UM RAPTO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 13 — O CONTRA-ATAQUE

Noutro lugar, perto das portas do paraíso, já no interior dessas terras celestes…

Todos os resgatados sabiam que havia apenas uma estratégia possível. Atacar abençoando todos os pequenos malandros que assistiam Rose des Vents. Todos juntos, Casca de Batata, antigos condenados, meias-luas em harmonia, meias-luas solitárias e os santos de todas as épocas recordavam as atrocidades que Rose lhes tinha infligido.

Obedeceriam à estratégia seguinte: fingir que já não se lembravam de nada. Depois abençoar, sem se irritarem, pois que valor teriam as bênçãos sem alegria consentida neste caso? Contudo, ainda subsistia um pequeno problema. Aquela mulher negra que procurava a sua alma gémea. Claro que não se lembrava da própria identidade, mas como reagiria um demónio se, em pleno coração do paraíso, lhe perguntassem: « És tu aquele que procuro? »

Perante isso, Marilyn avançou:

— No fundo, é apenas um pequeno problema, porque eles pensarão que estão em casa.

As almas resgatadas avançaram então ao encontro dos diabretes e de outros pássaros de mau agouro, com convicção. E, antes que esses infames interlocutores tivessem tempo de dizer palavra ou maldade, eram abençoados.

Naquele momento, os seus cornos derretiam; as suas caudas encolhiam e desapareciam até ao cóccix. Tornavam-se, como um anjo surpreendido a meter os dedos numa tigela de mirtilos, azuis de vergonha. A partir daí, os diabos, que já não o eram, pareciam homens. Tendo passado a palavra uns aos outros, começavam também eles a abençoar. Como se tivessem sofrido um exorcismo instantâneo que transformava irremediavelmente a sua personalidade. Tornavam-se simplesmente anjos sem asas. Sem poder, apenas como humanos nascidos já adultos.

O que quase comprometeu esse plano tão simples foi quando um diabo verde avistou a silhueta de Tonton Maxime a poucos metros dele. O estranho ornitorrinco acabava de terminar o desembarque e voltava a colocar a boca no sítio, o que perturbou a lógica do cornífero.

« Deve ser a mudança de ar ou o desfasamento de horrores que me faz ter alucinações. Se disser a Rose des Vents que vi um pato de quatro patas com uma cauda em saca-rolhas e um bico de centenas de metros, ele vai achar que estou corrompido. Não! Melhor não contar isto a ninguém. Sobretudo a ele. Ele atirar-me-ia melaço por cima, ou pior, arrancaria a minha bonita tatuagem de garfo de fondue que tenho na coxa » pensou ele, pouco antes de receber uma bênção.

Tonton e Henri interrogavam-se, apesar do sucesso da investida.

Houve então um momento de eternidade em que, em certos pontos, surgiram engarrafamentos. Não se traz todos os condenados para o paraíso sem criar sobrelotação. Era como uma hora de ponta no centro de uma grande metrópole: as pessoas buzinavam com aquela famosa pergunta. As absolvições funcionavam como semáforos verdes. Depois vinha a alegria incomensurável de ser livre como o ar. Era a exultação total. À maneira das grandes vitórias no hóquei ou no futebol.

Mais tarde, quando tiveram oportunidade, os bondosos revolucionários lavaram as asas dos anjos com água de nascente, usando sabão retirado das auréolas dos santos.

— Pronto! A ideia era excelente. Tudo vai voltar à ordem — disseram os quatro companheiros de infortúnio.

— Aquilo que não existe desloca-se mais depressa do que o espírito ou a matéria — afirmou Tonton Maxime, sem se enganar.

Depois disso, convidou Henri e Marilyn a encontrar Rose des Vents. Em pouco tempo tudo já estava preparado para localizar rapidamente o general malévolo e astuto. Tonton Maxime abriu bem a boca. No último instante, mesmo antes de Tonton fazer uma zirgouille, a mulher negra preparava-se para saltar para o nada.

Como um reflexo.