CAPÍTULO XVI
Essa mania de incensar um amor impossível que o aureolava obscuramente vai perdendo o fôlego pouco a pouco, ao sabor dos surgimentos em ressaca. O que ainda o retém ali, … dramatizações demais.
Por mais libertário que seja, se tivesse podido escolher ser maníaco e perseguir incansavelmente sua vítima…, durante todos aqueles anos, a excitação seria ao menos justificável. Mas, damienntico como é, essas agressões que ela sofreria, ele as imagina em serenatas, em prosas ou em alexandrinos.
Durante mais de uma década, Nielle se inserira em seu espírito como um anjo da guarda maléfico. Por imprevidência, essa presença fantasmática de sua musa o entravara com frequência. Como um junco que se dobra ao vento, como um obelisco desafiando os séculos, ela se havia insinuado, imperceptível, e vegetava entre as ternuras e as palavras de amor concedidas às outras mulheres, àquelas que lhe sucederam sem substituí-la. Os toques mais espantosos ou as alcovas mais extravagantes só raramente definhavam poses em sua lembrança. A memória e suas sequências fazendo-se esperar, sua ignorância valida a desculpa de continuar…
O sonhopata recorda Mylène, sua ex-mulher, que o convocara apenas seis semanas depois de sua mudança apressada e inevitável. Durante esse encontro, ela insistira para que ele se tornasse o tutor legal de Lysianne, que, por vezes, o reclamava. Mylène, alegando que precisava viver em outro lugar outra coisa, acrescentava, como para solidificar seu argumento, que nenhum acordo à vista entre Lysianne e seu amante amorteceria a atmosfera muitas vezes tensa entre eles.
Na realidade, por amizade, ela sacrificava seu amor materno com a intenção deliberada de que Damien aterrasse aquela fossa que cavava para si; seu faro infalível lhe demonstrava que ele não conseguia se recompor. Ao mesmo tempo sem vínculo e acorrentado, sem Nielle.
Ele comia e dormia menos do que antes de ter dado o fora. Além disso, hesitava em empreender o aprendizado de seu novo bairro. Não tendo nem a coragem dos verdadeiros imigrantes, nem sua obstinação em conquistar um lugar ao sol, afundava em direção a um perigoso ponto sem retorno.
Por fim, Damien voltava a viver naquela rua da Paz Gloriosa na pele de chefe de família monoparental, pois, em seus entendimentos pacíficos, os pais de Lysianne julgaram que era melhor não desenraizar a criança. O anjo… e o amante partiram.
Sem que ele se desse conta de imediato, sem que estabelecesse ligações entre acontecimentos-chave de sua vida, essa segunda mudança precipitada, o retorno ao redil com Lysianne, aconteceu no dia cinco de abril. — Ele fugira para longe, longe demais dos passos de sua musa, no dia cinco de fevereiro. O acaso? … — No ano anterior, aquela separação harmoniosa, o fim do casal Mylène e Damien… num cinco de julho. Coincidência? … A morte física de Marilyn Monroe, num cinco de agosto. — Nada a ver!
Seu moral fervilhava com a ideia de recomeçar do zero naquele Faubourg de melaço, que colava… ao seu destino. Duplamente feliz por viver com Lysianne e por conceder a si mesmo chances de entrever Nielle.
Sua ex-esposa enxergara certo: aquele pequeno três-cômodos do Plateau-Mont-Royal o minava, envolvendo-o e sufocando-o como uma serpente, como uma prensa. Esse minúsculo alojamento, esse térreo escuro demais, tinha na frente apenas uma janela média, cuja luz era estriada por degraus que a camuflavam dos passantes. Nos fundos, igualmente uma única janela, onde reinavam a sombra e a chapa enferrujada de um galpão.
O tempo se esticava, … longo, naquela gaiola mal dividida e mal situada. Só sua gata o reconfortava. Mas ele conservava aquela impressão dos deslocamentos de Nielle acima dele. Em sua imaginação, esses simulacros inesperados reencontravam toda a candura e a veracidade dos passos de sua dulcineia. Figurava-se esse desejo com tanta obstinação que a audácia de seu onirismo lhe fez entrever a possibilidade de que ela o tivesse seguido.
De vez em quando, avistou seus verdadeiros vizinhos! A partir desse instante, as vozes já não cantavam a seus ouvidos, tagarelavam ou discutiam. Já não eram os mesmos passos que conversavam com ele; já não eram os mesmos pés que batiam nos espelhos dos degraus, agarrando-se a eles tolamente; já não era a mesma maneira nem as mesmas horas para simplesmente lavar a louça. Até os orgasmos já não tinham a mesma fineza!
Não conseguia mais se distrair. Desenhar ou escrever já não lhe dizia nada que prestasse. Sua única aplicação…, provocar um violino que seu pai fabricara com as próprias mãos fortes, ásperas e hábeis. A concentração para tocá-lo revelava-se penosa em suas execuções, não tanto por falta de talento quanto pela ausência de sua inspiradora. "Que valeria a arte sem as musas?" repetia a si mesmo.
O sonhador só banalizava a ingratidão do tempo pelas lágrimas e por clichês psíquicos, tomadas mentais de sua musa que ricocheteavam ao fugir novamente, aumentando a cada aparição seu borrão como por desgaste. Apressava-se a corrigir essas fugas em seus cenários por retoques imaginários; remendava suas lembranças antes que caíssem em farrapos. Globalmente, valendo por meses, apenas uma semana se passara desde a mudança de cinco de fevereiro; esse abandono imprevisível, mas necessário no instante.
Damien nada esperava de Nielle, salvo sonhos cada vez mais vaporosos, suscitados à revelia dela por aquelas feridas com que ela o havia gratificado no jogo. Exonerado de qualquer "arrependimento", tendo livrado sua musa de sua vil pessoa; em que cores viajariam as lembranças dela, suas impressões, na hipótese de que as conservasse?
Poder distinguir-se dos outros amores da vida de Nielle, deslocar-se desses homens mimados, desses seres desfilando entre as perdas de memória pontuais quando ela estivesse velha, frágil e bela de uma eternidade iminente. Poder aliviar o fim dele, antes que ficasse velho, rabugento e desfigurado por uma vida infernal de depressão; transformar a desigualdade, diante dos amores de Nielle, numa diferença levemente perturbadora que o inscreveria, mesmo no fim da lista, num minúsculo carnet de baile dourado. E que, depois de seu tango tirânico, eles finalmente se enlaçariam para uma valsa infinita.
Ainda com os pés na penúria, suas economias dispersas para permitir a desinfecção da alma de Nielle, manchada por sua presença de sonhador. Seu dinheiro evaporaria em meia garrafa de uísque escocês ou se embalsamaria de flores? Poder arriscar? Pouco.
— Idiota! Flores, nada mais original? Um desenho? … Não, ela o rasgaria como o outro. — Um poema? Uma carta? … Será que ela algum dia me lerá??? — O que os outros lhe ofereceram, eu sei lá? … Não sei… — Sem dúvida muito melhor, é evidente! — Paciência, as flores lhe servirão de adeus suavizado, " avaliara ele, sem considerar a noção de tempo…
Na manhã de quatorze de fevereiro, foi ele mesmo fazer a entrega: quatro magníficos fujis e, como assinatura, uma ave-do-paraíso. Rosas? … Não. Ela não o conhecia como um ortodoxo. A marginalidade o perseguia. Contudo, era Dia dos Namorados.
Durante essa visita, não queria ver ninguém, pois o intimidava aquele pacote, aquele significado que transportava com digna precaução. Seu coração palpitava de medo. Aquela escada cinzenta que se divertira em retirar da neve para facilitar a descida ou a ascensão da musa, aquela porta de um azul amargo lá em cima, aqueles complôs e acusações de loucura que lhe voltavam agredindo-o como cérberos bicéfalos; tudo isso lhe doía. Suas palmas úmidas pareciam cavar-se até o osso, suas pernas tremiam.
Dominando com penas e sofrimentos aqueles sintomas de vertigem que o entravavam até em seus hábitos adquiridos; sem emitir ruído, da melhor forma possível, instalou os caules de seu buquê naquela caixa de correio sem cadeado que tomou forma de vaso. Depois, após tocar a campainha, segundo outra mania, fugiu em pavor.
Essas flores oferecidas tornaram-se alimento espiritual de seus devaneios durante aqueles dias intermináveis e sombrios. Elas contiveram suas inclinações suicidas até seu retorno à antiga rua. A Paz Gloriosa…
***
Espantosamente, depois de se reinstalar na antiga morada com a filha, entre as primeiras decisões que tomou esteve a ideia de cometer uma visita ao pai Brouillette, que já renovava os lugares testemunhas de suas crises.
Conversavam simplesmente sobre as melhorias feitas naquele local que perseguia o sonhador com arrepios insubmissos.
— Muitos trabalhos a fazer, senhor Brouillette?
— Não! Está indo bem! Já terminei o gesso, a pintura vai ser rápida. Vai ficar tudo branco. Nada de cor como você tinha posto. Isso não! — E o seu desenho na parede, pode esquecer! … Já era! … Tive dificuldade para cobri-lo de branco com a demão de fundo. Nem me lembro mais o que você tinha escrito, e não sei que tipo de tinta em "spray" você usou… Ela sempre atravessava. Tive de passar três demãos de fundo.
E isso sem falar na lixa! Para tirar as marcas de pincel, tive de lixar como um demônio! … (Saberia ele que o mural havia sido benzido? Teria ele também a memória falha a ponto de esquecer uma frase de três palavras curtas? "Eu te amo, Nielle!")
Loquaz, como seu caráter exigia, o proprietário continuava a acrescentar detalhe sobre detalhe. Como sua personalidade o obrigava, Damien simulava atenção e interesse enquanto sonhava, em outro lugar…, um pouco mais alto…
Perseguia passos que giravam em círculo acima de sua cabeça. Sua musa o enfeitiçava novamente; como passos queixosos. Morria no lugar, essa música lhe fizera falta. Desconcertado, no estupor, adivinhava ter se enamorado daquelas cadências encantadoras, mais do que da alma na qual elas extraíam sua transcendência sedutora. Mas esses passos não cessavam seus movimentos de vaivém, esses espinhos o esfolando, como se expressassem a impaciência pungente de esperar inutilmente.
(— Passos da minha vida. Vocês, estes passos torturadores! Paradoxo de amor, vocês me fizeram falta! Sua melodia desnuda minha alma de qualquer outra fibra que não a da musa que vocês glorificam. Mas afastem-se antes que eu desabe numa prece de lágrimas. Fujam, antes que eu regurgite meu coração como testemunho de amor. ") exortava ele, perdido dentro de si. Já prisioneiro de uma sucção de onirismo.
De adorável obediência, os passos se desprenderam, temerosos e hesitantes, traçando seus deslocamentos rumo à escada proibida. — (Uppercut no espírito, gancho direto no coração.) Iluminados por esses batimentos revelados, sem cessar de citar suas histórias com segurança, iam denunciar suas cobiças. Degrau por degrau, sua poesia exibia rimas e subentendidos numa pronúncia delicada. — (Pare!) Imobilizavam a rota de seus desígnios, no instante em que, numa reverência altiva, confinaram a um idioma subsidiário o prazer de prosseguir o comunicado discreto.
Afetado, um novo intérprete discursava em vão. A mão abatida da musa vasculhava, numa curiosidade irritada, o vazio da caixa de correio, esperando colher nela um desmentido. Desapontados e acuados, os dedos de fada tamborilavam com febrilidade aquilo que chamavam de estojo postal, transmitindo em sua linguagem: "O quê? Nada! Nem flores nem mensagens? O cofre está cheio de uma tristeza que não consigo apreender. Estou, por minha vez, ferida pelo vazio. O que fiz? … Eu, que no retorno dele pretendia a alegria, sou acusada pela indiferença planejada que eu testemunhava. — Esse canalha! — Ele roubou nosso amor!" Nada mais! Nem passos! Nem palavra! Como um relâmpago, um silêncio mortal acabava de fulminar Damien nessa ausência de espírito com ares de última viagem.
— Você está bem pálido, Damien! Está tudo certo? " inquietava-se o antigo proprietário que, vendo o sonhador responder afirmativamente, prosseguia ainda mais na enumeração de seus projetos de reforma.
Assentindo com a cabeça, mecanicamente e de tempos em tempos, para fazer crer que estava atento, Damien voltava aos seus pensamentos. "Nielle, você me mencionava, por esses gestos, o prazer de receber aquele buquê que, a esta altura, certamente está murcho; ou procura me maravilhar de piedade? …"
Antes que desfalecesse e que uma reação imprevista influenciasse aquela percepção normal que se esforçava por dar ao tipo incansável, Damien fez suas saudações ao homem. Aquele velho palhaço frustrado, que, aliás, só tinha interesse em manter bom contato com o artista que ainda conseguia texturizar a morosidade da rua com seus comportamentos originais.
— Fico contente que você tenha sentido saudade da gente, " dizia ele.
— Sim, é isso, senhor Brouillette, da gente… Da gente, " concluía o sonhador, que fechou a porta atrás de si, não sem lançar um último olhar para o teto, deixando Nielle às próprias esperas, quaisquer que fossem.
***
O sonhopata avalia que quase saiu disso. O caixão do mais cruel está para sempre imobilizado num buraco lamacento. Uma terra suja saneando o impuro. Embora subsistam alguns espectros extenuantes e fora de controle, seu termo se esquiva, mas ele deve voltar às suas negruras.
Rememora suas saídas frequentes… até o limiar da porta. Apenas para avistar uma luz. De uma casa à outra, de seu primeiro domicílio rumo ao ateliê, continuava esperando um clarão proveniente de uma única direção. A esquerda! Sempre a olhar para a esquerda. Ali, onde viviam os Brouillette, ali onde mais havia sonhado; ali, onde ainda vivia, assim desejava, Nielle.
Alimentava a eventualidade de entrever sua musa por aquela entrada de pátio, aquele túnel cinzento no prédio, por onde ela obrigatoriamente deveria circular para voltar ou partir a seus afazeres e suas provas pessoais.
Vingativo, o destino intoxicava seus pensamentos, pois jamais a viu surgir e vir em sua direção. Jamais! … Nada! Mesmo naqueles passeios, em que a fortuna quimérica de cruzar com ela transbordava em injúria. Ele só iluminava essas invectivas divagando em histórias abracadabrantes que batizava por números. "Utopia Nielle 2500!" A estranheza desses sonhos residia no afastamento progressivo de todas as probabilidades normais de aquecer seu coração.
Não, jamais nada desde o que poderia ser sua segunda vida na Paz Gloriosa.
Tendo esgotado seu estoque de sonho para o dia, enquanto circulava pelo faubourg e nas proximidades de casa, hesitava entre empreender "Utopia Nielle 2501" ou tirar uma soneca para reabastecer-se de sinopses inconscientes e inéditas. No fim das contas, considerando aquela caminhada já infértil, voltou sobre seus passos. — Estupefação extraordinária. — Exaltado, ouviu a voz de sua musa fora dos meandros de seu imaginário. Passava diante da propriedade dos Brouillette.
A oportunidade se mostrava ideal para surpreender a indiferente em sua ingenuidade. Mas o escrúpulo de surpreendê-la oscilava entre a timidez e o medo. O destino, sempre tão astuto, decidiu por ele. Sem pressentir o sonhador, ela se esquivou para dentro de casa, emitindo uma última frase, um conselho com ressonância de súplica.
— Sobretudo, não digam nada ao Damien!
— Está prometido, Nielle! "
A voz de sua musa, aquela breve imploração, a vendera, e a promessa que se seguiu traía a cena. Induzir o contexto tornava-se uma brincadeira de criança sonhadora.
(— "Nielle, sentada num degrau da escada, teria sido cercada por aqueles adolescentes que se tornavam homens ao sabor das armadilhas da existência. Tratava-se, sim, daqueles mesmos cérebros rachados, Bruce à frente; aquele mesmo grupo que me permitia o consumo de falsos deleites, felizmente cada vez mais raro. Aquele grupúsculo de delinquentes entre os quais, infelizmente para mim…, a fidelidade a uma promessa é primeira virtude, e a traição de um segredo, reprimenda final!")
A infiltração dessas ondas no seio de cada um de seus chakras, longe de embaraçar seu subconsciente, septuplicou de uma só vez sua capacidade de onirismo. Inútil ir dormir para se reabastecer: acabava de ser alimentado por meses. Milhões de "Utopia Nielle"?
Inexpressivos, os músculos de seu rosto pareciam cimentados pela manifestação vocal e pelo alcance das palavras da musa. Só conseguiu entrar em casa graças a reflexos gravados pelo hábito reencontrado de suas raízes iniciais na rua. Por outra sorte, Lysianne já se purificava da cidade durante as férias de verão, desnaturando seus ares de citadina no campo, o que o descarregava de suas responsabilidades. Assim, a filha não testemunharia seu embrutecimento.
O que Nielle dissera estilhaçava em ricochete seus tímpanos quando se sentou ao piano de Lysianne para descarregar-se das emoções impostas pelo acaso. Primeiro amorfo, acabou sucumbindo ao apaziguamento da música, repetindo incansavelmente quase as mesmas notas no teclado. — (Sol, sol, sol, sol sustenido, lá, sol. Meia-pausa. E bis, e "rebis"…). Essa frase musical monopolizava, implacável, o espaço acústico. Como duas paralelas, negras e onomatopeias em balbucio eram cantaroladas num estilo de já ouvidas: "Ba, Ba, Bi, Bo, Bi…"
Esse gaguejar colorido, originário do último instante de vida comum com Mylène, esse dadaísmo às vezes usado como pós-escrito em suas numerosas e inúteis cartas, essas mensagens desviadas, traziam-no de volta à realidade. Aquilo o reanimava como uma bofetada que lembrasse as correções da infância.
Nessa ronda contínua das mesmas teclas, a cada martelada nas cordas ressoavam discordantes perguntas embaraçosas.
— Qual é esse segredo garantido por palavra de honra? … Qual era a ofensa ou o medo que o fizera nascer? … Por que gozei apenas do ponto-final da revelação? …" Ainda e ainda interrogações que jorravam ou espirravam. Relativas aos fatos, quer se assinem no passado de Damien, quer sangrem neste presente do sonhopata, estendido em seu divã com vista privilegiada sobre o vestígio das lembranças desenroladas, ou esmagado ao piano, perlando os marfins de finas lágrimas.
***
Atravessando as horas e os dias, o timbre de voz de sua musa, tendo impregnado sua memória auditiva, prodigalizava-lhe opulentas iluminações. Como bolinhas de gude que uma criança carregasse numa bolsinha, divertia-se em fazê-las rolar umas sobre as outras, à revelia de todos, semelhante a uma distração da realidade.
Repercutindo até o outono, aquelas palavras surpreendidas: "Sobretudo, não digam nada ao Damien!" Pelo sonho e pelo viés de suas manobras, haviam se transformado em: "Sobretudo, não digam nada ao Damien, que eu o amo!" Créditos de afeição que ele jamais teve, aliás, a felicidade de sacar. Tudo aquilo de que pôde usufruir, naquela última estação, consistia numa informação esmagadora e desoladora. Sua musa, por sua vez, dera o fora; ele tinha essa informação de fonte segura. — Como não poderia acreditar em Mia que, na confissão da mudança da irmã, mencionava o fato recente e não a anterioridade aos seus psicodramas…? Duplas divulgações que tiveram o impacto de um salvo-conduto, de um sinal verde para avenidas inexploradas.
O frustrado que era Damien assumia cada vez pior seu ascetismo voluntário e seu onanismo devotado ao fantasma de Nielle, que, por ingratidão percebida, lhe consignava ânsias de vômito. Por ser macho, na falta de ser santo, e com sua libido de sonhador perdendo contenção, o sórdido do normal o seduziu.
Conheceu desses amores adulterados de noites breves demais, dessas carícias suaves e deferentes, dessas mulheres de palavras de amor perecível. Por repugnância a essas infidelidades à musa e por decepção, abatido, acabou enredando a si mesmo numa relação que já antecipava exasperante. Aprofundou a tal ligação, corpo e alma perdidos…
Mais alta que ele, menos que Nielle. Estudos interrompidos desde a adolescência. Ex-membro de uma gangue de suspeitos motociclistas e dançarina a cinco ou vinte dólares, conforme a música… Uma vida difícil e amarga, balizada por provações desconcertantes e cruéis; indiscernível graças à sua força de caráter. Mas, em aparência, em suma, "Sex and drugs, and rock’n’roll… and bad money!" Isso era Bichoune.
Nada os atraíra verdadeiramente um ao outro; nada os retinha. Exceto que, sexualmente, os dois se entendiam às maravilhas. Cumprindo sem contrariedade a seguinte prescrição: duas a três vezes por dia, todos os dias. Renovável, se necessário.
Quais eram os verdadeiros sentimentos de Bichoune por Damien? … Ele estava pouco se lixando. Os seus por ela situavam-se logo abaixo do umbigo.
Ela morava perto, numa rua transversal à Paz Gloriosa. E, para ir à casa dela, Damien devia se inclinar a passar diante daquele fortim de quadros enevoados onde se havia consumido. Aquela casa onde Mia simbolizava agora uma presença desvanecida, a estada abreviada de Nielle. Tristemente, a ambivalência, essa amiga próxima da dúvida, enviesava suas emoções quando se engajava diante do imóvel.
Reduzindo ou acelerando o passo conforme a sensibilidade do dia, o sorriso colado de uma fruição desabusada, esperava por um lado demonstrar indiferença a Nielle por intermédio da irmã dela e, de maneira recalcada, irritava-se com um desejo insensato. Um convite que pudesse ser formulado de uma das janelas do terceiro andar.
Hipocrisia sem vergonha. Imitava a felicidade, na intenção de provocar o ciúme de Nielle graças às fofocas. Fingiu até amar com sinceridade a mulher corpulenta. — Seus instantes de franqueza se rarefaziam, salvo com Lysianne. — Quando não encontrava palavras para explicar a relação demasiado dinâmica com a hiperativa. Quando as comparações se animavam com facilidade; jamais evitava encerrar a troca repetindo à filha que ainda amava, e sempre amaria, aquela antiga vizinha de olhos azuis. Aquela Nielle que o rejeitara com o reverso da alma…!
***
Como a paleta suja e desfalcada de um pintor, do panachê das cores vivas do outono, restavam apenas a monotonia dos cinzas enfadonhos. Ressuscitando a vivacidade das primeiras cores num sobressalto de quermesse, destacava-se o Halloween e seus pequenos fantasmas. Os zumbis de olhos cintilantes de energia, as bruxas inofensivas mas de sorrisos irresistíveis, os piratas de espadas de papelão e as réplicas ingênuas e caricaturais dos heróis em voga; toda essa revoada de espectros de todos os tipos apresentava suas sacolas já cheias demais, no desejo de vê-las transbordar. Como se, em cada uma dessas ocasiões, para esses jovens pedintes se tratasse de submeter-se ao exame de um curso de imersão em capitalismo juvenil.
Naquele dia, havia competição amistosa entre Bichoune e o sonhador. Cada um em sua casa contabilizaria o número dessas crianças eufóricas pedindo guloseimas ou moedas para o UNICEF. O vencido ou a perdedora dormiria na casa do outro. — Alternando com Lysianne, que preferia dar a receber, Damien trocava balas de melaço por provocações ou parlendas; sem, contudo, insistir diante das crianças intimidadas demais por aquele homem da idade delas…
De todos esses mendigos de ocasião, o mais espantoso em originalidade foi sem dúvida o destino fantasiado de má sorte.
— Bu! Uu! … É Halloween! Você quer me dar doces? " dizia uma jovem fada Carabosse de uns dez anos, trazendo nos braços uma abóbora de plástico.
— Sinto muito! Só me restam balas de menta, " respondia Damien, confuso por ser um pouco pego desprevenido.
— Balas de menta? Esquece! Eu só pego doces de verdade. De qualquer forma, já voltei três vezes para casa para esvaziar minha abóbora… Diga, você gosta mesmo tanto assim de menta? " perguntava ela, continuando seu caminho para completar sua preciosa mendicância, sem se interessar por uma resposta. Ela mal dera dois passos quando virou a cabeça para o sonhador que a observava saltitar. "Diga, senhor, … é você que sai com minha prima Bichoune, … é você o namorado dela? "
— Sim, sou eu. — E, quanto à sua pergunta… Sim, adoro menta! " ("A amante", divertia-se ele a pensar.)
— Ainda bem, se você gosta muito dela, tchau! " exclamava ela, apressada em recuperar aqueles poucos segundos infrutíferos.
Ele não respondeu às saudações da criança. Não podia. Pois acabara de atravessar a calçada em frente à sua morada… uma verdadeira aparição.
Sem máscara nem maquiagem, nem fantasia de fada, sua musa. Nielle, que caminhava de cabeça baixa, triste como uma criança procurando uma guloseima perdida. Ao mesmo tempo confusa e concentrada em si mesma, parecia meditar por sua vez. Talvez sobre um pedaço de frase percebido por simples coincidência. Uma ordinária, mas maldita coincidência.
Mudo de estupefação, olhava-a tolamente, afastando-se, dirigindo-se para aquele túnel cinzento da casa dos Brouillette, como uma menininha azarada resmungando contra o destino que estragava uma de suas raras visitas.
O sonhopata também se enfurece. "Maldita! Maldita! Maldita! … Três vezes maldita!" grita ele, golpeando violentamente seu divã com os dois punhos cerrados a ponto de cravar as unhas no côncavo das mãos. Sabe que surgirá uma lembrança parecida com esta. Maravilhosa, na abundância recuperadora de seus sonhos; raríssima e prejudicial aos sentimentos dos dois seres nos fatos, por sua inconsequência.