magníficos apesar da idade. Outros, magros, nervosos, desconfiados. Um grande cavalo castanho coxeava ligeiramente. Uma égua cinzenta mantinha a cabeça baixa. Um velho cavalo negro fixou-a longamente com um olho tão profundo que Louise sentiu a garganta apertar-se.
O proprietário falou de valor, rendimento, custos de manutenção.
Louise quase já não ouvia.
Aproximou-se suavemente da égua cinzenta. O animal não se mexeu. Louise estendeu a mão, sem tocar primeiro. Esperou.
A égua acabou por soprar contra os seus dedos.
Esse sopro quente decidiu tudo.
— Eles ficam aqui — disse Louise.
William Lee, atrás dela, tomou nota.
— Todos?
— Todos.
— Mesmo os que já não podem ser montados?
Louise voltou-se para ele.
— Sobretudo esses.
O rancho tornou-se rapidamente um refúgio.
Contratou uma veterinária, dois tratadores, uma mulher especializada na reabilitação de cavalos maltratados. Mandou reparar as vedações, ampliar alguns cercados, melhorar os abrigos. Recusou que o lugar se tornasse uma atração mundana. Não seria o capricho campestre de uma herdeira. Seria um lugar de repouso.
Chamou-lhe Os Prados da Segunda Oportunidade.
Marie-Soleil achou o nome demasiado explícito.
— Parece uma brochura.
Louise respondeu:
— Ainda bem. Os cavalos não leem metáforas.
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Uma noite, de pé junto à vedação, Louise olhou para o velho cavalo negro que caminhava lentamente no prado.
Já não servia para nada, segundo os antigos critérios.
Era, portanto, finalmente livre de existir.
Pensou em Jean.
No que ele teria dito.
Provavelmente:
— Isso não é rentável.
Depois, talvez, após um silêncio:
— Mas é teu.
Louise sorriu.
Oferecera dinheiro às que a tinham apoiado. Salvara a loja. Estendera a mão à Valombre. Comprara um refúgio para cavalos prometidos a um fim indigno.
Pela primeira vez desde há muito tempo, a sua fortuna não lhe pareceu apenas enorme.
Pareceu-lhe orientada.
Ao longe, um cavalo relinchou. Outro respondeu.
O vento passou sobre os prados.
Louise deslizou a mão no bolso e reencontrou o pedaço de tecido do vestido fantástico.
Apertou-o suavemente.
Jean Chauvet deixara-lhe um império.
Ela começava a fazer dele um mundo.
FIM