NIELLE
ROMANCE
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CAPÍTULO XIII

Sua testa se franze sob o questionamento. Pensamentos afiados como lâminas de barbear lhe laceram a razão. Como cardos de energias negativas que se entrelaçassem e se acumulassem em seu cérebro num verdadeiro magma. O esgotamento, sublinhando como um aviso as duas magras horas de labor psíquico que ainda lhe restam para se desembaraçar, comprime seu impulso inicial. Último esforço, fraco sobressalto.

Com um gesto cego, autoriza o destino a quebrar a quietude noturna, pegando um disco ao acaso. Seu único cuidado consiste em pousar a agulha no lado A. As primeiras notas…, desinteressantes! Só depois de bater no peito com um golpe seco, para convencer-se a acabar com aquilo, reconhece os ares feios do velho jazz banal do início dessa cura selvagem. Por fraqueza, deita-se outra vez em seu veículo de viagem, o velho divã, a lembrança de família mais que centenária. Sob esses auspícios, tenta fazer subir a cotação de suas ações mnemotécnicas.

Desses poucos dias no campo, leva em conta apenas um único flashback; deles extrai apenas o ajuste que aquele período lhe concedera.

Mesmo que seu sangue continuasse sujo de drogas apesar da curta abstinência, o ar não viciado e o retorno ao ambiente de sua infância o haviam revigorado. Essa impressão de uma saúde nova, ele esperava que Nielle pudesse notá-la, mesmo à distância.

Mais do que sua forma, suas intenções se apresentavam novas. Já ao pôr os pés em casa, murmurou suavemente, erguendo a cabeça por orgulho, uma saudação à sua solidão com ares de desafio.

— Bom dia, solidão, então estamos fazendo mimetismo? … Estamos nos escondendo no silêncio? Pois bem! Você terá de se integrar discretamente às colcheias ou fusas, às claves de sol num volume reduzido, pois ouvirei meus discos na intensidade da “música ambiente” dos supermercados. Já não está em questão poluir a alma de Nielle com minhas frustrações. A música vestirá roupas de ladainha, e meu eremitério urbano se acomodará a isso.

E juro ao meu querido imaginário: acabou a vigília intensiva pelas janelas! "

Perplexidade súbita, ele freava suas promessas, que, no entanto, não queria lançar ao ar…

— Mas que diabos vou fazer com todo o meu tempo! Sinto-me subitamente desorientado! Prosseguir minhas confidências ao diário me levaria implacavelmente a falar-lhe da minha vizinha. — Terminar minha história em quadrinhos? … Eu me lembraria demais das minhas trapalhadas e da minha impaciência. — Desobstruir as entradas cobertas de neve e duplicar-me num Dom Quixote, num apelo mascarado? … Mesmo que fosse apenas para me mexer, eu correria o risco de recair na tempestade.

Todas essas ocupações vivas demais, essas distrações, me lembrariam minha musa incansavelmente, a cada palavra, a cada traço ou a cada pazada! "

Lentamente, virou as palmas das mãos para cima, como se pedisse ao céu que nelas vasculhasse o futuro nas linhas. Percepção sutil: só viu ali o símbolo de sua habilidade manual. Relançando o apelo, imaginou o ser supremo executando esse mesmo gesto antes de sua gênese. Extrapolando sobre essa fenomenal fantasia de sua imaginação, pareceu-lhe que o limite criativo da potência divina residia em sua apoteose. Eva, a primeira mulher.

Exumando dessa visão arcaica o prazer gozoso que, talvez, tenha feito Deus estremecer ao concluir sua obra, e a felicidade que ele, Damien, devia reencontrar; extraiu disso uma simbiose inspiradora. A criação de uma segunda Lilith. Uma tentação à qual sucumbiria conscientemente. Outra mulher para distraí-lo de sua tormenta, seu amor por Nielle. Por incidências, todas as suas cobiças chegaram a um único outro lirismo…, já visto…, Marilyn.

No entanto, reproduzir em três dimensões o rosto harmonioso da atriz geminiana seria apenas uma repetição. — No passado, outra tentativa havia fracassado. Seus numerosos esforços empregados então para conseguir a modelagem tinham se revelado infrutíferos. Como por um concurso de circunstâncias, seus primeiros volumes saltavam da matéria quando Nielle chegara à rua. As belezas respectivas delas, que se enfrentavam com apatia na alma do artista, enfraqueciam sua concentração e o desviavam de seus conhecimentos técnicos em escultura.

Damien atribuiu, portanto, uma tarefa a esse agradável labor que se impunha: a de subjugar sua fascinação de esteta por Nielle.

Nos minutos seguintes, retirou do velho galpão anexo à casa, com os braços carregados, um pesado pacote de “plasticine” fria, numa temperatura beirando o congelamento.

Ao entrar na passarela que ligava, no nível do segundo andar, aquele depósito decrépito à galeria, foi encarado por três desconhecidos que usavam a escada que os levava ao terceiro. Um deles, um homem bastante alto, dirigia-se aos outros em inglês, escondendo mal um forte sotaque português. Ele abriu a porta para o casal que o acompanhava. — Damien não ousou se questionar, com medo de concluir que Nielle tivesse se mudado.

O material só se tornou maleável depois de várias horas. Mas, enquanto aquela massa à espera recuperava a temperatura ideal para ser manipulada, o sonhador consultava as biografias da estrela que possuía. De suas numerosas fontes iconográficas, exumou a imagem de uma Marilyn mais perturbada do que amadurecida por suas decepções amorosas. A foto de uma mulher esmagada pela impossibilidade de uma ligação franca, normal e visível a todos…

Nos dias seguintes, Damien teve de redobrar esforços, pois mal conseguia esquecer os numerosos deslocamentos lá em cima. Apostando, ainda assim, na obra, era obrigado a constatar que as distrações choviam no domínio de sua bela. Aliás, Carlos e Lou, que ainda se entendiam bem, juntavam-se regularmente ao grupo renovado.

Reconhecia com facilidade os passos de Mia, mas procurava em vão fazer abstração dos de Nielle. Mesmo na concentração do trabalho, era capaz de codificar todos os personagens, os antigos como os novos. Exceto um, que se inserira naquela percussão pouco ortodoxa. — Durante sua ausência. — Com a impressão de ter percebido antes aqueles golpes de salto, sem procurar ligar seus ruídos a alguém, chamou a imagem alojada sob aqueles passos de “Abstenção”.

Cada vez que os ouvia, para evitar se mortificar com perguntas, repetia a si mesmo, para se encorajar, que o busto começara bem, sempre com a mesma entonação, como se fosse gravada.

***

Ao rememorar aquele penoso mês de janeiro; a chegada do reforço dos mercenários, esse novo ativo de jogadores, o sonhopata sobressalta-se. Não ignora o afundamento irreversível de então naquele abismo pútrido de sentimentos desalinhados pela incompreensão das reações estrangeiras. O medo do desconhecido. O mal o roçara; iria feri-lo. A humilhação total aguardava nos bastidores. A banalidade em música lhe parece ainda mais insossa. O hábito? … A rotina? … Já!?

Suas mãos amassavam vivamente a matéria, modelando cada vez melhor. Percebia uma nítida melhora de seu julgamento no jogo de transposição das linhas, do modelo fotográfico ao modelado. Tomando gosto por essa forma de expressão, submetia-se até à ambição de produzir, de memória, um baixo-relevo do perfil de Nielle.

Ainda mergulhava no delírio dessa elucubração quando uma chamada telefônica surpreendente o retirou dela.

— Damien! Aqui é Lou Jobim. Se você estiver disponível agora…; eu teria um pequeno favor para lhe pedir.

— Diga! O que é? " respondeu ele, intrigado e atento, embora limpasse no receptor as marcas oleosas da plasticine.

— É o seguinte…, comprei um grama de haxixe do Bruce, mas ele não tem tempo de entregar aqui no Gula Lupus. Você só teria de passar na casa dele, pegar o produto e trazer aqui!

— Bom! Está bem! Eu vou! … Até daqui a pouco! "

Vendo nisso apenas a possibilidade de encontrar Nielle por acaso, Damien não meditou, nem mesmo em silêncio, sobre o pedido e deixou de lado seu exutório pretensioso.

Ao mesmo tempo nonchalante e desconfiado, uma certa cólera o animava. Contudo, o único favor que lhe tinham pedido em vários meses comportava riscos. Mal teve tempo de saber por Bruce que havia urgência em pôr o placebo nas mãos de Lou, e Damien já tomava a direção do restaurante. O trajeto foi feito a pé. Dois quilômetros exatos. Mil penas a percorrer no espírito do sonhador.

— Eu quero lhes conceder a paz, mas não abusem de seus projetos malsãos; caso contrário, ignoro de que profundezas jorrariam minhas reações. — Maldito! … — Esse imprevisto não deve me cravar na tara da amargura, e menos ainda sobrecarregar, multiplicar a desordem, o marasmo na minha cabeça. — Mas! … Talvez queiram me armar uma cilada? Fazer-me ser preso, encarcerado? — Não, Damien! Chega dessas maledicências interiores, desses pensamentos subsidiários. Lou jamais arriscaria envolver Bruce Brouillette, o filho do proprietário, num plano tão maquiavélico. "

Já metade do caminho fora percorrida através dos labirintos da cidade e de seu sistema nervoso… tenso. Sua caminhada avançava, e sua imaginação descarrilava. Estimulada por uma luz fria; a dos postes e de suas sombras semelhantes a um cemitério de monumentos de pedra branca.

— Se Lou me provocar, como estarei no território dele, sairei pelo lado do pátio. Não tenho a coragem nem a determinação de um Guilherme, o Conquistador. Não, obrigado, nada de batalha de Hastings para mim! — Se Nielle fosse dotada de poderes telepáticos, sentiria a sinceridade do meu amor e compreenderia que é lógico que eu tema ela e seu regimento. E dane-se! Seus valentes cavaleiros, que se fodam todos! "

Erguendo o braço direito, apresentou ao Altíssimo o dedo médio para suplicar-lhe que transmitisse sua mensagem a quem de direito. Ele, frouxo, não tendo a ousadia.

— Bom, aqui está o restaurante! … Só o tempo de vasculhar os bolsos para descobrir neles, espero, os restos de um sorriso de canto. "

Sua pobreza aguda o impedia de frequentar restaurantes; as maneiras agradáveis e corretas lhe eram um tanto estranhas. A timidez compensando a ignorância dos bons usos, esperou com sabedoria à entrada que lhe indicassem um lugar.

Enquanto impunha suas recomendações culinárias a um assistente, Lou, com um gesto significativo, exigiu alguns minutos de paciência do entregador de sonhos em cubo.

Não tendo dinheiro nem para pagar um café, Damien ocupou o tempo perdido irritando as papilas gustativas de desejo ao ler o cardápio; podendo usar apenas o unguento dos preços ao fim das linhas para tratar a coceira lingual.

— Oi, Damien! E… você viu o Bruce? …

— Sim! " Assentimento simples, sublinhado por uma operação de subtração imperceptível.

Lou, tornado possuidor do quadrado mágico, contentou-se com um sorriso de bacharel recebendo um prêmio de excelência para agradecer a Damien. Preparava-se imediatamente para reconduzir o sonhador.

— Bom dia, meu ex-vizinho! Como vai a vida? … O que há de novo? " Assim se inseria Rachelle, antiga inquilina dos Brouillette, amiga dos gatos e coproprietária do restaurante.

Por orgulho ou por mania? Lou, que nunca depreciara o prazer de ser o centro das atenções, tramou calar o artista tagarelando primeiro.

— Ah, ele ainda mora no segundo andar… Sempre entre Nielle e Bruce…" O cozinheiro se interrompeu judiciosamente por alguns segundos, apenas o tempo de deixar as hipóteses macerarem numa breve pausa, antes mesmo que Damien tivesse a possibilidade de falar. "Pensando bem, artista! Não lhe contei a última… Imagine que Mia, irmã de Nielle, vai se casar em breve com um estrangeiro. Imagine que ele vive no Canadá há apenas seis semanas.

— Qual é o país de origem dele? " avançou Rachelle, seduzida pelo exotismo da união.

— Ele é português. Parece que os pais dele são gente bem de vida. De qualquer maneira, minha opinião já está formada. Dá tudo no mesmo! … Muitos imigrantes usam esse meio legal para obter a cidadania.

Vejam se Mia não passa por um divórcio assim que estiver com a aliança no dedo. Não sou contra a imigração, mas é preciso desconfiar! "

Enquanto Rachelle tentava harmonizar a posição sociopolítica de Lou sobre a imigração, o sonhador, por sua vez, mordia os lábios para evitar lançar em voz alta a palavra “xenófobo!”

Compreendendo que sua falação podia ter diminuído a estima que a patroa tinha por ele, Lou se esquivou mencionando que havia folheado recentemente uma revista de luxo. Acrescentou, insistindo, que nela notara fotos soberbas dos indígenas da Papua, em maquiagem de guerra. Depois, pediu a Damien que fosse agradecer a Bruce, escoltando seu passador enquanto o apressava.

Não mais rico para o retorno, pois não exigira nenhuma porcentagem pelo transporte do precioso inútil, o sonhador partia novamente rumo à sua penúria rotineira. Nem os semáforos vermelhos, nem aqueles táxis controlados (?) por personalidades de pilotos de Fórmula 1 o distraíam daquelas fofocas narradas pelo cronista de fogões do Gula Lupus.

— Maldito seja esse Lou… lobisomem! Com ele, estou permanentemente sob o efeito de que se expressa em segundo grau; usando as palavras, como cozinheiro, … em fogo tampado.

Por que razão maliciosa deixava subentendido que ainda estou entre Nielle e Bruce Brouillette? Por que esse… ainda? … Tornei-me o obstáculo de uma relação voluptuosa, próxima do desvio, entre Nielle e esse adolescente que alimenta seu charme com as mímicas dos cantores de rock?

Nielle, você me obceca! … No entanto, eu tinha jurado fazer abstração de você, deliciosa vizinha. Onde foi parar minha promessa do primeiro dia do ano? "

Sem parar de caminhar, Damien acende um cigarro. Numa atitude solene, tira dele uma primeira tragada como se se tratasse de um cachimbo da paz, pois refutava a ideia de uma retomada da guerra contra os outros ou contra si mesmo. Contudo, deve extrair os estilhaços dessas fofocas que Lou lhe revelava na presença de Rachelle.

— Esse casamento próximo de Mia com o português…, que interesse o levava a me informar disso? Nenhum! — Mas, se eu deixasse meus pensamentos periclitarem, aterrissaria perfidamente nas charnecas do damienntismo burlesco; e roteirizaria um longo cortejo de carpideiras escondidas sob a longa cauda da jovem noiva, Mia. Confinando assim o aspecto de espectros que simbolizariam esperanças impossíveis voando com a cerimônia nupcial.

Ao longe, vindo de altas montanhas, um coro wagneriano clamaria que, querendo conquistar uma, eu teria seduzido a outra. "

Habilmente, Damien lançou a bituca numa fenda de ventilação de um bueiro, lançando ali, ao mesmo tempo, os vestígios daquele sucinto delírio.

— Essa facilidade que tenho para devaneios sobre o amor não cessa de me surpreender. Durante minha concepção, meus pais deviam estar sob o controle de Morfeu! … Ah! — Como me sinto ridículo! A noite, ao que parece, aconselha! Não seria antes o sono? " Assim imaginava deitar-se cedo depois de uma leve colação.

Em seus lençóis, não estava sozinho. Estendida ao lado dele, olhando-o fixamente sem piscar, a insônia o arrastava para múltiplas epopeias.

***

O sonhopata ignora se alcançará as fronteiras de sua libertação. As do prazo agora se apontam em termos de minutos. — Os neurônios aquecidos ao branco, o masoquismo tornado indispensável por seu aporte de adrenalina, ele se volta no divã encharcado de suores viciados para suas últimas lembranças. — Fim do lado A do disco de jazz. Não haverá lado B. Como o lado oculto da lua, preencherá ali as trevas com imagens enterradas que estremecem de alegria por se suicidar ao voltar à superfície.

— Droga! Impossível adormecer. O mais idiota é que conheço a causa. Estou coçando para retomar contato com Nielle! "

Com raiva de si mesmo, o insone se levantava e engolia lentamente um copo de água fresca para se acalmar. Depois, dirigiu-se à sua escultura para nela trabalhar, a fim de se distrair da vertigem que o tomava.

Quanto mais acariciava a forma que se aproximava da fisionomia de Marilyn, mais desejava, de maneira desleal, que os volumes apalpados, retocados, polidos por suas mãos fossem os de sua carcereira. Aquela que o aprisionara no tempo, num único sentimento. Dos mais graves e dos mais desordenados! O amor!

Tarde, ao fim da tarde, despertou entorpecido pela estreiteza desconfortável do divã; desejando apenas uma pausa em seu trabalho noturno, adormecera ali na primeira posição. Desorientado pela hora, permaneceu deitado alguns minutos para planejar preguiçosamente o restante do dia. Depois, lembrou-se de um sonho.

(Nielle se tornara a nova heroína de sua história em quadrinhos. Ele, um velho sábio. “Falávamos em linguagem enigmática. Ela me encantava, a ponto de me fazer crescer asas.”)

Espantado com esse remake poético concedido por seu subconsciente, sem se subtrair a uma análise simbólica, preparou um de seus horríveis cafés instantâneos, que consumiu de um só trago. Esses resíduos de café tendo sobre ele o efeito de um psicotrópico clandestino, sorveu uma segunda xícara daquele veneno horrível. Essa toxicidade surpreendente fez surgir nele a ideia de interessar Nielle pela intriga de uma mensagem hermética.

— Esta noite, minha bela, deslizarei uma confissão louca nessa caixa de madeira fixada à sua porta por alguns parafusos enferrujados. — Não me importa que Carlos tente interceptar o bilhete, pois o aprendiz de feiticeiro que se dissimula em mim se regala em mistificá-lo. Sobretudo se o ladrão que sei que ele é voltar bêbado. "

Enquanto olhava a última gota que esfriava no fundo da xícara, perguntando-se se devia ingeri-la, cogitava sobre a estrutura das palavras para uma justa investida onírica no bastião inimigo.

— Primeiro, ser breve! Segundo, associar Nielle diretamente à personagem. A essa fada no meu sonho, a essa mulher heroica da minha história em quadrinhos. Por fim, assinar de modo que ela seja a única capaz de estabelecer uma relação entre o código esotérico do nome de pluma e eu mesmo. "

De modo a enterrar o ruído de sua caneta marcando o papel e o das censuras gravadas em sua consciência, assinalando-lhe que estava prestes a fraquejar, a ultrapassar sua promessa. Como um rei preguiçoso murmurando a redação de uma missiva oficial a seu escriba um pouco surdo, ditou a si mesmo estas palavras…

(-"A fada N. se esconde. Devo me calar?

Eu te amo. Sphynx! ")

Durante vários minutos, seus olhos não abandonaram a declaração enigmática. Leu-a, releu-a cem vezes. Damien desejava até a sublimação da tinta azul em ouro alquímico ou a metamorfose daquelas palavras num filtro afrodisíaco. Essa veneração incomum de sua criatividade prolongou-se até tarde; até o momento em que as pessoas escolhem entre o telejornal do fim da noite ou uma transa à moda antiga para concluir o dia.

Sem cuidar de ser silencioso, foi depositar o enunciado sibilino naquela caixa de Pandora onde já não restava senão a esperança, aquela caixa de correio gasta por suas esperas. Não foi mais cuidadoso ao fechar a porta para voltar a vagar por seus devaneios; estes, transbordando de seu quarto, impediam-no de ser discreto. — Sonhava em voz alta. — Essas doçuras do espírito, claras mas vivas como o eco das montanhas, terminaram ao ruído do trinco.

Logo em seguida, ela retomava ao seguimento de passos rápidos e cadenciados na escada externa. Damien, ofegante e com o coração batendo de desejo, retomou seu voyeurismo anódino, mas motivado. Apressava-se a se dissimular para admirar à vontade Nielle que voltaria. — Alegria cheia de fel. — Uma silhueta estranha lhe cortava a respiração ao se apoderar da carta, depois descia bruscamente os degraus e desaparecia do pátio de repente. Tão prontamente quanto, a porta da frente dos Brouillette se abriu, fechando-se logo em seguida naquela mesma cadência que acompanhava o insólito do momento numa lógica corroborante.

— Maldito! Quem quer que você seja! " vociferava ele contra o saqueador que acabara de roubar, diante de seus olhos, o bilhete misterioso destinado à sua musa.

Já não se mexia, agarrando até, como se quisesse rasgá-las, as cortinas que o protegiam de todos os olhares. Só afrouxava as mãos cada vez que descrevia para si a aparência do indivíduo hostil a seus desejos.

— Como um andrógino vestido da cabeça aos pés e usando máscara, é impossível distinguir seu sexo. Um gorro enfiado até as orelhas, um cachecol escondendo o resto do rosto. O canalha, ou a canalha, estava embrulhado num grosso casaco escuro e calçava grandes botas de inverno. As de outra pessoa. As do pai Brouillette. As que ele usa quando descongela as varandas, as galerias, as calçadas; as que calça para trabalhar.

Mas por quê, meu Deus? … Quem é inumano o bastante entre os Brouillette para me detestar a ponto de se imiscuir na minha perturbação e me embaralhar ainda mais? "

Soldado ao espanto e à ira de não poder dar um nome ao espantalho do tumulto invernal, fechava-se sobre si mesmo, desprezando a ausência de consideração de seus vizinhos de baixo.

— Essa maldita casa só abriga hipócritas da pior espécie? Vocês, do inferno de baixo, vocês que ouvem minhas mensagens sublimadas pela música e que eu lançava rumo ao meu paraíso. Eu os teria injuriado por minha intrigante loucura até que julgassem útil cercear minha liberdade? … Que o vírus da maldade que os contamina foda todos vocês! "

Enquanto fazia muitos esforços para se relaxar, olhava o assoalho como para inundar de suas ondas o andar de baixo.

— Não tenham medo, sou são de espírito. Estou apaixonado, só isso! Mas vocês devem amansar minha ansiedade em combater as injustiças com que me cobrem como se eu fosse esterco! "

Desviando os olhos para a direção oposta, essa nova interceptação de uma de suas mensagens o leva a reconsiderar sua telepatia, ainda que ineficaz, como a única via concebível para dissipar a névoa emocional que o fazia gemer.

— Nielle, eu te amo. Simplesmente, eu te amo! "

Como aquelas dores insuportáveis que devem ser exteriorizadas pelas entranhas; essa frustração que acabara de sofrer o surpreendeu na garganta, e foi com uma voz de fazer sua gata estremecer e as paredes tremerem que gritou com todas as forças.

— Ungerechtigkeit! "

Clamada como uma blasfêmia, essa palavra alemã que significa “injustiça” repercutira nas maledicências tortas da vizinhança. Suas lágrimas não tardaram a assinalar sua presença ao silêncio, que soluçou à sua maneira, como se quisesse consolar um amigo.

Damien, esmagado sobre as pernas, invejava o conforto da cama, ambicionando suavizar ali a aspereza daquela súbita perseguição.

Pelo meio da noite, saiu de um sono agitado, breve e mal reparador. Passando por cima de sua dose de cafeína, aproximou-se de sua modelagem em curso. Sentia-se mais que isolado naquela casa com aspecto de asilo de alienados; preso como sanduíche entre o pão mofado em que os Brouillette haviam se tornado e a hóstia consagrada que sempre fora sua bela. Assim, recorreu à reprodução inacabada daquela que já não existia, sua musa de serviço, Marilyn, para se confidenciar.

— Você é mesmo a única que me compreende, miss Monroe. Sua vida amorosa também foi quebrada pelo tumulto. Embora, … creio que a minha provavelmente jamais nascerá. Você sabe o que tive de suportar ontem…!? Diga-me, por que usam os fórceps da ignomínia para abortar a menor parcela de aspiração a alcançar sua rival?

De que adianta! Assim como Deus, você não me responde. Temo que Lúcifer seja finalmente o mais forte! Todos esses problemas no mundo, … todo esse mal no meu. "

Resmungando sobre o acontecimento da véspera, o artista traçava, com a ajuda de uma espátula de modelagem, o movimento na cabeleira da Afrodite americana. Teria se permitido a audição de um jazz suave, se a noite não se aproximasse tanto da manhã. Damien se obrigava, portanto, a medir os espaços-tempos entre a quietude obscena da casa e seus estalos. A estes, sofrendo as flutuações do vento, inseriram-se outros mais regulares. Apesar de esforços de concentração cada vez mais difíceis, prosseguia no cinzelamento dos cabelos na “plasticine”.

Aqueles sons distintivos transcreviam uma febrilidade excitante. Primeiro leve e sutil, e numa longa cadência, a rítmica aumentou, concedendo assim a facilidade de identificar sua origem. O desvelamento discreto dos jogos amorosos de Nielle com um parceiro cuja identificação procurada acentuaria a perturbação.

Mais distraído pelo desejo de se encontrar ele mesmo no calor úmido, na untuosidade incomparável daquele vaso divino, naquela alcova noturna, Damien decidiu levar sua escultura para seu quarto de solitário. O sono, por sua vez, veio encontrá-lo enquanto ele tentava em vão analisar os erros de criação que aquele erótico crescendo vocálico de Nielle provocara.

Träumen! … Sonhar! … Dream! …

(-"Sou um animal langoroso que se extenua a se pôr à prova com essas doces queixas. Esse “Hino à alegria” que é Nielle em orgasmo. — Com ardor, tento apagar, riscar secamente esses minutos de agradável devassidão. Depois, Nielle, deslizando sobre suas pernas de curvas perturbadoras em meias de nylon pretas, instrui-se junto a um acadêmico que se empenha em construir o interesse que ela lhe dedica, a ele, gloriosa pessoa, lustrando o pedestal das minhas gafes memoráveis com sátiras eficazes.")