Clarence, a aranha, terminava a sua teia, escondendo assim a entrada do nada. Todos tentavam chamar pelos outros. Todos, exceto Tonton Maxime, que sabia ser a tentativa vã, quase desesperada e sem resultado. Uma grande lassidão acabou por abatê-los, como se cada um tivesse corpo no vazio absoluto. Em pouco tempo, adormeceram profundamente, ressonando todos, incluindo o anjo, que dormia pela primeira vez na sua existência.
O nada parecia vazio…
As silhuetas não se viam.
No entanto, surgiu uma primeira intuição onírica.
— Alô! Falo com quem quiser sonhar comigo! Sou eu, Henri! Ninguém diz nada? Não sinto nada… Sonho que vos procuro nesta ausência de tudo. Compreendi uma coisa! Não somos nada dentro do nada.
— Quando não se é nada, é normal deixar de se mentir. Que digo eu?! De se sentir. Estava à espera que um de vocês sonhasse neste não-lugar para lhe poder dirigir a palavra — tranquilizou Tonton Maxime, bem à vontade no nada e nos sonhos.
— Bom dia para vocês! Aqui é o Casca de Batata! Temos uma sensação de levitação, como um estado de graça suprema! Dormir é interessante, sonhar ainda mais. Estamos todos a dormir? — sonhava incansavelmente o anjo no quadro daquela particular telepatia onírica.
Seguiu-se uma espécie de longo silêncio… Como se os seus sonhos flutuassem. Henri manifestou subitamente a sua inquietação, porque Marilyn não respondera.
— Marilyn! Marilyn!… Onde está?… Responda!… Alguém ouviu a Marilyn sonhar?… Ela comunicou com algum de vocês os dois?
— Não! Não recebemos nenhum apelo telepático — respondeu o anjo.
— Fale por si…, nós! Isso cansa ao fim de algum tempo. Pensar que é o porta-voz de toda a sua congelação… Que digo eu?! Congregação… Nós daqui, nós dali…
— Então e a Marilyn? Eu não percebo nada disto. No entanto, foi ela a primeira a saltar para dentro do seu bico, Tonton! O que aconteceu? Já se perdeu alguma vez neste buraco esquecido? — disparava Henri, nervoso.
— Não! Nunca. Compreenderão que tenho de confiar no meu querido nadazinho.
— Estou a sonhá-los ou vocês são um pesadelo lívido?! — interveio ela, tranquilizadora.
Foi então alvo de uma rajada de perguntas da parte dos seus três companheiros de infortúnio.
— Marilyn, o seu silêncio estava a afetar-nos, e as nossas asas manchadas até tremiam. Porque se calava?
— Sim, porque não disse nada… Que digo eu?! Nada disse.
— Tinha a impressão de que, mantendo-me discreta, teria paz. Não se esqueçam de que corro o risco de sobrecarregar o meu futuro paradisíaco com um imbecil — picou Marilyn, cujo medo vinha de novo à tona, o que inevitavelmente endurecia o seu feitio. Confesso que, neste momento, a única coisa de que gosto no Henri é esse vazio na cabeça. Diria até que o nada deve ter inveja dele — rematou ela depois, atribuindo-lhe a causa da derrocada.
— Diga lá, o vazio e você pertencem à mesma árvore genealógica, não? Oh! E agradeça-lhe da minha parte. Está ainda mais encantadora, porque não a vejo.
— Meu caro Henri, posso chamar-lhe carinhosamente buraco do cu?
— Tem sorte por haver apenas um nada entre nós!
Este encantador desabafo verbal terminou quando Tonton Maxime, que tinha a impressão de ver nascer úlceras no nada, chamou toda a gente à ordem.
— Calem-se! — Um imperativo que ressoou como um eco no sonho dos outros. — Devemos lembrar-nos de que o negável… Que digo eu?! O diabo invadiu o paraíso.
— Se esse velho bode controla mesmo o Éden, não vejo interesse nenhum em sair daqui — disse Henri, que começava a achar o vazio confortável.
— Tenho um assunto em questão… Que digo eu?! Tenho uma sugestão. Querem luz?… Sim ou não?… — perguntou banalmente o híbrido.
— Como devemos entender isso?… Tinha-nos prevenido da impossibilidade de nos vermos no nada. E agora propõe iluminar-nos para ficarmos mais à vontade! — atalhou Marilyn, que vivia o sonho cada vez mais como uma visão geradora… de suores frios.
— Não disse eu fazer-se luz… Que digo eu?! Fazer luz… Estava de facto a falar de esclarecer a situação — precisou Tonton Maxime com um ligeiro suspiro de desalento!
— Não sei se partilha a minha opinião, caro anjo…, mas tenho a intuição de que estas duas almas se estimam bastante. Afinal, só se reconhece a afinidade quando os átomos se soldam um ao outro. Não é assim?
Henri tossicou… E até fingiu delirar independência no seu sonho.
— Vá lá, Tonton! Não continuemos a esticar mais a eternidade. O que tem a sugerir?
— Lembram-se do pequeno buraco que a Clarence cobre com a sua teia?… Para o mundo exterior, isso não é nada. Para nós, agora, é uma abertura no nada, uma saída possível. Pois bem… esse buraco, eu posso deslocá-lo — revelou o guardião do vazio absoluto.
— E então?… — sonharam eles em conjunto, cobertos de incredulidade.
— O nada tem a particularidade de estar sempre em toda a parte… no mesmo lugar. Mas pode deslocar-se facilmente o seu acesso. Ou seja, o pequeno orifício camuflado pela Clarence. Então, ao diabo!… Que digo eu?! Vamos ter com o diabo. Vamos até casa dele, para lhe mostrar do que somos feitos! — surpreendeu-se ele, tão fanfarrão quanto Henri.
— O senhor não tem medo nenhum, Tonton — disseram todos ao mesmo tempo.
— Quando o diabo não está, os condenados dançam. Rose des Vents já não está no inferno, mas no ardor da ação junto do bom fogo… Que digo eu?! No calor da ação junto do Bom Deus. Por conseguinte, o caminho está livre para lhe pregarmos uma boa partida. Dão-me luz verde para deslocar o buraco?…
— Que ideia tem por trás da cabeça, Tonton Maxime? Vamos arder nas chamas antes de termos tempo de dizer ai! — receava Marilyn.
— O nada não pode arder, e nunca será um balão levado por um tornado de fogo. Posso, portanto, decidir o lugar onde havemos de parar com o mínimo de risco — respondeu ele, sem vacilar e cheio de orgulho.
O plano do híbrido revelava-se bastante simples: encontrar alguma coisa a que Rose des Vents estivesse ligado. Como uma velha recordação ou até a primeira chama do inferno! Marilyn punha até em dúvida a existência de uma coisa dessas. Tonton Maxime insistiu, dando-lhe a entender que um ser como Rose des Vents era, sem dúvida alguma, de um materialismo assumido.
Sem que o resto do pequeno grupo se pudesse aperceber, Tonton Maxime já deslocara essa minúscula abertura, mais pequena do que a milésima parte da cabeça de um alfinete, que dava acesso ao resto do mundo.
— Pronto, já cá estamos. É a primeira vez que venho aqui… Estou a quebrar o lugar ao mesmo tempo que vocês. Que digo eu?! O gelo — disse ele, assustado.
— Espero que não derreta depressa demais. O quê? Já! O que está a ver no reduto do diabo? Como é o fogo?… Quente?… — perguntava Henri, receoso, com a voz abafada e rouca de espanto.
Aflito, e crendo de repente que viera ali para queimar os seus dias…, achava, de certo modo, que aquele desvio pelo inferno se resolvia com uma brevidade eficaz.
— Há realmente fogo, mas não há fumo. E no entanto… estas chamas! Nada que dê para acampar… Que digo eu?! Nada que impeça de se insistir! — descrevia Tonton Maxime.
O anjo Casca, sem acordar, parecia subitamente revelar um interesse quase científico.
— Perguntamos qual é a energia que alimenta esse fogo? — informava-se ele então.
— Pela cor… eu diria que se trata de gás propano? Que digo eu?! Profano… Mas… Oh! Que desgraça! Que vou eu fazer? — lamentou-se Tonton Maxime como um ventríloquo ofegante.
— O que se passa? — continuavam a sonhar Casca, Marilyn e Henri.
— Que tristeza! Ao olhar de demasiado perto, prendi a teia da minha aranha. A minha pobre amiga… ela… ela caiu numa chama! Já nem ouso olhar — dizia ele, desolado, exprimindo toda a sua aflição.
— Partilhamos a sua dor, Tonton. Tenha coragem — consolava Marilyn, que no seu sonho tentava imaginar as lágrimas do guardião do nada. Diamantes? Água? Nada?…
Henri tentou devolver rapidamente a confiança aos seus espantosos companheiros. Parecia-lhe que distrair o híbrido era a melhor solução.
— Porque deixou de descrever? Já não está a olhar? Encontre o lugar por onde poderíamos sair… Quer dizer, por onde poderíamos desembarcar sem queimar os dedos dos pés.
— Tem razão. Tenho de abstrair-me dos meus sentimentos, das minhas emoções, para nos salvar a todos. Na melhor das hipóteses, explorar em memória da minha terna e fiel aranha!
Tonton Maxime recuperava a coragem e farejava as rotas de evasão.
— Ah! A pequena marota! — exclamou Tonton Maxime, numa alegria transbordante e mais do que explosiva.
— O que foi? Acabou de ver um demónio com flores?
— Não! A minha pequena aranha está viva! Ora essa!… Vocês nunca adivinharão o que ela está a fazer! — sonhava ele, observando, pelo minúsculo buraco que dava para o inferno. Sabem, Casca, ela conseguirá sempre surpreender-me. As chamas não a afetam. Talvez nem me acreditem. Está a tecer uma teia sobre as chamas para as aprisionar. Preparem-se para acordar. Vou tirar-nos daqui pela minha zirgouille.
Nenhum deles teve tempo de reagir, porque já todos tinham emergido do nada.
— Estão a ver! Ela não sofre com o inferno. E, ao que me parece, nós também não.
Estranhamente, o chão não estava a escaldar, mas morno. As teias da Clarence serviam de isolante térmico. O inferno parecia antes quente, mas nada abrasador. O que não deixou de espantar Casca e, claro, de tranquilizar Henri. Todos os esquemas estabelecidos desde a noite dos tempos, todos os imaginários do inferno, ruíam como peças de dominó.
No entanto, o ambiente era metálico e ruidoso. Não havia gritos, queixas nem apelos inúteis: havia antes ruídos de roldanas rangentes, tinidos, atritos de peças metálicas e engrenagens mal lubrificadas, mal oleadas. Não havia o cheiro sufocante do enxofre, mas sim os odores invasivos do gasóleo e da borracha aquecida ao máximo. Pouco fumo, muito pó. Como uma velha fábrica a precisar urgentemente de ser transformada. Havia muito pouca cor. O tom dominante: ferrugem. Os quatro detiveram-se à volta de Clarence, que aprisionava uma chama e depois outra.
Ela tecia com uma velocidade desconcertante.
Tonton tentou convencer a sua aranha a regressar ao seu lar num tom meloso, quase obsceno.
— Anda, minha bela Clarence, anda cá para o teu tectozinho acolhedor — dizia ele, apresentando-lhe o bico bem escancarado.
Clarence ignorou-o por completo e continuou a construção de múltiplas teias. Bordava a uma velocidade verdadeiramente infernal. Uma autêntica renda de Bruges feita de uma seda ao mesmo tempo mais resistente, mais complexa e mais refinada. Estava a traçar-lhes um caminho. A natureza fenomenal do mundo celeste procedia de forma intuitiva.
— Vamos a isso! — disseram os companheiros, com uma coragem vacilante, avançando pelas chamas retidas pelas teias de Clarence.
Sons estridentes, como longos arrastares de unhas pontiagudas sobre ardósias, chegavam até ao grupo. Esses ruídos eram gerados pelo aparecimento de novos vícios.
Avançavam lentamente por corredores forrados pela aracnídea. À volta, labirintos de estruturas complexas feitas de tubos, alavancas, vigas torcidas e parafusos sem fim, como um cenário de fim do mundo; o medo fê-los estremecer.
Diante deles… uma sala gigantesca, com uma atmosfera envenenada por pós húmidos. Como um laboratório sujo e cinzento, com paredes estranhamente suadas para um inferno. Havia ali alguns diabretes que se ocupavam, sem paixão, a defecar futuros pecados. Vestidos de látex vermelho e vinil preto, em estilo sadomasoquista, procuravam inventar tentações insólitas. Tudo isto enquanto escutavam os sons estridentes que eles próprios tinham fabricado.
Henri reparou que esses químicos do mal tinham chamas cheias nos bolsos. Um tanto forretas. Sem dúvida, avareza. Paravam frequentemente para as contar. Por descuido, um diabrete pôs o pé sobre uma delas, caída no chão. Como as línguas de fogo fazem cócegas aos demónios, ele torceu-se de riso. Puxaram-se todos, tentando roubar uns aos outros a preciosa e divertida chama.
Parecia, contudo, a Tonton Maxime, ao casal Toutrec-Monroe… e ao anjo, que esses trabalhadores de ar franzino mas resistente, esses pequenos técnicos do mal, procuravam constantemente confrontar e provocar o chefe do laboratório. A cada ordem recebida, os pequenos diabos consultavam um colega, sempre o mesmo. Esse representante dos camaradas cornudos verificava então num grimório se o procedimento infernal tinha sido respeitado. Depois, conforme a interpretação que fazia da convenção caótica, picava ou não as nádegas do chefe do laboratório com as pontas do seu próprio tridente. Esses inventores de torturas morais queixavam-se de tudo e de nada, sobretudo das condições de investigação. Quanto mais reivindicavam, mais complicadas se tornavam as tarefas.
Henri ouviu o chefe deles mencionar: « Para quê fazer simples quando se pode fazer infernal? » Marilyn, a quem tudo era traduzido, concluiu ingenuamente que o inferno funcionava torto, como tudo o que é burocrático em excesso.
A altercação entre os diabos foi tão viva que deixaram ali o seu pequeno trabalho para irem todos beber um copo de aguardente mais adiante.