CORAÇÃO DE TECIDO
ROMANCE
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CAPÍTULO VI - O VESTIDO FANTÁSTICO

À medida que a noite do desfile se aproximava, a Maison Valombre deixou de ser um atelier para se tornar um organismo nervoso.

Tudo vibrava.

As máquinas, as vozes, os tecidos, os telefones, as portas que se abriam e se fechavam sem cessar. Os charriots rolavam de uma divisão para outra como comboios diplomáticos. Sapatos apareciam, desapareciam, regressavam nos tamanhos errados. Manequins passavam de casaco, de vestido, de roupa interior cor de pele, com o cabelo puxado, o rosto ainda nu, já noutro lugar.

Louise, a quem todos chamavam agora Lou, circulava no meio dessa agitação com uma concentração que não conhecia em si mesma.

Conservara a aparência de Louis: calças escuras, camisa branca, lenço atado baixo, cabelo preso. Mas a personagem já não era exatamente um disfarce. Era uma zona de trabalho. Uma armadura flexível. Uma permissão.

Nesse caos regulado, ninguém se admirava já com a sua ambiguidade. Chamavam-lhe Lou como se chamariam uma cor rara, uma ferramenta útil, uma sorte caída no momento certo.

— Lou, os alfinetes!

— Lou, a passagem dezassete ainda puxa!

— Lou, a Solange quer rever o vestido vinte e um!

O vestido vinte e um.

Pouco a pouco, no atelier, deixaram de lhe chamar assim.

Baptiste começara.

— Onde está o vestido de decisão tardia?

Noé corrigira:

— Não. Já não é uma decisão tardia. É uma traição elegante.

Camille decidira:

— É um vestido impossível. É tudo.

Depois Solange, uma noite, observara-o longamente no manequim antes de dizer:

— É fantástico.

A palavra ficou.

O vestido fantástico.

Não era o mais espetacular da coleção. Não ao primeiro olhar. Não gritava. Não procurava vencer pelo excesso. A sua magia vinha de uma contenção quase dolorosa.

De frente, parecia simples: uma longa linha pálida, quase lunar, sustentada por um corpete de precisão severa. Mas, quando se movia, uma fenda oblíqua revelava-se como um pensamento escondido. Um painel interior, de brilho mais profundo, aparecia e desaparecia conforme o passo. A manga esquerda podia deslizar ligeiramente, deixando um ombro descobrir-se não por provocação, mas por confissão. O vestido parecia ter duas almas: uma que aceitava o mundo, outra que dele escapava.

Louise olhava-o por vezes como se não o tivesse desenhado.

Como se o vestido tivesse estado à sua espera.

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A morte de Jean Chauvet continuava, contudo, a acompanhá-la.

Regressava nos momentos menos previstos.

Enquanto ajustava uma bainha, revia a mão de Jean pousada sobre uma mesa de restaurante, calma, impaciente, proprietária. Ao escolher um botão, ouvia a voz dele:

— Isso não é vendável.

Ao observar Solange afastar sem piedade uma proposta demasiado fraca, surpreendia-se a pensar:

Jean teria gostado desta frieza.

E logo depois:

Não. Jean teria querido comprá-la.

Todas as noites, depois do atelier, telefonava para Montréal.

A loja mantinha-se de pé.

Não admiravelmente. Não gloriosamente. Mas de pé.

Élodie falava mais depressa do que antes, sinal de que ganhava confiança.

— Vendemos o casaco azul, senhora Lang! E a Claire conseguiu convencer uma cliente a experimentar o vestido verde.

— Comprou-o?

— Não.

— Ah.

— Mas chorou dentro dele.

— Isso não é uma venda.

— Não, mas a Claire diz que é quase uma promessa.

Claire, quando pegava no telefone, era menos poética.

— As clientes falam muito. Querem saber se voltas. Querem saber se Paris te achou genial. Querem saber se o Pascal ainda escreve para a montra.

— E o Pascal?

— Finge ser discreto.

— Portanto, não é.

— Está de luto pelo Jean como se tivesse perdido um rival num romance russo.

Louise suspirou.

— Ele não conheceu o Jean.

— Justamente. Isso dá-lhe mais liberdade.

Marie-Soleil, por sua vez, guardava as informações mais inquietantes para o fim.

— O William Lee voltou a ligar.

— Outra vez?

— Sim.

— O que quer ele?

— Falar diretamente contigo. Diz que há disposições a verificar. Papéis. Compromissos financeiros.

— Relativos à Coração de Tecido?

— Provavelmente.

Louise fechava os olhos.

Mesmo morto, Jean continuava a ser um contrato.

— Ligo-lhe depois do desfile.

— Estás a adiar.

— Estou a trabalhar.

— As duas coisas são verdadeiras.

Muitas vezes, seguia-se um silêncio.

Depois Marie-Soleil acrescentava, mais suavemente:

— Estás a aguentar-te?

Louise olhava então para o quarto de hotel, as roupas atiradas, os croquis, o lenço de Louis, as mãos cansadas.

— Acho que sim.

— Gostas disso, aí?

Louise hesitava sempre antes de responder, como se dizê-lo pudesse torná-la culpada.

— Sim.

— Então gosta.

— O Jean morreu.

— Sim.

— E eu estou em Paris a fazer vestidos.

— Os mortos não precisam de que os vivos deixem de respirar.

— Estás a tornar-te filósofa.

— Não. Sou prática com um lenço imaginário.

Louise desligava muitas vezes com lágrimas nos olhos.

Não lágrimas de pura mágoa. Lágrimas misturadas. Jean fora demasiado complicado para deixar uma dor simples. Ela ainda lhe guardava rancor. Ainda lhe devia algo. Por vezes lamentava-o com raiva, por vezes com ternura, por vezes com uma espécie de cansaço.

Mas, quando voltava ao atelier, quando tocava nos tecidos, quando ouvia Noé rir, Baptiste indignar-se com uma costura « moralmente insuficiente », Camille ralhar com toda a gente, Solange dizer apenas « melhor », voltava a estar presente.

Amava o seu trabalho.

Amava Paris.

E, o que a assustava ainda mais, amava aquilo em que se tornara ali.

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Dois dias antes do desfile, levantou-se a questão da manequim.

O vestido fantástico fora experimentado por três raparigas.

Nenhuma convinha.

A primeira era muito bela, mas demasiado consciente disso. Usava o vestido como uma vitória pessoal. A segunda tinha um andar perfeito, mas frio. Nela, o vestido tornava-se arquitetura. A terceira era demasiado jovem. A peça devorava-a.

Solange perdeu a paciência.

— Este vestido exige alguém que já tenha renunciado a alguma coisa.

Noé levantou a mão.

— Isso é uma qualidade que se pede nas agências?

— Cale-se.

Baptiste, sentado no chão com uma almofada de alfinetes, suspirou.

— Era preciso uma mulher mais alta. Não apenas fisicamente. Alguém que caminhasse como se tivesse atravessado uma sala onde ninguém a esperava.

A frase atingiu Louise.

Pensou logo numa mulher.

Não em Paris.

Em Montréal.

Uma cliente da Coração de Tecido. Nem sequer era realmente uma cliente, aliás. Uma aparição periódica. Chamava-se Adrienne Valcourt. Alta, magra, elegante sem esforço visível, nos finais dos quarenta. Antiga bailarina, dizia-se. Talvez manequim outrora. Talvez nada disso. Vinha por vezes à loja, experimentava casacos, fazia perguntas precisas, raramente comprava, mas olhava para as roupas como alguém que conhece o peso de uma entrada em cena.

Louise desenhara-a uma vez de memória.

— Conheço alguém — disse ela.

Toda a gente se voltou para ela.

Solange perguntou:

— Em Paris?

— Não. Em Montréal.

Camille ergueu os braços.

— Perfeito. Temos trinta e seis horas. Montréal é muito prático.

— Ela seria ideal.

— Pode vir?

Louise hesitou.

— Não sei.

Solange fixou-a.

— Ligue.

Louise ligou para a Coração de Tecido. Por sorte, Marie-Soleil conhecia Adrienne. Por outra sorte, Adrienne estava em Montréal e atendeu o telefone. Por azar, riu suavemente.

— Paris? Daqui a dois dias? Minha querida Louise, toma-me por uma mulher que não tem plantas, contas nem hábitos.

— Sim.

— Tem razão, mas recuso na mesma.

— Adrienne, este vestido foi feito para uma mulher como a senhora.

— Como eu? Isto é?

Louise olhou para o vestido fantástico no manequim.

— Alguém que não precisa de ser jovem para ser perigosa.

Um silêncio.

— Isso foi bem dito.

— É verdade.

— E está em Paris sob que pretexto, exatamente?

Louise fechou os olhos.

— É uma longa história.

— Todas as boas o são.

— Pode vir?

Adrienne permaneceu em silêncio durante alguns segundos.

— Não. Não tão depressa. O meu passaporte está caducado.

Louise sentiu a esperança esvaziar-se.

— Ah.

— Mas envie-me uma fotografia do vestido. Quero ao menos sofrer corretamente por não o usar.

Louise desligou, dececionada.

— Ela não pode vir — disse.

Camille resmungou.

— Evidentemente.

Noé contemplou o vestido.

— Talvez ele não queira ninguém.

— Um vestido não decide — disse Armand Vidal.

Baptiste replicou:

— Diz isso porque os vestidos ainda o respeitam.

Solange não ria.

— Precisamos de uma solução.

Os ensaios recomeçaram. Propuseram uma quarta manequim. Demasiado leve. Uma quinta. Demasiado espetacular. O vestido continuava a recusar-se.

Louise sentia-o.

Ou melhor, recusava-se a ver o que o vestido lhe dizia.

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Na véspera do desfile, Paris pareceu contrair-se em torno da Maison Valombre.

O local escolhido era um antigo palacete transformado em espaço de eventos. Tetos altos, soalhos encerados, paredes claras, molduras discretas, luz fria. Os técnicos instalavam os projetores. As cadeiras estavam alinhadas com precisão militar. As listas de convidados circulavam como documentos diplomáticos. Falava-se de jornalistas, compradores, clientes importantes, uma atriz, uma influenciadora que Armand Vidal qualificou de « tragédia digital ».

O vestido fantástico foi transportado numa capa branca.

Louise seguiu o charriot como se acompanha uma doente preciosa.

Solange reparou.

— Parece inquieta.

— Estou.

— Porquê?

— Porque ainda não encontrou o seu corpo.

Solange olhou para a capa.

— Às vezes, as roupas encontram-no no último momento.

— É arriscado.

— A moda é uma indústria que finge prever o imprevisível. É a sua mentira preferida.

Nessa noite, Louise dormiu muito pouco.

Jean voltou-lhe aos pensamentos.

Imaginou-o sentado na primeira fila, impecavelmente vestido, ligeiramente cético. Teria olhado para o vestido fantástico com aquela expressão controlada que precedia sempre os seus juízos.

Teria dito:

— É bonito, Louise. Mas quem é que vai usar isso?

Ela teria querido responder-lhe:

— Eu.

A palavra quase a acordou.

Eu.

Não, pensou logo.

Impossível.

Ela não era manequim. Não viera a Paris para desfilar. Era a criadora escondida, a assistente disfarçada, a mulher que encontrara uma porta lateral. Não iria aparecer diante de toda a gente num vestido Valombre.

E, contudo, uma imagem formara-se.

A sua própria silhueta.

Alta, direita, liberta do traje de Louis.

Não a Louise de antes.

Também não Louis.

Alguém entre os dois, para além dos dois.

Levantou-se, bebeu um copo de água, depois olhou-se ao espelho.

Sem o lenço, sem o chapéu, os seus traços recuperavam a verdade. Cansada, sim. Mas não vencida. Pensou na Coração de Tecido, em Jean, em Pascal, em Marie-Soleil, em todas as mulheres que entravam na loja sem ousarem comprar a própria audácia.

Murmurou:

— Um vestido que dá a impressão de que uma mulher poderia mudar de ideias a meio da própria entrada.

Descrevera o vestido.

Talvez se tivesse descrito a si mesma.

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Na noite do desfile, o caos tornou-se religião.

As manequins chegavam, desapareciam na maquilhagem, regressavam transformadas. Procuravam-se sapatos, fita dupla-face, um broche, um par de luvas, um telefone perdido, uma rapariga da passagem oito, depois a própria passagem oito. Os cabeleireiros falavam depressa. Os maquilhadores falavam pouco. As assistentes de camarim corriam. Os vestidos pendiam nas capas como segredos alinhados.

Louise trabalhava sem pensar.

Retomara o traje de Lou: calças pretas, camisa branca, lenço escuro. Ninguém reparou no seu silêncio. Toda a gente estava silenciosa ou aflita.

Às dezanove horas, Solange perguntou:

— A manequim para a vinte e um?

Ninguém respondeu.

— Onde está a Clara?

Clara era a quinta tentativa. Não ideal, mas aceitável, tinham acabado por dizer.

Camille voltou alguns minutos depois, lívida.

— Está doente.

— Doente como?

— Mesmo doente.

— Consegue andar?

— Mal consegue manter-se de pé.

Solange não gritou.

Foi pior.

Ficou perfeitamente calma.

— Encontrem alguém.

Encontraram alguém.

Demasiado baixa.

Outra.

Demasiado larga de ombros para a construção do corpete.

Uma terceira.

Já prevista para duas passagens, mudança impossível.

Armand Vidal praguejava.

Noé corria.

Baptiste segurava o vestido fantástico como uma criança que se tem medo de acordar.

— Ele não quer ninguém — repetiu.

— Cala-te, Baptiste! — lançou Camille.

A primeira parte do desfile começava dentro de vinte minutos.

Solange voltou-se para Louise.

— A sua mulher de Montréal não se teletransportou, suponho?

— Não.

— Que pena.

Louise olhou para o vestido.

À volta, falavam, corriam, procuravam uma solução. Mas, para ela, o ruído afastou-se.

A capa estava entreaberta. O tecido pálido aparecia na luz dos bastidores. O vestido parecia calmo. Terrivelmente calmo. Como se sempre tivesse sabido.

Louise sentiu o coração bater mais devagar.

Pensou em Jean.

Na sua pergunta imaginária:

— Quem vai usar isso?

Pensou em Pascal, que chamaria aquilo um golpe de teatro.

Pensou em Marie-Soleil, que teria simplesmente dito:

— Vai.

Pensou na Louise de Montréal, exausta atrás do balcão.

Pensou em Louis Lange, que ousara entrar.

Depois ouviu-se dizer:

— Eu.

Solange olhou-a.

— Perdão?

Louise retirou o lenço.

— Vou usá-lo.

Camille abriu a boca.

Noé parou de correr.

Baptiste levou as duas mãos ao rosto.

— Evidentemente.

Armand Vidal observou Louise de alto a baixo, com o olhar profissional mais brutal do mundo.

— Tamanho?

— Trinta e oito. Às vezes quarenta, conforme o corte.

— Altura?

— Um metro e setenta e oito.

Noé assobiou.

— Lou é alta. Lou escondia-nos coisas.

Solange não brincava.

— Já desfilou?

— Não.

— Sabe andar?

Louise pensou em todos os anos passados a entrar em bancos, escritórios, reuniões onde precisava de provar que tinha direito a estar ali.

— Sim.

— Não como uma comerciante. Como uma aparição.

Louise sustentou-lhe o olhar.

— Consigo.

Solange ficou imóvel um segundo.

Depois disse:

— Vistam-na.

Tudo basculou.

Levaram-na para uma pequena sala lateral. Camille entrou com ela, Baptiste com o vestido. Noé ficou do lado de fora, repetindo que ia rezar a todas as divindades têxteis.

— Depressa — disse Camille. — Mas sem fazer porcaria.

Louise tirou o casaco, a camisa, as calças. A personagem de Louis caiu peça por peça sobre uma cadeira. Ficou de pé, quase nua, mais calma do que teria imaginado.

Camille, que nunca se enternecia, olhou-a por uma fração de segundo.

— É bonita.

Louise não respondeu.

Não sabia receber a frase.

Baptiste ergueu o vestido com uma espécie de devoção.

— Cuidado com a manga.

O vestido deslizou sobre ela.

Primeiro frio. Depois vivo.

O corpete abraçou-lhe o busto com uma precisão espantosa. A linha oblíqua caiu exatamente onde devia. O painel interior roçou-lhe a perna. A manga esquerda descobriu-lhe o ombro como se a tivesse reconhecido.

Camille recuou.

— Merda.

Na sua boca, era uma homenagem.

Baptiste tinha os olhos húmidos.

— Ele estava à sua espera.

— Nada de poesia — disse Camille, mas a voz perdera a dureza.

Ajustaram. Alfinetaram uma última tensão. Alisaram o tecido. Libertaram a nuca. Alguém entrou para a maquilhagem. Outra pessoa, para o cabelo.

— Não demasiado — disse Louise.

— Sabemos — respondeu o cabeleireiro. — Não é uma rapariga que peça autorização.

O cabelo foi apanhado, mas não severamente. Algumas madeixas enquadraram-lhe o rosto. A maquilhagem aprofundou o olhar, empalideceu a boca, alongou ainda mais a sua presença. Quando Louise se viu ao espelho, não pensou nem em Louise nem em Louis.

Pensou:

— Aqui estou.

Lá fora, ainda a procuravam.

— Onde está Lou?

— Onde está o vestido?

— A passagem vinte e um é daqui a três minutos!

— A Solange quer toda a gente em posição!

A porta abriu-se.

Louise saiu.

O corredor pareceu calar-se.

Noé levou a mão ao coração.

— Oh, não. Isto é injusto para o resto da humanidade.

Armand Vidal não disse nada. Verificou a linha, o cair, a possibilidade da marcha. Depois acenou com a cabeça.

Solange aproximou-se.

Examinou Louise como quem avalia uma decisão irreversível.

— Não faça de manequim.

— Que devo fazer?

— Entre como se tivesse deixado de pedir desculpa.

Louise fechou os olhos por um segundo.

Jean.

Paris.

Coração de Tecido.

Louis.

Louise.

O vestido.

Abriu os olhos.

— Está bem.

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A música mudou para a passagem vinte e um.

Primeiro, uma nota grave, quase impercetível. Depois, uma pulsação lenta, espaçada. Como um coração que se recusa a entrar em pânico.

Louise esperava atrás da cortina.

À sua frente, uma manequim regressava. Atrás, outra preparava-se. A luz da sala desenhava uma linha branca no chão. Era preciso atravessá-la.

Sentiu de repente todos os medos regressarem: a loja frágil, as faturas, o olhar de Jean, a brilhante dissimulação de Pascal, a própria mentira, a sua idade, a audácia tardia, a falta de experiência, aquele vestido que talvez nunca devesse ter saído de um croquis.

Depois pensou em todas as mulheres que esperavam diante de um espelho pelo direito de se acharem belas.

E entrou.

O primeiro passo foi o mais difícil.

O segundo pertenceu-lhe.

A sala já não era um público. Tornou-se uma perspetiva. Rostos, luzes, silhuetas sentadas. Louise avançou lentamente. Não demasiado. Apenas o suficiente para o vestido respirar. O painel interior aparecia a cada movimento e depois recolhia-se. O ombro descoberto não parecia oferecido, mas conquistado. A linha do seu corpo dava ao vestido aquilo que as outras manequins não tinham sabido dar-lhe: uma história.

Não era a mais jovem.

Era a sua força.

Não era a mais neutra.

Era a sua verdade.

Usava o vestido como uma mulher que perdera alguma coisa, ganhara outra, e ainda não decidira se devia agradecer à vida ou pedir-lhe contas.

No fim da trajetória, parou.

Um segundo.

Não mais.

Virou-se.

O tecido revelou o seu segredo.

No público, algo mudou. Não uma ovação. Ainda não. Uma atenção mais densa. Uma contenção apreendida. O género de silêncio que as roupas por vezes procuram durante toda uma vida.

Louise regressou.

Quando desapareceu atrás da cortina, Noé quase a agarrou.

— Matou toda a gente.

— Ela caminhou — corrigiu Armand Vidal.

— Não — disse Baptiste. — Sobreviveu em público.

Camille aproximou-se para verificar o vestido, mas as mãos tremiam-lhe um pouco.

— Nada se mexeu.

Solange estava ali.

Olhava para Louise sem sorrir.

— Pronto — disse ela.

Uma palavra.

Uma só.

Mas Louise compreendeu.

Não se limitara a usar o vestido.

Tinha-o explicado.

Com o corpo.

Com a idade.

Com os lutos.

Com essa parte dela que tivera de se tornar Louis para voltar a ser Louise de outra maneira.

O fim do desfile decorreu numa febrilidade quase irreal. Louise teve de voltar a desfilar para a saudação final, desta vez no meio das manequins. Teria querido esconder-se, mas Solange decidira de outra forma.

— Sai com as outras.

— Não sou manequim.

— Esta noite, é.

Os aplausos chegaram como uma chuva seca.

Louise não procurou saber para quem eram. A coleção, a casa, Solange, as manequins, o vestido, a surpresa. Pouco importava. Mantinha-se de pé naquela luz, direita, alta, elegante, visível.

Visível.

Depois da saudação, os bastidores explodiram.

Falava-se demasiado alto. Ria-se. Beijava-se. Procurava-se champanhe. Alguém gritou que duas compradoras queriam ver « o vestido pálido ». Uma jornalista perguntava quem era « aquela mulher sublime da passagem vinte e um ». Noé respondeu:

— Uma catástrofe canadiana absolutamente necessária.

Baptiste corrigiu:

— Uma revelação.

Camille lançou:

— Uma assistente. E agora deixem-na respirar.

Louise refugiou-se na pequena sala onde se vestira. Fechou a porta atrás de si.

O silêncio caiu.

Olhou-se ao espelho.

O vestido fantástico continuava ali. Não desaparecera. Abraçava-lhe a respiração, a fadiga, a beleza. Louise levou uma mão ao ombro nu.

Pensou em Jean.

Não no homem que controlava. Não naquele que julgava. Naquele que, talvez, algures sob as suas certezas, vira nela uma força antes de ela própria ousar habitá-la.

— Estás a ver, Jean — murmurou. — Alguém vai usá-lo.

Os olhos encheram-se-lhe finalmente de lágrimas.

Correram suavemente, sem lhe desfazerem o rosto.

Desta vez, não chorava de desalento.

Chorava porque acabara de compreender que uma mulher pode perder-se sob um nome, sob um papel, sob um luto, sob uma loja, sob o olhar dos homens, e ainda assim sair de uma sala vestida com a própria audácia.

Bateram à porta.

— Lou? — perguntou Solange do outro lado.

Louise limpou as faces.

— Sim.

— As compradoras querem vê-la.

Louise olhou uma última vez para o espelho.

Louis desaparecera.

Louise também, talvez.

No lugar deles estava uma mulher que já não precisava de pedir desculpa antes de entrar.

Abriu a porta.

FIM DO CAPÍTULO VI