CAPÍTULO VI
Por deformação profissional, o sonhopata imagina filactérios fervilhantes de palavras a rondar a fotografia de Nielle. Banda desenhada desenraizante. Pode ler nela, como num foto-Damien, a descrição sem onomatopeias da sua maneira de agir; e concebe, ao ler certos capítulos, que a perfídia pode nascer do efeito…
Os seus dias resumiam-se a sair da cama para depois se estender no divã, a fim de transcrever as impressões no diário. A simplicidade, Damien dissecava-a, remexia-a, analisava-a até a tornar complexa. Sabiamente, estudava o menor som e mudava-lhe o contexto.
— Estranho! Não capto a expressão do momento. Totalmente indecifrável. Que exprime ela pelos seus passos, de cadência rápida? — Damien! És um idiota! — São duas pessoas lá em cima.
Deve tratar-se da nova vizinha de Nielle. A subinquilina do apartamento de Jonathan.
Bonita e simples. Tem a gentileza de conversar comigo, ainda que um pouco, sem ficar horrorizada com a minha vetustez de hippie em contracorrente. Simpática, ao contrário do objeto dos meus desejos…, dirige-se a mim sem demonstrar juízos de valor. Estará a tentar atrair um novo cliente? Possui um estabelecimento, situado perto da torre da televisão estatal. Um restaurante. O nome é tão insólito que dificilmente o memorizo. Nunca sei se devo dizer “Gula Lupus” ou “Lupus Gula”. — Sem importância! — Esta ruiva é uma rapariga porreira que adora gatos. O dela responde pelo nome de “Minouchka”.
Há alguns dias, o seu felino estava pacificamente estendido no fundo da escada. Ronronando por instinto, o animal deixava-se afagar sem se mexer. As minhas carícias transbordavam de tanta sinceridade quanto eu estava convencido de que ele pertencia a Nielle.
Sem embaraço, com uma voz que chegava às janelas do terceiro andar, lancei: “Tens olhos tão bonitos como os da tua dona!” Erguendo ainda mais a cabeça, avistei essa estranha, que compreendeu pelo meu ar estupefacto e embaraçado que os elogios não lhe eram dirigidos.
No tempo que ela levou a descer do telhado, de onde acabava de aperfeiçoar o bronzeado, concluí que era ela a verdadeira proprietária do animal. Longe de se sentir intimidada pelo meu engano, apresentou-se com simplicidade.
— Bom dia! Chamo-me Rachelle. Deves ser o Damien? O Jonathan falou-me de ti. — A minha gata é bonita, não é? Gosta tanto de carícias que as coleciona. — Depois, voltou-se para o animal. — Que andas tu a fazer cá fora, minha querida Minouchka? Mmm! … Vá, anda, vamos entrar. Até logo, Damien.
— Até à próxima, Rachelska, hã… Rachelle.
Nielle deixa-me completamente doido! Faz-me virar do avesso. Fez de mim um desastrado que tropeça nos próprios erros, como se brincasse ao salto ao eixo com as minhas asneiras. Ilustro-me em desajeito diante dela e por causa dela. As minhas gafes quotidianas e os curiosos mal-entendidos em que me meto têm origem na minha emoção, que se apavora ao mais breve pensamento dirigido à minha musa.
A cada instante, reconduzo tudo para ela. A cada ocasião, forneço a mim próprio, sem ajuda exterior, a prova da minha obsessão extravagante. — Neste momento, há três pessoas em casa dela. Por puro onirismo, durante um segundo, cheguei a imaginar que ela se tornara hexápode!
Que fascinante vertigem me leva a seguir a história de Nielle?! … Sou o único narrador e o único ouvinte de um conto de fadas do qual só ela é a heroína. Ela é, no meu cosmos imaginado, como um monumento vivo; o mais exótico e o mais fantástico que possa existir. É uma fonte de juventude que imortaliza um único sonho. O meu. O do meu amor por ela. A sua presença na minha vida compara-se ao cumprimento de um milagre que apaga todos os vestígios de uma doença incurável. Estranho também! … Como uma afeição deliciosa que me ajuda a sobreviver e até a “sobremorrer”.
Sim! “Sobremorrer” pela inspiradora! Cada instante poético, mesmo o mais breve, é como uma vida. Quando surge a ideia seguinte, é a morte da anterior. De cada clarão de luz que a minha musa suscita surge outro. Cada “chama-mãe” sopra já as suas despedidas a cada partícula gerada desde o advento. É a própria ideia da morte que permite a consciência da vida. — Nielle, sobremorro por ti!
Paradoxo da minha existência! És a fonte das minhas ilusões e o seu extermínio; o controlo dos seus fluxos e as suas emergências enlouquecedoras e imprevisíveis.
Raios! Onde estou? Eis que viajo de novo pelo éter. Felizmente, esses passos na escada interior trouxeram-me de volta à realidade. — Merda! Nielle vai sair com eles! — Depressa!
A distância é curta. A porta já estava aberta; no verão, quase nunca a fechava. Isso dava-lhe a impressão de respirar melhor. No tempo de pronunciar o verbo “sonhar”, alcançava o limiar. Nielle, Rachelle e um homem de cabelos frisados, quase encaracolados, já começavam a descer a escada exterior.
— Olá, Nielle! … Vão sair para apanhar ar? — Essa maneira cavalheiresca de os abordar contrastava com a elegância do vestuário das três pessoas.
— Sim…, vamos… a uma degustação no restaurante da Rachelle. — Um especial Médio Oriente. — Aliás, a ocasião é ideal para te apresentar Lou Jobim. Ele é cozinheiro no “Gula Lupus” e…
— Eu que pensava que o nome do restaurante era Lupus Gula! — Essa piada ficou sem consequência; nenhum sorriso, nem sequer discreto, veio encorajá-la.
Percebendo o mal-estar de Damien, Nielle acabou por completar a frase interrompida pela indelicadeza do seu admirador.
— Lou muda-se na próxima semana para o lugar de Rachelle.
— Já te vais embora! Não gostas do bairro?
— Não é essa a questão, Damien. Investi as minhas economias na compra de uma casa no campo. Prefiro o ar livre, é só isso. Mas não tenhas receio, Lou é simpático. Será, sem dúvida, um bom vizinho.
— Vais ver, Damien, vamos entender-nos muito bem. — Mas desculpa-nos, temos de ir. — Sou chefe de cozinha e tenho de supervisionar a apresentação dos pratos. Ainda tenho um para preparar… Até logo! — concluiu educadamente o recém-chegado.
Vendo-os afastar-se os três, felizes e excitados, perguntava-se se o cozinheiro, o seu futuro vizinho, não se preparava para o pôr a marinar.
***
O sonhopata transpira. Quanto mais os acontecimentos são feios mas vitais, mais a sua testa se franze sob a perturbação, projetando como minúsculas cascatas de suor. O trabalho forçado vem acompanhado de dores de cabeça. O pior ainda está por vir.
É meio-dia. O Ângelus ressoa como um dobre fúnebre nos seus tímpanos. A meio caminho da cura ou da perdição? Lá fora, tudo está tranquilo; a companhia dos assistidos sociais e outros pobres obriga-se a comer salpicão de Bolonha fora de prazo. O resto da sociedade sacia-se com os seus infortúnios.
Um pouco mais nervoso, ainda mais receoso e até chocado, fareja a injustiça que reina sobre as suas recordações escravas. Já não precisa de ler o diário. Tocá-lo, aflorá-lo, basta para lhe recordar o relato da sua epopeia sentimental. Estabeleceu-se uma corrente entre ambos. Essas páginas, testemunhas incontestáveis das suas horas marcantes, prosseguem, primeiro suavemente, as suas próprias histórias.
— Trago-te a minha assistência. Só terás de sofrer e esquecer a tua musa. Incrédulo? … Não confias em mim, o teu diário, o teu indefetível confidente? Porquê ser tão independente, tão arisco, ao ponto de empurrar a minha ajuda? Essa atitude sempre te foi nociva, sabias?
— Não, pelo contrário! Totalmente salutar.
— Achas? Tens mesmo a certeza? … Lembras-te bem desse cozinheiro, não é?
— E como! Ele até cozinhava as pessoas com quem convivia.
— Essas ocasiões de falar diretamente com Nielle. Essas aberturas que ele te apresentava numa bandeja de prata, já as proscreveste da memória?
— Menciona apenas uma!
— Nielle queria vender a velha lata dela. Ele informou-te da intenção que ela tinha de se desfazer daquele monte de sucata. Sugeriu-te simplesmente que comprasses o carro, tu que não tinhas nenhum.
— Só para se pôr em destaque!
— Era também para se valorizar que te informava de que Nielle estava sem trabalho, que recebia prestações de desemprego? — Tendo percebido que tu próprio criavas essa diferença de classe que abominavas, não te assinalava ele um ponto em comum entre ela e tu, … dificuldades financeiras semelhantes?
— Talvez, mas como afligir-se com a desgraça de outra pessoa quando a mensagem baba sob um sorriso mesquinho!
— Ainda assim, não te oferecia ele a oportunidade de te aproximares dessa mulher que continua a assombrar a tua existência há mais de uma década? — A cada uma dessas oportunidades que te apresentava, tu escapavas-te. Mudavas de assunto, esperando que a tua bela tivesse a decência de vir oferecer-se a ti sem convite. — É preciso dizer que a tua marginalidade te faz viver contra a natureza. Não é?
— Sempre achei insípida a ideia de que a perseguição fosse apenas um jogo de homem, e que a mulher não esboçasse pelo olhar senão uma simples sugestão.
— Ao ponto de te perguntares qual foi o mecanismo que te permitiu conquistar Mylène, aquela a quem ainda chamas o anjo? — Não passas de um consumidor de amor pronto-a-vestir, pronto-a-servir. Se tal coisa existisse, irias buscar as tuas emoções aos balcões de comida congelada!
Uma lágrima corre lentamente pela face do sonhopata, para depois se esmagar no diário. Como se o atormentado não tivesse encontrado outra maneira de calar o confidente. Essas revelações, que até então se esforçava por esconder de si próprio, revelam-se mais insuportáveis do que o relato da sua odisseia rumo à libertação do seu mal. O sonhador constata que, apesar de outras evidências por vir…, era mais culpado do que imaginara.
Com a ponta dos dedos trémulos, retoca o pergaminho. Esse roteiro força-o a prosseguir a análise, já toda traçada. O seu documento, tal como um amigo de longa data, recomeça a repreendê-lo ainda mais.
— Depois de um pedido formulado de modo conciso e frio, ainda te interrogas sobre a recusa de Nielle em colaborar no texto da tua banda desenhada? … Fizeste-a sentir que desconfiavas dela! Tinhas assim tanto medo de que ela te roubasse o protagonismo; ela bela e inteligente, tu feio e parvo! — Contudo, hoje, a evidência prova que a tua obra é frouxa, que assinala a tua complacência e que um narcisismo subentendido é o seu verdadeiro fio condutor. Que resultado tens? … Continuas um desconhecido, um artista mal vestido.
Eras tão paranoico que, sempre que tinhas de sair de casa, arrastavas os teus originais nessa velha mala que ainda guardas. Acreditas mesmo que Nielle era tão tola que não reparava na incongruência dessa mania? O receio de te fazerem surripiar a originalidade da tua criação ou de sofreres um plágio levou-te a provocar o desabamento de uma segunda oportunidade!
A única fotografia de Nielle associa-se às censuras do diário.
A sua imaginação flexível é uma arma de dois gumes. Sem discernimento, não hesita em servir-se dela. Ela ajudá-lo-á, por projeção, a redescobrir uma parcela das “dormências” da memória. O sonhopata faz cinema…
Desilusão! Não se trata de uma ficção, mas de um documentário. Uma curta sequência, como todas as da sua vida. Voltará a aprendê-lo. O narrador continua o mesmo. Frio, empoeirado e quase humano, o diário relata. Leva a descrição até aos detalhes técnicos…
— Plano geral: a sala; nada terá mudado. O mesmo divã. A mesma lâmpada pendia sobre ele. — À noite, não era demasiado cedo nem demasiado tarde.
De novo, ou ainda estendido, ocioso, deleitavas-te. Esforçando-te por ignorar a ausência ou a presença de Nielle no apartamento dela, escutavas distraidamente música.
Tocam à tua porta, como se alguém quisesse um encontro oficial. Levantas-te lentamente e vais atender sem convicção, pois não desejavas ver ninguém; aclimatavas-te à solidão. Sem mais prudência do que a necessária, acionas o trinco. Puxando de um golpe seco essa corda que te permitia abrir preguiçosamente, sem teres de descer a escada. Constatas com prazer que acabavas de abrir a porta a uma bela desconhecida.
Picado: uma luz âmbar multiplica a importância da superfície amarelada das paredes já ocres da escada. Hesitante, a estranha impedia, contudo, a porta de se fechar atrás dela. Os teus olhos reveladores pareciam incomodá-la.
— Boa noite, senhor! Sei que é um pouco tarde…, mas… sou Mia, irmã de Nielle, a sua vizinha. A que mora no terceiro andar. Tínhamos encontro marcado. Acontece que ela não me responde! — Posso telefonar? …
Não podias recusar. Por educação? Por humanismo? Sobretudo não! O desejo, a alegria de a observar, nada mais. Não era ela encantadora? Não a consideravas uma embaixadora?
Plano americano. Contra-picado: a câmara dirigida para o sonhador; o rosto é desfigurado por sombras imprecisas e móveis. A lâmpada suspensa do teto, por um longo fio elétrico, ainda balançava.
— Certamente, não vejo inconveniente. Pode subir! …
Plano geral da sala. Iluminação: idem. Som? … Nulo. O aparelho telefónico, baço por uma fina película de pó, como que desequilibrado pelos desníveis da mesa onde se encontra, complica a tarefa de Mia, que ligava pela terceira vez.
— Ela de certeza não está em casa. Agradeço-lhe na mesma.
— Podes tratar-me por tu.
Não ias desperdiçar tal ocasião. Tentando encantá-la o melhor que podias, com habilidade, ficaste a saber que ela estudava cinema. Além disso, informou-te de que certas modalidades relativas ao seu futuro alojamento em casa da irmã configuravam essa visita falhada, embora planeada.
Para embelezar o tempo…; convidas-a a passar para essa outra divisão que era o teu estúdio. Com a volubilidade de um guia turístico, citas-lhe as anedotas ligadas a cada elemento do cenário. O teto, drapeado com numerosos tecidos multicolores provenientes de uma festa, não passava de uma forma original de os arrumar. Na parede, cartazes de cinema, todos anúncios de filmes de Marilyn. Ali, perdida num canto, uma mesa de luz, único vestígio do teu período profissional no filme de animação.
Sobre a tua mesa de desenho, como uma piscadela de olho, duas pranchas em curso. A tua famosa banda desenhada, o teu ambicioso projeto.
Para reter o tempo…, tentavas seduzi-la apresentando essas imagens à maneira de um colecionador de estampas japonesas. Esvoaçando pelos detalhes, aguçavas-lhe o apetite com a intenção vulgar de a impressionar. Porque todo esse aparato tinha como único objetivo convencer Mia da qualidade gráfica da obra. Isso para que, cedendo de admiração sob essa manobra de sedução, ela insinuasse à irmã a ideia de colaborar no texto.
Grande plano sobre Mia. A tua esperança lia-se nos olhos da recém-chegada. Virando com precaução a última prancha concluída, comentou serenamente.
— Um trabalho magnífico. Tantos detalhes… Vou sugerir a Nielle que colabore no texto. É isso que queres, não é? … — Dito isto…, deixo-te. Obrigada pela hospitalidade.
Plano médio: Damien diante da objetiva. Mia em contraluz. O teu ouvido exercitado percebe um estalido por cima. Esse indício torna-se o elemento de persuasão ideal para prolongar por alguns instantes a aprendizagem da tua estranha personalidade, da qual Mia paga as despesas.
— A tua irmã está em casa!
— Como sabes?
— O meu dedo mindinho formiga! — A minha porta das traseiras dá diretamente para a dela, se quiseres tentar de novo.
— Porque não!
Câmara móvel: cena exterior. De pé, como em equilíbrio no limiar da porta, de braços cruzados para te protegeres do frio, observas Mia.
Ela tocava uma vez, duas vezes. Nenhuma resposta. Batia uma vez, duas vezes, três. Nada. O “3297 A” não respondia.
Fazendo tábua rasa de toda a contenção, apresentavas-lhe uma vassoura e depois convidava-la a voltar para dentro. Tu apoderavas-te do cabo telescópico de uma velha esfregona.
Sem dizer palavra, esboçavas um sorriso a Mia, apontando para o teto. Perspicácia feminina: ela compreendeu de imediato. Divertida com a ideia, seguiu-te até ao ponto onde os ratos levariam mais ressonância. Depois, os golpes choveram tanto quanto as gargalhadas. Foi sem dúvida o único momento em que, numa certa forma de camaradagem, ambos simpatizaram.
Esses golpes, um pouco como no teatro, designavam na realidade um longo e último ato. Como comediantes de improvisação jogando cegamente rumo a um final insuspeitado, a intensidade da expressão de um sugeria o jogo do outro. A toque de tambor, desenhava-se a réplica final.
— Abre-te, Sésamo!
A porta do terceiro andar entreabria-se. Nielle, que se escondia em casa, sucumbia à insistência dos percussionistas.
Mudança de plano e de atmosfera. A escolher pela intuição. O cenário: a escada interior que leva ao terceiro andar. Tinhas acompanhado a tua cúmplice para explicar a Nielle que estavas na origem da barulheira. A intenção era bela, mas foi vã.
A tua bela estava furiosa com a irmã mais nova. Educadamente, Mia sugeriu-te que voltasses para baixo. Temia ela as reações de Nielle? As censuras que vos esperavam? No fundo, estavas-te completamente nas tintas. Essa brusquidão em que vos comprometestes permitia-te humanizar a mulher ideal que vias em Nielle por essa faceta colorida que é a cólera.
***
O sol já não está no zénite. A procura não atingiu o apogeu. O sonhopata está farto. A vontade de vomitar sobre o passado impede-o de respirar. Inveja as pessoas simples, tem ciúmes das suas esperanças normais.
Essa constatação, tornando-o agressivo, enriquece a ira que o diário estimulava com uma moral dispersa entre as linhas. Impulsivo, Damien projeta o confidente biógrafo contra uma parede desta morada que começa a sufocá-lo secamente. Ser repreendido por aquilo que é imperfeito subiu-lhe ao nariz. Essa súbita aversão permite-lhe compreender que revive esses elementos do passado com uma energia presente.
Para garantir o desfecho do seu périplo emocional à maneira de um contrato de seguro, agarrando papel, pena e spleen, redige um poema que evitará criticar ou analisar. Deixando a sequência das palavras repousar sobre um movimento contínuo da mão.
(Viajar neste navio encalhado?
Arriscar a pele, os sonhos e pecados?
Depressa! Pô-lo a flutuar, que tome o mar.
Para reviver esses furacões amargos.
Içar esses medos, prantos, mal-estares e náuseas,
Oscilar na rota tão temida…
Da vaga tristeza e de uma vida de galera,
Para nela afogar o amor, fogo do meu inferno.
Navegar rumo a esse tesouro dos tempos gastos.
Por instinto encontrá-lo, depois transportá-lo…
Para terras virgens e brancas de luz.
Traçar-lhes a tinta mil e uma fronteiras.
Redescobrir noites e dias essas paragens,
Esses países tristes que se deixam olhar.
Eles, cujo verão é apenas um negro inverno,
Consolarão a minha existência de ontem.
Fundir-me nesses lugares, imagens do passado.
Beber o oceano, ela que me esqueceu,
Graças a este navio de humor precário
Que é a minha memória sombria e mais do que às avessas.)
Satisfeito por se ter convencido a não largar a presa, fecha os olhos. Como num sonho, revê-se nesse período subsequente ao encontro com Mia, impaciente. Tal como o diário ou a fotografia, percebe-se como um terceiro; como se se recordasse de outra pessoa.
— “Ouço-te, Nielle! Sim, estás aí! A tua irmã também.
Damien hesitava em apresentar-se em casa da sua musa, por a manhã ser demasiado jovem para esse contrato social. A ousadia do telefone, esse bisbilhoteiro da intimidade, conceder-lhe-ia um acesso tolerável. Um toque…! Um segundo!
— Ela, que agora partilha os teus espaços, um pouco da tua vida. Terá Mia tido o cuidado de te dar as suas impressões sobre a minha banda desenhada? Desejo tanto que colabores no texto. Ignoro se o encanto desdobrado teve repercussões, e essa curiosidade irrita-me. Se eu pudesse contactar uma ou outra… — Contudo, elas estão aí! … Ouço passos, até as vozes delas.
O sonhador estava abalado. O ar circulava mal na traqueia. Contraía-se, tremia. Nesse dia, o seu conhecimento perfeito dos silêncios da manhã permitiu-lhe distinguir cada palavra de uma breve troca entre as duas irmãs.
— Se for o Damien, peço-te que lhe digas que estou ausente! Está bem, Mia? …
Sexto toque! … Último sinal? Não ousava desligar, tomado pela intuição demonstrada pela sua musa. Como sabia ela? Porque ousava ela?
— Nielle, não tens o direito de me boicotar! Que foi feito da tua confiança? … Terei eu tranquilizado tanto, com as minhas chamadas incessantes depois desse roubo de que foste vítima, que agora sou para ti de uma inutilidade total?
— Está lá! … Está lá! … Quem fala…?
— … Mia? … Sou eu, Damien! Posso falar com Nielle? … — Em detrimento do seu orgulho, essa pergunta fútil foi feita. Poderia ter revelado que as surpreendera a falar mal dele; mas proteger as vantagens dessa sonorização, propícia a surripiar os mais doces segredos de Nielle, era prioritário.
— “… ela está ausente neste momento. Quer deixar recado?”
Como esperava, Mia confirmou a sua solidariedade com a irmã. Talvez por piedade, não desligou sem mencionar ao artista que elogiara os méritos dele e os do seu projeto.
Evolução inesperada ou regressão súbita? O sonhopata, hipersensível à recordação dessa rejeição, parece inerte. Choque salutar? Muitas vezes duplo, sente de novo a personalidade fragmentar-se. Ausculta o ego para reencontrar a globalidade do eu.
Enquanto ser ordinário, sem ser normal, sem ser pleonástico, esbanja um cliché consagrado, o célebre excerto shakespeariano: “Ser ou não ser… ou ser apenas não-ser? … Eu? … Ele? … Ou Nós? … Aí se esconde a interrogação!” Porquê esta pergunta? — Procura-se.
— Onde fui parar? Quem sou eu? Quais são as verdadeiras qualidades de Damien? O seu maior defeito? …
— Ver a dobrar sem consumir!
— Quem fala?
— Eu, Damien!
— Mas Damien sou eu.
— Se tu és eu, quem sou eu?
— Nós os dois, isto é, eu, Damien, o pequeno sonhador. Aquele que, na sua morte, arrastará a tua. E vice-versa.
— Tu és bem a prova de que temos de sair disto.
— Sim! Sairmos os dois destas correntes que Nielle entrançou à volta dos nossos pescoços.
Virando-se para si próprio.
— Ele tem de acabar com isto!
— Quem é esse ele? — Tu? … ou nós?
— Vejamos, onde estávamos? Quero dizer, onde estava eu?
— Queres dizer onde estás! Pois eu sou “ele” e tu és “eu”.
— Sim, é isso! Sou Damien. E tu, “ele”, nada tens a ver com a realidade. És um produto, até um subproduto, da minha imaginação em perpétuo delírio. Enfureces-me! Às vezes ouso desejar nunca ter tido esta faculdade de sonhar em toda a parte, sob todas as condições. Por este fenómeno ilusório de que já não sou a origem nem sequer testemunha, mas no qual participo diretamente com um ar baixamente natural. Exijo o teu exílio na inépcia, alter ego subsidiário!
— Não! Agora sou eu que te contarei! Porque eu não esconderei nada!
Recuperação viva da sombra. Sempre infiel, mas mais verdadeira do que ele. Ambos ligados às mesmas boias de salvação, recordações a remontar como um puzzle chinês.
Essa manhã, triste pela rejeição e deprimente de pluviosidade, não terminaria sem acrescentar mais espanto. — Lou Jobim alojaria um jovem estudante. — Bruce Brouillette, passando como um vendaval, fumando um charro de haxixe, informou brevemente Damien disso. O sonhador bem teria querido saber mais, mas Bruce desapareceu com a fumaça azul que se dissipava. Contudo, o acaso permitiu que à saída do filho dos Brouillette correspondesse a do cozinheiro, que partia para ganhar o pão, já assobiando a sua afeição às panelas.
Damien, envolto numa inocência muito simples, com ar infantil, saiu apressadamente de casa e correu para Lou, aos saltinhos. Um tanto transformado pela sua absorção matinal, esquecia, de alma e corpo, alguns vizinhos que, à distância, o fuzilavam de reprovações nutridas e satíricas.
— Eh, Lou! Tudo bem? Vais trabalhar, não é?
— Efetivamente, meu caro, mas estou apertado de tempo.
— Tens um pensionista, parece?
— As notícias correm depressa no bairro!
— Sim, falta pouco para precederem os acontecimentos. — Tréguas nas brincadeiras, gostava de te falar de outra coisa. Um sonho.
— Um sonho! … Despacha-te, vejo o meu autocarro a virar na avenida — suspirou ele, exasperado, desviando a cabeça do olhar confuso de Damien, que gesticulava mais do que descrevia.
— … à volta de uma mesa, estão Nielle e mais três pessoas. Por trás, uma voz proclama: “As raparigas que vão aos restaurantes já comeram muito!”
— É tudo?
— Sim, mas sonhei com Nielle!
— Que interessante, e que curiosa coincidência: ao fim do teu relato corresponde a chegada do meu autocarro. — Até logo!
Com os olhos fixos em Lou, impregnado do mesmo sorriso malicioso que saldava a réplica, Damien desejou-lhe que não encontrasse lugar livre no autocarro cheio. Depois, inquieto, interrogava-se sobre a pertinência de ter debitado à pressa apenas essa primeira parte de um sonho. Como poderia ter-lhe revelado tudo? Lou tinha nele um papel importante, os significantes eram mais turvos, capciosos e quase incriminadores.
(Los Angeles. Caminho pela Sunset Boulevard. — No passeio, há pegadas. São azuis. Estranhamente, são as minhas. Avanço na direção delas. O traçado misterioso desemboca numa ágora.
Delimitando o espaço, grandes véus diáfanos esbatem, apenas, altas colunas de capitel coríntio. A alguns metros, sobre uma larga plataforma, uma mesa longa e ampla coberta por uma toalha branca. Sobre ela, iguarias exóticas apetitosas, peças montadas e apresentadas em pratos de ouro. De pé, atrás dessa apresentação gargantuesca, Lou em traje de chefe de cozinha.
No centro dessa cena, Nielle, de vestido de noite, é discretamente cortejada por quatro homens. Faço parte desse quarteto de galanteadores. Não mais favorecido pela altura do que na realidade, sou ali o pequeno engraçadinho que diverte os outros.
Depois, Lou convida-nos todos a degustar os seus pratos fabulosos. Depois de servir generosamente os outros convidados, atira com um gesto desdenhoso algumas migalhas para o meu prato raso.
Nielle dança então com um dos pretendentes, como se tivesse feito a sua escolha, eleito o seu príncipe, segundo as recomendações do “não-verbal” de Lou. Invejo tristemente os dançarinos. Estou só e rejeitado até neste sonho.)
O autocarro desaparece no horizonte em simultâneo com o fim deste conto de um só sono. Sem plagiar o cozinheiro, “Curiosa coincidência!”
O frio que começava a fazer Damien estremecer trazia-o de volta à realidade. Voltando para casa, caminhando de cabeça erguida, mais do que erguida, perscrutando uma dessas janelas com portadas do terceiro andar, imaginava nela uma silhueta a fazê-lo definhar de desejo. A de Nielle, que decerto aproveitara a saída do seu inqualificável vizinho de baixo para se escapulir.