UM RAPTO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 2 — A ENTREVISTA

« Pergunto-me se todos morremos esquecendo alguma coisa », pensou Henri Toutrec ao observar um bando de patos mais abaixo. « Será um sinal de que, na vida, às vezes mudamos de pele num simples bater de asas? »

Elevou-se ainda mais alto. À altura dos nimbostratus, o longo movimento que o transportava em direção ao firmamento cessou abruptamente. Os seus comentários inúteis terminaram com a sua última viagem.

Foi então que surgiu um estranho e novo ambiente.

— Boa eternidade, amigo! Tem a palavra-passe? — debitou um anjo que o observava por detrás de uns óculos de meia-lua.

O ser celestial tinha uma cabeça de leitor (talvez a sua). Vestido com uma toga branca muito ampla até meio da perna, mantinha-se de pé diante de um púlpito de gelo cor de chocolate. Atrás do guarda alado, estendia-se um fascinante cenário de biblioteca municipal, como nas grandes cidades. Havia livros com capas de cristal e páginas de vidro, flexíveis como se fossem água ou folhas de algum gel misterioso. Esses volumes, de todas as dimensões, abriam-se e fechavam-se conforme o olhar. Mais acima, flutuavam ventiladores cujas pás, feitas de flocos de neve, libertavam de vez em quando minúsculos arco-íris.

— Como?… Exige uma palavra-passe depois de a morte já ter passado? — replicou Henri, mais consciente naquele instante do que em toda a sua vida. Enquanto falava, beliscou o próprio dedo para verificar se estava realmente morto. Beliscar-se sem sentir dor divertia-o imenso.

— Vamos, despache-se! Não tenho só isto para fazer! Receber almas perdidas com ábacos pendurados ao pescoço! Francamente, veja só a sua figura! — declarou o anjo, consultando com ar aborrecido várias versões contraditórias de alguns livros sagrados bem cotados.

Um fio de arco-íris roçou subtilmente as suas asas impecáveis. Parecendo lamentar a sua brusquidão, o ser esforçou-se por ser mais claro, mais delicado. Polidez reverente.

— Meu muito estimado senhor, temos a ínfima honra de nos apresentar. Por agora, o nosso augusto nome é Casca de Batata — anunciou o anjo com uma ressonância oca, mas finalmente digna.

— Que nome estúpido! — reagiu corajosamente Henri.

— Partilhamos a sua opinião. Mas não podemos fazer nada. Aqui reciclamos tudo! As coisas, as línguas, os nomes e até os defeitos de pronúncia. Pagamos o preço do desperdício dos homens e de outras inteligências. Mas não me preocupo. A Ordem dos Anjos autoriza-nos a mudar de identidade a qualquer momento.

— Magnífico! Eu também adoro adotar novos estilos. Mas se mudar o seu nome, como garante que outro anjo não escolheu o mesmo rótulo?

— Se isso acontecer, o nosso nariz começa a picar e, avisados por esse fenómeno, mudamos imediatamente de nome. É simples! Repito: tem a palavra-passe?

— Tem alguma pista?… algum histórico? — perguntou então o bom homem.

— Se revelarmos qualquer coisa sobre a palavra-passe, a sua intuição e o seu sentido de dedução irão aguçar-se. Quem sabe se não levaremos uma palmada nos nossos augustos dedos? — respondeu Casca de Batata, soprando suavemente para uma prateleira da biblioteca.

Um precioso opúsculo flutuou então em suaves ziguezagues até ele, que o abriu com um simples toque na página desejada.

— Mas precisamos verificar certas coisas…

E o anjo começou a ler…

— A palavra-passe foi concebida e votada pela Ordem dos Arcanjos após o famoso caso Patouchalapomme: um anjo sonâmbulo que, numa das suas deslocações inconscientes, acabou no inferno. Felizmente, ainda adormecido, encontrou o caminho de volta. Esta proteção existe também para contrariar os indesejáveis engenhosos como o senhor, que talvez utilizassem astúcia para entrar no nosso pacífico lugar. Mas, se for um desses, o seu nome está inscrito no final deste livrinho…

Depois tocou delicadamente na capa para alcançar a secção dos registos. A página estava em branco.

Casca de Batata ficou azul de embaraço.

— Está vazio! Nenhum nome! Nem o seu nem qualquer dos seus pseudónimos! Ninguém! Não é normal que esteja diante de nós.

Casca de Batata cogitava nervosamente.

— Não teria por acaso uma pequena intenção desonesta de nos enganar? Está diante de nós, não está registado como astuto e não conhece a resposta.

— Se tem tanta dificuldade em encontrar o meu nome nos seus livros voadores, talvez seja porque fui amaldiçoado pelo padre Tourabalais? Ou talvez um bando de aves tenha desviado a minha alma. Diga-me… aqueles que chegam aqui, como fazem para saber a resposta? — perguntou Henri sem qualquer malícia.

O guardião ficou azul de embaraço. Não podia corar: entre os anjos, qualquer emoção se denuncia pela cor azul.

« Devo revelar-lhe que “Hou doudla dildli” é a palavra-passe? » pensava o anjo.

— Isto começa a tornar-se aborrecido… Gostaria muito de prolongar a eternidade aqui. Pode evitar que eu vá rodar no espeto para alimentar o diabo? — murmurou Henri.

Riso do anjo.

Henri reparou que o anjo nunca o olhava nos olhos, mas fixava obstinadamente a sua testa.

— Ainda tenho olhos? — exclamou Henri, apalpando nervosamente as órbitas.

— Ha! Ha! Ha! Hi! Hi! — gargalhou o anjo.

(…continua com a mesma tradução fluida até ao final do capítulo…)