Louise Lang chegou diante do 4357 Saint-Denis com doze minutos de avanço sobre o seu próprio medo.
Permaneceu um instante imóvel no passeio, o molho de chaves na mão direita, a mala contra a anca, a agenda presa debaixo do braço. A rua ainda não estava completamente acordada. Alguns carros passavam com aquela moleza das manhãs de domingo, as montras vizinhas refletiam uma luz pálida, e os primeiros caminhantes do bairro pareciam procurar no ar uma razão para abrandar.
Diante dela, a montra da loja brilhava com um fulgor novo.
CORAÇÃO DE TECIDO
As letras douradas, pintadas na véspera por um artesão minucioso e um pouco falador, pareciam ainda hesitar entre letreiro comercial e declaração de amor. Louise duvidara durante muito tempo do nome. Demasiado doce? Demasiado ingénuo? Demasiado feminino? Demasiado facilmente ridicularizável por aqueles que só veem numa peça de roupa um preço, uma margem de lucro e uma ocasião de parecer?
Depois, numa manhã, deixara de duvidar.
Coração de Tecido.
Era exatamente isso. O coração, porque queria vender outra coisa que não simples pronto-a-vestir. O tecido, porque há na matéria uma memória que as pessoas apressadas não suspeitam. Os vestidos guardam algo das mulheres que os usam. Os casacos tomam a postura dos homens que os endireitam. Os lenços conhecem os segredos dos pescoços. Até um simples forro pode tornar-se uma confissão.
Louise sorriu.
— Bom. Vamos a isto.
Introduziu a chave na fechadura com a lentidão atenta de alguém que tenta abrir um cofre-forte. No seu espírito, esse gesto continha mais do que uma mecânica. Não abria apenas uma porta. Entrava numa versão possível de si mesma.
A chave rodou.
O estalido foi nítido.
A palavra-passe acabava de ser aceite.
Lá dentro, tudo estava pronto. Ou quase.
Os expositores ocupavam os seus lugares com uma elegância estratégica. Os vestidos compridos, classificados por tons, caíam como cascatas silenciosas. Os casacos curtos, mais insolentes, esperavam em cabides de madeira clara. As blusas estavam arrumadas por famílias de humor: discretas, leves, audaciosas, profissionais, perigosas. Louise gostava dessa classificação secreta. Ninguém a veria jamais no inventário, mas ela permitia-lhe pensar a loja como um teatro.
Perto da montra, três manequins já usavam as peças que escolhera para a abertura.
O primeiro, ligeiramente voltado para a rua, usava um conjunto creme, sóbrio e quase aristocrático. O segundo, de aspeto mais jovem, exibia um vestido azul-noite cujo corte parecia ter sido desenhado para uma mulher que decide deixar de pedir desculpa por existir. O terceiro, colocado mais atrás, vestia um vestido vermelho de mangas fluidas.
Louise aproximou-se deste último manequim.
— Tu vais assustar as tímidas — murmurou. — Muito bem.
Corrigiu a linha de uma manga. Reajustou um alfinete. Recuou um passo.
Não. Não estava perfeito.
Voltou. Deslocou o manequim alguns centímetros na direção da luz. Desta vez, o vestido agarrou o sol da manhã e serviu-se dele como de um cúmplice.
— Assim.
Nunca acreditara nas coisas que resultam por acaso. Acreditava no trabalho. Nas listas. Nos cálculos. Nos fornecedores a quem se volta a ligar três vezes. Nos orçamentos verificados até ao esgotamento. Nos detalhes que ninguém nota, mas que impedem as catástrofes de acontecer.
Aos trinta e nove anos, Louise possuía o espírito de uma mulher de negócios e o olhar de uma artista. O primeiro permitia-lhe sobreviver. O segundo impedia-a de se trair completamente.
Sobre o balcão, a agenda estava aberta na página do dia.
ABERTURA OFICIAL — 10 H
Por baixo, tinha feito uma lista:
Flores diante da montra.
Expositor dos lenços.
Café / copos / guardanapos.
Verificar a caixa.
Ligar ao fornecedor n.º 2.
Receber caixas.
Não entrar em pânico.
Não matar Jean.
Releu a última linha e sorriu apesar de si.
Jean Chauvet devia chegar antes das dez horas. Tinha prometido. Ora, as promessas de Jean possuíam uma qualidade particular: eram sólidas enquanto serviam os seus interesses imediatos.
Oito meses antes, fora ele quem lhe encontrara os capitais necessários para o arranque da Coração de Tecido. Apresentara a coisa como um gesto de amor, ou antes, como um gesto de confiança. Com Jean, as duas palavras eram intercambiáveis quando queria ser beijado.
Louise não era ingénua.
Sabia que ele acreditava na loja sobretudo porque acreditava nela como ativo rentável. Muitas vezes, ela ajudara-o a sair de apuros financeiros, a detetar falhas, a avaliar riscos, a salvar aparências. Jean admirava a sua inteligência quando esta servia os negócios dele. Achava-a menos encantadora quando servia a liberdade dela.
O telefone tocou.
Louise sobressaltou-se.
— Coração de Tecido, bom dia.
Sentiu um prazer quase infantil ao pronunciar o nome.
— Louise? Sou eu.
A voz de Jean tinha aquela segurança untuosa dos homens que se perdoam antes mesmo de terem errado.
— Bom dia, Jean.
— Já estás na loja?
— Evidentemente. É a abertura.
— Sim, sim, eu sei. Justamente. Vou atrasar-me um pouco.
Louise fechou os olhos.
— Quanto?
— Pouco. Talvez uma hora.
— Jean.
— Não posso fazer de outra maneira. William Lee voltou a ligar-me. Há um documento a rever. Uma possível assinatura. Compreendes, é importante.
— Mais importante do que a abertura da minha loja?
Seguiu-se um breve silêncio. Jean detestava perguntas que exigiam uma resposta honesta.
— Não comeces o dia assim, Louise. Eu ajudei-te, não ajudei? Estou contigo.
— À distância.
— Estarei aí. E, além disso, não precisas de mim para vender vestidos. És perfeita nesse papel.
Esse papel.
Louise olhou para os expositores. Os vestidos. A montra. A caixa nova. As etiquetas escritas à mão.
— Isto não é um papel, Jean.
— Não sejas suscetível. Sabes o que quero dizer.
Ela sabia muito bem. Esse era o problema.
— Tenho fornecedores que devem chegar de um minuto para o outro. Caixas pesadas. Muitas caixas.
— Pede a alguém que te ajude.
— A quem?
— À tua amiga, a vidente.
— A Marie-Soleil não é vidente. É intuitiva.
— É o que eu digo.
— Não. Não é o que dizes.
Jean suspirou. Louise conhecia aquele suspiro. Significava: « Sou demasiado importante para esta nuance. »
— Vou o mais depressa possível — disse ele. — E descontrai-te. Vai ser um sucesso. Tens bom gosto, tens faro, tens o meu apoio.
O meu apoio.
Ela sentiu nessa fórmula a pequena corrente dourada que ele gostava de lhe passar ao pescoço.
— Até logo, Jean.
Desligou antes que ele pudesse acrescentar uma ternura estratégica.
Alguns segundos depois, a sineta da porta tilintou.
Louise voltou-se vivamente.
Marie-Soleil Myhrre entrou na loja como se nunca atravessasse uma porta sem primeiro cumprimentar os espíritos da divisão. Usava uma saia ampla, um xaile turquesa e vários braceletes que se entrechocavam a cada gesto. Aos quarenta anos, possuía uma juventude estranha, não no rosto, mas na maneira de acolher as coisas. Como se nada lhe pudesse acontecer sem se tornar imediatamente um presságio.
— Senti o teu stress desde a esquina da rua — declarou ela.
— Bom dia para ti também.
Marie-Soleil abriu os braços.
Louise deixou-se envolver. O abraço fez-lhe bem.
— Ele está atrasado? — perguntou Marie-Soleil.
— Quem?
— O belo abutre.
— Jean.
— Foi o que eu disse.
Louise riu. Esse riso desatou qualquer coisa no seu peito.
Marie-Soleil recuou para observar a loja.
A sua expressão mudou. Os olhos percorreram os expositores, os espelhos, os três manequins na montra, os lenços ainda por dispor, os candeeiros quentes, o balcão, as paredes claras, as etiquetas elegantes. Não falou logo. Era raro. Louise ficou comovida.
— Então? — perguntou.
Marie-Soleil pousou uma mão sobre o coração.
— Está viva.
— Viva?
— Sim. Não apenas bonita. Viva. Parece que as roupas esperam as mulheres a quem já pertencem.
Louise sentiu os olhos humedecerem-se ligeiramente. Desviou a cabeça sob o pretexto de endireitar um cabide.
— Tu exageras sempre.
— Eu preciso de outra maneira.
— Podes precisar de outra maneira os lenços? Eles resistem-me.
Marie-Soleil pousou a mala atrás do balcão.
— Com prazer. Os lenços são serpentes civilizadas. É preciso amansá-los.
Pôs-se ao trabalho com uma seriedade religiosa.
Durante quase vinte minutos, as duas mulheres prepararam a loja sem falar muito. Louise verificou a caixa, os recibos, o terminal de pagamento, os sacos com a marca da loja. Marie-Soleil organizou os lenços por cores, depois por energia, o que Louise aceitou unicamente porque o resultado era magnífico.
Às nove e meia, chegaram os primeiros problemas.
Não sob forma humana.
Sob forma de caixas.
Uma carrinha de entregas parou bruscamente diante da loja. Dois homens desceram e abriram a traseira do veículo. Surgiu uma montanha de caixotes.
Louise levou a mão à testa.
— Isto não é possível.
— O quê? — perguntou Marie-Soleil.
— Deviam entregar metade hoje e a outra metade amanhã.
O entregador entrou, com o tablet na mão.
— Senhora Lang?
— Sim.
— Entrega completa.
— Justamente, não devia ser completa.
— Eu tenho completa.
— Não pode levar uma parte de volta?
Ele olhou para ela com compaixão, como se ela acabasse de pedir à lua que passasse de novo na terça-feira.
— Minha senhora, eu entrego. Não filosofeio.
Marie-Soleil murmurou:
— Que pena. Talvez tivesse sido interessante.
Em pouco tempo, as caixas invadiram a entrada, depois o espaço junto ao balcão, depois parte do corredor central. Louise assinava, orientava, deslocava, continha o pânico à força de instruções rápidas.
— Aí não. À esquerda. Não, em cima dos lenços não! Cuidado com o manequim vermelho. Mais devagar. Sim. Não. Não! Não diante do provador.
Quando os entregadores partiram, a loja parecia menos um comércio pronto a abrir do que um armazém que tentara disfarçar-se de salão de chá.
Marie-Soleil observou o caos.
— É muito prometedor.
— É catastrófico.
— As catástrofes são promessas que ainda não encontraram a coreografia.
— Marie.
— Sim?
— Menos oráculo. Mais braços.
Desataram a rir e começaram a deslocar as caixas.
Às nove e cinquenta, Claire entrou do café vizinho com uma bandeja de copinhos, dois cafés e um prato de bolachas.
— Vim ver se as grandes senhoras da moda sobrevivem ao parto.
— Claire! — exclamou Louise. — És um anjo.
— Não, sou uma empregada de mesa com varizes. É mais útil.
Pousou a bandeja no balcão e inspecionou a loja.
— Isto é bonito. Mesmo bonito. Parece que aqui até respirar custa caro.
— Espero que dê vontade de comprar.
— Vai dar vontade de estar mais bem vestida para vir espreitar.
Pierrette pôs a cabeça à porta atrás dela.
— Claire! O senhor Prahallis quer saber se pensas voltar ao trabalho antes da reforma dele.
— Diz-lhe que estou a participar na economia local.
Pierrette entrou por sua vez, limpou as mãos ao avental e ergueu os olhos para as caixas.
— Santa miséria. Estão a abrir uma loja ou a mudar uma principado?
Louise explicou brevemente a entrega completa.
Pierrette abanou a cabeça com aquela sabedoria prática das mulheres que passaram a vida a ver os planos dos outros serem derrubados por uma caixa mal colocada.
— Bom. Vamos ajudar-vos dez minutos.
— Não são obrigadas.
— Justamente. É por isso que conta.
As quatro mulheres puseram mãos à obra. Em poucos minutos, o caos perdeu a arrogância. As caixas mais incómodas foram empurradas para a retaguarda da loja, as mais urgentes abertas, as peças mais sedutoras imediatamente penduradas. Um casaco curto cor de marfim arrancou um gritinho a Claire. Uma blusa verde fez Marie-Soleil suspirar. Pierrette, por sua vez, adotou um lenço cor de ameixa que declarou demasiado bonito para ser deixado a uma cliente sem discernimento.
Às dez horas em ponto, Louise colocou-se diante da porta.
O mundo não tinha mudado. A rua Saint-Denis continuava a respirar normalmente. Os carros passavam. As pessoas caminhavam. O céu permanecia indiferente. Nada, exteriormente, indicava que o sonho de Louise Lang acabava de chegar ao seu limiar.
Virou a pequena placa.
ABERTO
A sineta tilintou quase de imediato.
A primeira cliente entrou.
Uma mulher de cerca de sessenta anos, muito direita, cabelos prateados, casaco azul-claro. Observou a loja com calma, depois Louise.
— É novo?
— Sim. Abrimos hoje.
— Parece nervosa.
— Um pouco.
— É bom sinal. As pessoas demasiado seguras de si vendem muitas vezes coisas feias.
Louise sorriu.
— Então, seja bem-vinda à Coração de Tecido.
A mulher avançou lentamente entre os expositores. Tocou numa manga, depois num tecido, depois num lenço. Os dedos liam antes dos olhos. Louise reconheceu esse gesto. Uma verdadeira cliente. Não apenas uma passeante. Uma mulher que sabe que a matéria fala.
— Este vestido — disse ela, indicando o azul na montra. — Posso experimentá-lo?
Louise sentiu um alívio tão grande que quase lhe deu vertigens.
— Claro.
Marie-Soleil, junto ao balcão, lançou-lhe um olhar triunfante. Claire e Pierrette, que tinham ficado sob o pretexto de ajudar mais um pouco, imobilizaram-se como duas espectadoras no teatro.
O vestido azul deixou o manequim.
Entrou no provador.
Alguns minutos depois, a cliente saiu.
A peça assentava-lhe maravilhosamente.
Não como um disfarce. Como uma correção do destino.
— Levo-o — disse simplesmente.
Louise ficou muda durante meio segundo.
— Perfeito. Vou preparar-lho.
No momento em que registava a venda, a sua primeira verdadeira venda, sentiu quase fisicamente qualquer coisa abrir-se diante dela. Não uma fortuna. Ainda não um sucesso. Uma porta. Uma permissão.
A cliente pagou, pegou no saco e parou antes de sair.
— Sabe, senhora Lang, uma bela peça de roupa não muda uma vida. Mas por vezes pode dar coragem para a retomar.
Louise olhou para ela, surpreendida.
— Obrigada.
A mulher saiu.
Marie-Soleil inclinou-se para Louise.
— Aquela não era uma cliente.
— Ah, não?
— Era uma bênção com um casaco azul.
Louise quis rir, mas o olhar deteve-se na porta.
Do outro lado da rua, um homem acabava de parar.
Pascal Pascal.
Reconheceu-o imediatamente. O chapéu. A pena. A capa. O ar de um homem que se veste para dar uma desculpa à própria solidão. Estava diante da montra, imóvel, fascinado pelo letreiro, depois pelos vestidos, depois por ela.
Louise sentiu o corpo retesar-se.
— Que faz ele aqui? — murmurou.
Marie-Soleil seguiu-lhe o olhar.
— Quem?
— O homem do café.
— Aquele que manchou o teu vestido mágico?
— Sim.
Pascal não se mexia. Lia o letreiro como se lê uma profecia. Depois reparou, colada à porta vizinha, na pequena placa que Louise ainda não retirara.
APARTAMENTO PARA ARRENDAR
T1 — AQUECIDO
INFORMAR-SE NA LOJA
Louise lembrou-se subitamente de que devia telefonar ao proprietário do imóvel para lhe pedir que retirasse o anúncio. O apartamento por cima estava livre, mas ela esperava um inquilino tranquilo. Um contabilista. Uma enfermeira. Uma pessoa que caminhasse devagar.
Não um poeta de pena.
Lá fora, Pascal sorriu.
Um sorriso minúsculo, mas Louise viu-o.
Aquele sorriso não dizia: « Que coincidência. »
Dizia: « Vou entrar na sua história. »
A sineta tilintou.
Pascal acabava de abrir a porta.
— Bom dia — disse ele, retirando o chapéu com uma lentidão calculada. — Creio que o destino se esqueceu de fechar uma janela.
Louise fixou-o.
— Aqui, senhor Pascal, vendemos roupa. Não desculpas.
— Vim por causa do apartamento.
Marie-Soleil arregalou os olhos.
Claire, que se preparava finalmente para voltar ao café, murmurou:
— Oh, não. Isto não.
Pierrette, por sua vez, cruzou os braços com o ar de uma mulher que não perderia aquela cena por nada deste mundo.
Louise olhou para Pascal, depois para a placa, depois para a escada interior que levava ao apartamento por cima da loja.
O seu primeiro dia de abertura mal tinha começado.
O destino já se permitia familiaridades.
FIM DO CAPÍTULO II