CAPÍTULO XVII
Depois de outras estações mortificantes sem a sua musa, durante as quais enganava Bichoune até nos próprios gozos, que espiritualmente concedia apenas a Nielle. Depois de meses desses coitos fingidos à Gainsbourg, desses falsos fervores salpicados de verdadeiros « … amo-te. Eu também não », em que o corpo que ele estreitava nos braços não se culpava por o trair frequentemente. Chegava outro verão. — Chegava um dia solarengo e agradavelmente quente. — Chegava um início de tarde normal em que, sonhador, olhava lá para fora, sem parar, para a esquerda…
Como esses barómetros fantasistas em que um boneco em miniatura sai de uma casinha à aproximação do aguaceiro e se imobiliza na tempestade, Damien esperava que da saída oposta surgisse uma mulher de boa natureza que lhe anunciasse bom tempo. O mecanismo estava desregulado. A musa não estava ali. No entanto, o sol era magnífico.
Um automóvel estacionava ali, em frente àquela entrada do pátio que ainda não perdera o seu sentido de mistério. O modelo: uma carrinha familiar. Cor e marca do carro… a esquecer, merecendo menos citação no contexto do que os ocupantes que dele saíram.
Nielle? …! Não, ela não fazia parte do grupo. Mia, Carlos, Bruce ou os outros, também não. Estrangeiros, figuras desconhecidas.
Rostos novos, cuja semelhança dos traços com Nielle sugeria um laço de sangue. Ares de família que o confirmavam inegavelmente. Saudações do terceiro andar dirigidas àquelas pessoas, que retribuíam com sorrisos tão semelhantes e evocadores que reiteravam a evidente pertença.
Uma alegria cintilante engastava-os a todos na pressa de se juntarem ao ser amado lá em cima. Para Damien, igualmente feliz com o acontecimento, não havia imagem mais loquaz para descrever as reações deles do que a dos filmes mudos, em que os atores transpunham pequenas felicidades por pestanejos nervosos dos olhos escurecidos por pestanas demasiado longas. Como nessas sequências de outrora, já só podia conversar com as projeções deles, pois os comediantes tinham desaparecido da cena.
Quem eram eles? … O condutor de augusta fisionomia, olhar doce e tez de prodigalidade; claramente o pai da sua musa. Manifestava-se nele o mesmo carisma fervilhante de pequenas sabedorias adquiridas daquela velha senhora de longos cabelos brancos armados em coque, a avó de Nielle. O sonhador conferia à « sua avozinha », como lhe apeteceu chamá-la, a mesma inteligência e um pragmatismo próximo da personalidade da neta. Mais ansiosa e predisposta a esticar as pernas, a prole que os acompanhava alcançou demasiado depressa o pátio traseiro da casa dos Brouillette para que Damien pudesse memorizar-lhe o número e o aspeto. Excetuando o entusiasmo.
O sonhador não esperou ser apontado a dedo por essa pessoa reencontrada, fosse ela Mia ou Nielle. Fugiu dessa ameaça de uma das duas poder apresentá-lo como causador de perturbação. Ser identificado como um empata-festas horripilava-o. Enfrentar essa eventualidade incomodava-o, tanto mais que sabia ser-lhe vedado amá-las, aquelas pessoas que nunca mais reviu.
Abominando cada vez mais intensamente as libertações pela marijuana; de emoções vivas, sustentou o direito de recorrer ao novo escape. Legal, mais discreto e mais eficaz do que a droga, esse objeto, uma imensa caixa de delírios e deleites… o piano. Como nas precedentes fases de melancolia, tocou-o, sem saber tocar, durante horas. Batucava nos marfins, integrando neles os recalcamentos e as perturbações em notas falsas, por vezes voluntárias, para se desprender dos seus spleens.
Um pouco apaziguado pelo expediente em tercinas dissonantes, ia polir os benefícios dessa performance corretiva com um suspiro de alívio quando, em contraponto, soou o telefone.
— Está lá!
— Damien! É a Bichoune. Não vou falar muito tempo, é que… hum! Só para te dizer que esta noite vou sair com uma… uma amiga minha. Portanto, não nos vamos poder ver. Não te importas? …
— Pelo contr… Hum! Não, diverte-te. Adeus!
Pousando lentamente o auscultador, mordeu um comentário deslocado: « Ainda melhor assim! » Reavivado pelo desafogo musical, enquanto esfregava os lados do pescoço e a nuca, rodando depois a cabeça como num exercício de aquecimento, preparava-se para uma longa guarda à esquerda… livre do domínio da sexualidade de aparato.
Sentado no limiar da porta, no conforto de uma velha almofada. Os cotovelos apoiados nos joelhos levantados, os braços sustentavam-lhe a cabeça, como se se obrigasse a aclimatar-se a uma só posição, à única tangente admissível.
Primeira observação: o carro tinha partido. Essa deceção tê-lo-ia assombrado mais longamente se não se tivesse consolado com o pretexto de uma apatia certa em disputar orgulho com o progenitor da musa ou em abalar a experiência da avozinha com uma sedução de neurasténico temporariamente desperto. Teria querido ser Sansão ou Golias, até Louis Cyr ou Hulk Hogan, para levar sozinho o piano para o passeio… e tocar entre cada palavra para se reabastecer, mas a realidade obrigava-o a ceder.
A rua parecia-lhe mais deserta do que habitualmente. A luz do dia, repelida de maneira impercetível pela sombra das casas geminadas, decrescia rapidamente.
Já por volta das vinte e trinta, Damien estimava que aquela quietude normal só fora perturbada pela circulação de sete carros por hora. Bem como por uma média de quatro desconhecidos que deambulavam à pressa, receando ser agredidos; por três vizinhos respeitáveis e duas ou três comadres; estas, sempre as mesmas, marcando as suas rondas com as mesmas maledicências mal remodeladas.
Todos esses elementos agitadores…, Damien contara-os à maneira de uma sondagem; tal como ainda contava as beatas que projetara com piparotes. Sempre na mesma direção, muito atento. Na mesma veia, calculava e avaliava as diversas possibilidades de um regresso da carrinha familiar que talvez estacionasse em frente da sua casa.
À força de se cravar naquele mesmo ponto do horizonte, acabou por sentir leves espasmos na base da nuca e uma ligeira névoa ótica causada pela fadiga de mirar, que desregulava continuamente o foco da visão.
Para reajustar a vista, para refazer a focagem, esfregou suavemente as pálpebras e escrutinou o ambiente à procura de uma mancha de cor viva. A acuidade visual melhorou primeiro ao mirar a bicicleta de cores fluorescentes, vanguardista na época, à qual atribuía o apelido, igualmente notável, de « Arco-íris ». Depois, levou os olhos para uma grande pintura mural exterior com intenções de fresco histórico. Esse colossal borrão fazia-lhe cócegas no orgulho, sendo o último vestígio das suas invenções de organizador da festa de bairro.
Por fim, em busca do último ajustamento do olhar, deteve-se nessa tonalidade viva da paisagem. Uma mulher grávida, vestida com um vestido de maternidade vermelho, aparecia ao fundo da rua. — Vermelho! O pigmento da interdição, do aviso. — Escarlate! A tonalidade do amor.
Deslumbrante! Como a afeição evidente daquela mãe pela criança que trazia no ventre. Sim, vermelho escarlate! A cor daquele vestido que escondia a barriga grande e maravilhosa, traindo facilmente essa fecundação mais do que invejável de Nielle; ela, que acelerava o passo, receando ainda os gestos imprevisíveis do antigo vizinho. Ela, surpreendida numa excecional renascença…, também fazia visita à irmã.
Um coração, e mais, fugiam. Outro queria gritar. Mas nem a boca nem a garganta respondiam à emoção.
Pouco lhe importava a que macho, agora honrado pelas entranhas de Nielle, pertencia aquela paternidade. Ele, Damien, nas suas ilusões, metamorfoseava-se em arcanjo, em espírito santo…, usurpando a pretensão da origem da criança com a conivência da sua mais do que bela, imaginando que ela teria desejado essas relações místicas. O sonhador plagiava sem consciência essa atormentadora saga da infância.
Teria coberto Nielle de palavras de amor, tê-la-ia elevado com lisonjas, acarinhando a beleza majestosa daquele abdómen cheio de promessas…; mas a demonstração de um sinal, de um apelo à vida, mesmo impercetível, teria apagado para sempre essa saciação naquela fada de aparência, naquela Nielle da sua interioridade. Aquela que coroara nas fábulas sagradas dos sonhos, aquela que protegia ciosamente dentro de si como um mago avaro, o seu ouro alquímico.
« Mal feito! » vociferava ele, sentado e de braços cruzados, balançando-se frequentemente por sacudidelas, para justificar a presença do corpo. Comparável a um autómato desregulado que atasse em si a alma subtraída a um ser humano; a hesitação, o medo dos sentimentos, o medo do verdadeiro, o horror de já não saber escolher entre o amor por Nielle e a segurança fantasmagórica imposta por compensação.
Damien esperou horas a sofrer com esses acessos de riso empurrados pelo vento e essas exclamações de alegria mal abafadas pela distância, essas pequenas felicidades das quais estava excluído e que irradiavam do último andar da casa dos Brouillette. Sequestrou delas ondas tonificantes emitidas por aquela voz que o absorvia, o consumia e o petrificava. Quando o alísio a tornava muda, remexia dentro de si, retraçando vibrações semelhantes que sitiavam a sua alma. Depois aproximava-as umas das outras até se atordoar de arrepios.
Da comparação à confrontação, ao fio das impaciências, a embriaguez dessa voz de efeitos opiáceos verteu para outra sede. — Os olhos de Nielle. — Essa avidez fê-lo vacilar rumo aos sonhos, … em sonambulismo.
— Olá, Damien! Pareces perdido! — disparou Bruce, com uma gargalhada cínica.
— Mm…? Ah! Olá, Bruce, para onde vais assim?
— Bateu-te alguma coisa na cabeça? … Como assim, para onde vou? … Antes, para onde vais tu? … Não pareces dar-te conta de que estás em frente da nossa casa? …
— … Em frente da vossa casa…? O sonhador não sabia o que dizer. A voz arrastara-o, desdobrando e alegorizando essa necessidade fanática até debaixo das janelas do terceiro andar. Um canto de sereia atraíra-o como a lua chama os oceanos.
Mesmo iscado e encurralado pelo devaneio, recompôs-se, fingindo a normalidade de uma perda de lucidez.
— … e que andas tu a fazer, Bruce?
— Pouca coisa. Estou a ver televisão… Agora que penso nisso! … Vi a tua Nielle subir a casa da Mia. Sabias que ela está grávida? … Pode dizer-se que a amaste, essa cabra!
— Bruce!
— Oh! Desculpe, senhor Damien. Talvez ainda a ames, mesmo com uma grande barriga! — debitava o jovem, com a intenção de provocar para passar o tempo.
Ele procurava dominar a cólera sem demonstrar ao jovem Brouillette que fora atingido no coração. Depois respondeu-lhe com um fio de voz fraco e uma calma que o teria desconcertado a si próprio se, por ubiquidade, tivesse podido observar-se.
— Vá lá, achas mesmo que ainda a amo, depois de todo este tempo? Ela, que deve ter encontrado marido. Ela, demasiado bela para viver sozinha. Fica encantadora grávida, não fica?
— Bah! Eu…! — Diz lá! Daqui a pouco vão repetir um velho filme de kung-fu com Bruce Lee, o meu ídolo. Apetece-te ver?
— Não. Mas vai tu! Instala-te diante do ecrã e… se não te incomoda muito, vou ficar aqui a apanhar ar. Pode ser? …
— Sem problema. O passeio pertence a toda a gente! — resmungava Bruce, dececionado por não ter conseguido recrutar um novo adepto das artes marciais.
Enquanto « Karate Kid » se extasiava perante a violência taiwanesa e a dobragem dessincronizada, Damien remoía tudo e nada, num tom monocórdico, sem se interromper. Nem a intensidade nem o débito distraíam o telespectador. O motivo não o visava. O sonhador, pelo seu fluxo monótono e contínuo, correspondia explorando etéricos sedimentos de estados de alma. De certo modo, ousava a expectativa de um feedback na mansuetude dos olhos da sua musa, pela sua tenaz e insípida incontinência verbal.
— Declamarei toda a noite se for preciso! Mesmo que leve com um vaso lançado da janela — verbalizava ele, sem que ninguém se apercebesse, na idealização do seu negativismo.
Ironia do destino: oxigenando-se por um instante, para decantar um tom acima o seu palavreado.
— …….. !
Lá em cima, silêncio total e súbito. Mesmo que a noite se decompusesse em favor da escuridão e que a lua não tivesse comparecido, estranhamente, um mar de tranquilidade atracava à sua recitação interrompida.
Nielle veio então sujeitar, com a sua silhueta de procriadora invejável, a luz que se propagava para além de uma janela aberta. — Não se mexeu mais. — Depois, emitiu esse apelo codificado que só Damien podia traduzir. Essa exclamação para a qual o espírito dele acumulara paciências desde milénios imaginados.
— Ba. Ba. Bi. Bo. Bi — cantarolou ela em tonalidade de sol, deixando pairar as suas esperas numa calma sedutora com ares de alerta.
Detido. Calado, estupefacto, já não emitia nada: nem o que era fútil, nem, tristemente, qualquer coisa salutar e motivada. Prolixidade abreviada. Nada. Acreditava mesmo estar a sonhar. « Ilusões! Outra vez ilusões! » dizia para si, sem retomar a verbosidade, na esperança de que se reproduzisse essa agradável e fenomenal acúsma.
Ainda suspensa a uma resposta que tardava, frustrada, ferida no amor-próprio diante de Mia e de outros convidados, Nielle parecia convencida de que Damien a deixara à espera; simplesmente enganada pela sua indolência desesperante, por estupidez ou por vingança.
— Então desaparece daqui! … Vai-te embora! — clamou Nielle, com uma firmeza monárquica que fulminava de expatriação um súbdito já banido. — As portadas fecharam-se violentamente sobre a sua explicável e veemente exasperação, dificilmente domesticada pelos próximos. Irritação que se desculpava em lágrimas impercetíveis do rés-do-chão.
— Mas que lhes deu a eles? … — Damien?! — Foi-se embora! — Raios, que chato ele ficou desde que deixou de tomar droga connosco — resmungava Bruce, sem se desinteressar do suspense, e mergulhou de novo no filme que via.
Damien? … — Atravessava aquele corredor acinzentado em direção àquela mulher de cabeça dura, para pedir perdão e gemer aos seus pés. Brutal e irónica, a ira da musa ligara-o à realidade.
Sombras malignas, insinuando-se de todos os lados na sua direção, não o atingiam. Avançava implacável, exercendo apenas o prazer de rever Nielle: « Inefável felicidade. Prazer divino. Alegria requintada. Paz paradisíaca, enfim minha! » O pátio oferecia-se-lhe, grande e livre: « Eis-me aqui, Hard Headed Woman, musa de todas as minhas musas, inspiração feérica, energia abençoada. Terna humana. » O traçado dos seus passos acariciava o de Nielle; o dos seus regressos, o das suas fugas. Cada uma das passadas sublinhava a apreensão de uma embriaguez nunca vivida: « Sim, serei amigo. Sim, serei confidente. Sim, se puderes e quiseres, serei amante, esposo, pai para essa criança que se desenvolve no teu seio. »
Dessa poesia, o sonhador ausenta-se pelo espaço-tempo de verificar vantagens e desvantagens.
— Se esticasse este vazio temporal, talvez pudesse encontrar a força necessária para cicatrizar as feridas; sacrificar esse não-ser, encarcerado em mim, em benefício da viva, regressada. Intuitivo, deverei inventar ou revelar…, saberei determinar a justeza das minhas palavras, com as quais hipnotizarei a minha musa, ajudado pelas nossas sensibilidades.
Refluir! Reprovar! Agarrar! — « NÃO! Tu não vais! » ejetavam das trevas os seus espectros viciosos que finalmente o tinham alcançado; os dos sofrimentos e das crises. A escada, parecendo distorcer-se, recusava-se a ele. Os pés permaneciam petrificados, como presos em cimento de presa rápida. Impossível subir os degraus. Damien sufocava e desabava subitamente sob as dúvidas.
— … e se ela quisesse troçar de mim, distrair-se da própria tarefa? Que belo pombo eu faria! — Recuar antes do ridículo! — Seria incapaz de suportar de novo os risos acerbos. Como reagiria? … Posso arriscar uma derrocada, debater-me e traumatizar Nielle e a vida inocente dentro dela? — Se me afastar agora: « Inabalável! », … dirá ela de mim e, subsequentemente, confessará essa qualidade engolida no ódio!
Sem ruído, sem sonhos, regressava a casa para tentar quebrar essa nova corrente que o atava por dentro, para se desafogar no piano, teclado barrado, que desejava mudo de emoções adicionais.
***
O sonhopata aproxima-se das despedidas ao nada. Mas só lhe mostrará a língua depois destas sequências retardatárias. Um desejo. Espreitar uma imaginação livre de entraves. Um eterno sonhador nunca se tornará um inflexível pé-no-chão. Ele sabe-o. Ainda alguns ecos a pilhar, daqueles que não o rematarão. Última curva. Um gongo anuncia o último sprint.
Bichoune só voltou a ver Damien duas semanas depois daquela saída imprevista com a amiga… Cada um a estimar a própria culpa, nenhum se informou das distrações do outro nos dias e meses que se seguiram, desinteressantes.
Damien vegetava e deixava os devaneios atravessarem-lhe o coração desértico, onde apenas um oásis o refrescava. Ali bebia água de sonho à sombra de tamareiras de ilusões. Uma planta invisível crescia perto de uma fonte clara. Normalmente nociva aos trigos de luz que cresciam na periferia daquele refúgio. Na imaginação de Damien, essa « Lychnis githago », decorada de flores púrpura com sementes inflamadas pela própria toxicidade e comummente chamada « nielle », percebia-se inofensiva. Na sua alma sem acrimónia ou nocividade, ou fora dela, libertava um perfume hipnótico que embalsamava o quotidiano.
Outra planta, outro desejo. Folhas de visco na mão, ia a casa de Bichoune alojar-se na noite de Natal e reposicionar o pequeno boi e o grande burro. Contudo, essas fantasias servidas sobre palha não o distraíam dos pensamentos por Lysianne, e também compreendia que Mylène, que a recebia, tinha direito à sua parte de felicidade.
Soprando com mais potência e magia na sua trombeta onírica, como um anjo das montanhas, esperava que os votos ressoassem até ao coração dos mais infelizes. Como os pobres, os doentes, os deserdados, os isolados; como aqueles que não queriam saber dele, por exemplo: os Brouillette em receção, o novo inquilino do atelier, que aliás não conhece; ou aqueles que o traíram ou odiaram, esses vencedores, Lou, Carlos, Jonathan e Mia.
Ou ainda votos a todos esses estrangeiros que tinham aproveitado a prodigalidade sensual de Nielle. Aqueles que, para penetrar no domínio dela…, atravessavam, intrépidos, aquele túnel. Como uma porta escancarada para amizades singulares, esse corredor visto da rua parecia um quadro que pintava sempre a mesma paisagem morna. Velhos barracões cinzentos e remendados, coroados de copas de jovens árvores que cresciam nos terrenos vizinhos ao sabor das estações.
Nesse quadro, onde a neve uniformizava a tela, surgiu uma grande silhueta. A de Nielle, que parava bruscamente, protegendo o recém-nascido que colava ao peito, por receio das reações do sonhador. Esse animal portador de raiva.
Prosseguindo o caminho, indulgente, ávido e terno, ele memorizava para sempre os dois seres.
— Nielle, amo-te! Amo esta criança que me proíbes para sempre de conhecer. — Não temas nada. Não vos agredirei nem me aproximarei de vós pelo resto dos meus dias. — Os meus melhores votos! … Os meus respeitos, meus amores, minha rainha, minha musa!
Fresco como o orvalho, o sonhopata comemora com uma lágrima esse distante e último encontro que anunciava esse interminável e ainda existente período oco sem ver Nielle. Na realidade, para ele, trata-se sempre do mais turvo, pelo valor nulo de zero. — Em recorrência nas fantasias e nos sonhos, vivia na ilha da imaginação, magnificando ali dores e tristezas. Único antídoto que, além disso, o enobrecia: fazer amor com a solidão.
***
Damien rompeu a relação com Bichoune no ano seguinte. Recalcitrante, ela assediava-o incansavelmente. Com razão: ser deixada por um baixote engenhoso…, um intelectual e artista de bolso, fazia-a perder brilho de vamp e enfraquecia o prestígio pessoal junto das amigas andróginas.
Não fosse a intervenção da mãe, que ele alojava. Hospitalização do chefe de família para tratamentos de quimioterapia. Não fosse um confronto cortante entre as duas mulheres. — Uma batalha de aríetes! — Ele ainda se deixaria apodrecer na traição. Não fosse isso, o cobarde ainda se perguntaria se possuía coragem e nunca teria notado que o último ponto de referência à musa desapareceria do ambiente.
Mia, a única irmã de Nielle que ele conhecia, ela que, por fantasia, lhe evocava um transferidor quando aproveitava a atitude ostensiva dela, quando lhe era possível deleitar-se com os seus encantos, desfalecer com eles. Dela apropriava-se, como num rapto de intimidade, das semelhanças com a musa, até lamber os próprios sonhos. Atingindo até o Nirvana, ao beijar com os olhos condenados o rabo da bonita demónia. Ela que em breve mudaria de inferno.
Contudo, Mia não deixou a casa sem colher no correio um último sinal de vida. Uma carta de Damien, na qual ele interpretava os motivos que suscitavam aquelas intrigas contra ele; exprimindo ao mesmo tempo desamparo e aprovação desses gestos rebeldes e protetores a favor de Nielle. Abordou-a até com vivos detalhes sobre as piores torpezas, certo de a espantar. — Por fim, assinava a despedida com uma reiteração quase solene do seu amor por Nielle.
A confissão teria sido repetida se lhe tivesse juntado uma cassete de curta duração, magnetizando a ouvinte inspiradora com um perturbador: « Ba. Ba. Bi. Bo. Bi. », sem voz, ao piano.
***
Uma brusca rajada de vento abre a porta traseira. Como se um juiz eólico, descerrando um envelope selado, revelasse o resultado de uma longa deliberação: « … e o vencedor é…? … O pequeno sonhador! Ainda demasiado fraco para se deslocar, o senhor Damien, ex-sonhopata, virá receber o troféu no lugar dele. »
A reconquista saldou-se por uma vitória. Tudo foi recordado, quase revivido, sem que tivesse rebentado os miolos. Sem ter recorrido ao revólver já carregado e embrulhado numa toalha; transportado naquela velha mala, onde fazia companhia ao diário e à fotografia… na eventualidade de um fracasso amargo.
Inútil! Damien, o pequeno sonhador curado, desperta de novo para a vida. O seu onirismo apavorado já se estabiliza. Uma cura rápida? … Definitiva? Ele suspeita-o. Fareja a liberdade da alma, a euforia no coração. Pela busca interior, libertou-se da escravatura de uma musa impercetível. Mas melhor ainda! Nunca mais aquelas ideias suicidas a jorrarem dos seus verões escurecidos de fatalismo na comemoração dos primeiros prantos. — Acabou! Terminaram essas semanas de julho e agosto, esses corredores temporais cobertos por inúmeras espadas de Dâmocles, esses períodos a que chamava zonas de nostalgia. — Desapareceram! Esses momentos de insurreição contra si próprio, recriminando-se por ter abandonado aqueles lugares quando vegetava sob os passos de Nielle. Afinal, não estava ela mais perto?
Compadecia-se da sua falta de damienntismo. Desolava-se pelo incumprido, esses cinquenta passos nunca dados. Esse primeiro ensaio que o teria levado até esse terceiro andar protegido por treze degraus armadilhados de angústias; essa distância de caráter infinito, que poderia ter atravessado mesmo nu e de joelhos, flor na mão.
Com a consciência retificada, arrefecia com uma despedida esse sonhador megalómano e o amante louco dentro de si, afrontando, com uma irritação final, o subconsciente habituado à musa.
— Nielle, onde quer que estejas, ouve-me! … O esquecimento? … Não conheço! Mas condicionado pela recapitulação das minhas recordações, doravante só verterei lágrimas de poeira; e o suicídio que me ameaçava aniquilou-se do próprio mal como um piloto kamikaze que fizesse hara-kiri no cockpit.
Experimentei a usurpação do tempo, adormecendo-o entre dois picossegundos num sonho. Horror! Revela-se mais insone do que eu. Explorei o espaço que nos separava tentando alterar-lhe a elasticidade. Demasiado resistente, essa distância, em vez de se romper, afastou-nos para sempre. A minha vontade era tão grande, os meus poderes tão irrisórios.
Desejei-te tanto, musa fantasma, que o teu ectoplasma fez a minha alma sufocar. Adoçar a tua recusa agarrando-me, por onanismo, à tua fotografia só me permitia esperar. Demasiado?
Morrer é muitas vezes acabar de viver da maneira como se lutou ou se defendeu. Sendo a morte a última e mais valorosa lição de vida que podemos oferecer aos outros, aos que nos lamentam, como aos que mandamos à merda. Assim, esperarei a noite do túmulo da maneira como te esperei; com resignação. Submeter-me-ei à sua libertação quando ela se apresentar. Ela, sei que virá amar-me.
Passarinhos franzinos piam de medo nos pesadelos. Por instinto, temem, pois ao despertar serão empurrados para fora do ninho. — Voarão ou morrerão.
São e salvo da travessia das trevas, Damien pode amputar as asas, agora supérfluas e incómodas, para descobrir novos horizontes. Mas está extenuado e pálido depois de se curar, de purgar o espírito e purificar a memória; sente entorpecimentos e o tórax parece-lhe encolher. Apesar de tudo, precisa de ar fresco para si, o homem novo.