CAPÍTULO XI
O sonhopata se interrompe em sua peripécia. O véu tenebroso da tempestade e a agressividade do vento simulam o crepúsculo de um dia de escatologia. Depois de fechar as venezianas, se omitiu certos detalhes, Beethoven, ele, não se esquece. Simultaneamente a um relâmpago que fulmina um choupo bem perto dali, … entre um allegro e um andante…, o sonhador desencantado reclassifica seus erros e seus golpes de brilho. Os felizes acasos e os aborrecimentos mais imprevisíveis…
Voluntariamente enclausurado em seu alojamento havia dois dias, Damien, prisioneiro das ausências e das existências furtivas de Nielle, andava de um lado para o outro quando a sombra de Carlos filtrou a claridade dos vidros da porta. Sem lhe deixar tempo de bater, convidou a entrar o estudante esmaltado de sorrisos idiotas, como se, num concurso de bebedores, tivesse conseguido destronar o detentor de um recorde Guinness.
— Oi, Damien! Tenho meia garrafa de tinto. Enfim, … hum! Digamos antes que tenho a metade de uma garrafa. Deu vontade de terminar o vinho com você. História de vinho ruim diante de uma boa conversa. Não, quero dizer, de tomar uma boa conversa diante… Conversar entre amigos, enfim! "
Sem dizer palavra, escutando distraidamente as falas redundantes de Carlos sobre a qualidade pedagógica “…de merda! …” do corpo profissional “…merdoso! …” de sua universidade “…merdífica! ”, Damien tirava do armário dois copos desparelhados. Enquanto tomava um cuidado de detetive para verificar a limpeza deles, perguntava-se se o bêbado estava necessitado de consolo ou se vinha, com esperteza, verificar seu equilíbrio moral e apalpar seus aborrecimentos.
Carlos engolia o vinho. Damien bebia-o de ponta de lábios. Nessa atitude, discutiram o efeito da absinta de outrora…, do scotch ou do uísque em meados do século…, e das drogas atuais sobre os grandes artistas. Engolindo seu último gole e desviando-se, graças ao vinho encorpado, de seus propósitos pretensiosos de aparecer um dia como o nec plus ultra dos criadores de histórias em quadrinhos, antecipando até receber o prêmio “Yellow Kid”; o sonhador não pôde deixar de interrogar Carlos. Perguntá-lo sobre as consequências que seu poema não tivera. Contudo, calou a forma do escrito para evitar qualquer suspeita de plágio.
— Você sabe se Nielle recebeu minha última carta? … Estou atormentado, nunca obtenho resposta!
— Não estou sabendo! … Nielle, eu nunca vejo! Vejo sobretudo a irmã dela. É ela que vive lá agora, enfim, eu acho…"
Carlos havia corado, e essa nuance que dava ao seu rosto a mesma cor de seu nariz de conhaque só desapareceu no fim da resposta.
Essa hipocrisia manifesta pareceu ruborizar o rosto espantado de Damien. Nele também, o sangue subia à cabeça. À primeira vista, esse engodo parecia ter sido ditado sob influência do álcool, mas visava ostensivamente semear a dúvida.
— Você acredita mesmo que ela não mora mais lá em cima? … Mas os passos dela e a voz que ouço, …? Diga-me, Carlos, estou ficando louco? …
— Não se preocupe, até Matusalém sabia que todo mundo era louco pra caralho. _ Bom, … preciso ir…! Obrigado pelo tinto, a próxima rodada é minha. "
Um tanto incoerente, o estudante devastado pela imundície da própria mentira retirou-se, cabisbaixo, numa leve embriaguez… (?)
Raivoso e amargurado pela incerteza levantada, Damien perseguia e caçava Carlos em pensamento na escada; chegando mesmo a desejar ouvi-lo despencar e aliviar a queda com blasfêmias ao fim de cada lance.
— Pronto, faltam só quatro degraus antes que ele caia. Três, dois, e agora só um…! — Estou contrariado, ele não tropeça. Está imóvel no patamar. Pobre Carlos, deve estar tentando se recompor para evitar perder o equilíbrio. Não! Ele vira à direita para entrar em casa. Mas a direita! É a direção… do alojamento de Nielle! "
Claramente, duas vozes acima ressoaram como dois cortes de estocada que massacrariam a pele de um tambor, arrogando-se cada uma um de seus tímpanos. A de sua musa deu o primeiro golpe.
— Damien me escreveu? … Eu ouvi!
— Sim, ele diz que te mandou um poema.
— Mas ele nunca pronunciou essa palavra! Falava de cartas, apenas. Como você sabe que se tratava de um poema? …
— Eu… Eu disse por dizer…! Como assim, você ouve lá embaixo? …
— Sim, e daí…?! … Quem é você para se permitir interceptar minha correspondência? " Nielle estava furiosa. Tão exasperada que suas palavras, parecendo agarrar-se ao pescoço de Carlos, só poderiam se afrouxar no momento em que ele confessasse sua vilania.
Descoberto e impotente, ele proclamou sua inocência revelando, indiferente, uma tramoia da qual não era o autor. Delatava.
— …É o Lou! … Foi ele que me obrigou. Ele me impôs agir assim. Eu juro!
— Não quero que isso se repita. Está claro? … Sejam cartas de Damien ou de qualquer outra pessoa! … Entendeu? … Quanto ao Lou, ele não perde por esperar. No momento certo, vou interrogá-lo para saber se você está dizendo a verdade! "
Se o conhecimento desse fato havia embaralhado de estupor a audição de Damien, essa revelação subjacente de que Nielle também recolhia fragmentos de sua intimidade congelara seus olhos. Mesmo enriquecido por sua indiscrição, ele não procurou captar o teor do restante da troca perturbadora e desconcertante entre o estudante e sua musa. Esforçava-se para se desfazer daquela amargura que o invadia. A cólera e o desejo de vingança se atropelavam, passavam um por cima do outro.
— Estou sofrendo! " pronunciou ele, sufocando-se no silêncio.
Para evitar chorar, com medo de que ela o ouvisse, consolou-se com esse acaso que lhe permitira elucidar o mistério de seus doces bilhetes naufragados. Essa descoberta da tática biliosa evitara que ele próprio naufragasse rumo à renúncia de sua musa e de suas futuras elegias.
A amplitude dessa felicidade de mau artifício desfaleceu, sustentando-se sob a pressão de uma desconfiança que o atormentava havia pouco. A exposição das alucinações auditivas. Seu desejo teria sido tão poderoso, tão violento, que ele imaginava Nielle caminhando, volteando, rindo, vivendo em seu refúgio e até conversando com outra pessoa…, como com Carlos nos instantes precedentes? Já seria tarde demais? …
A dor de Damien era tão grande, tão estranhamente acre, que ele mal conseguia refrear suas divagações, impedir-se de cuspir sua raiva sobre vizinhos abstratos, mas sugeridos.
— É para agradar ao diabo, acariciá-lo no sentido do pelo da fera, que vocês combinaram um pacto coletivo? … Um pergaminho invisível maculado e contra-assinado por suas trapaças, provando seu apoio incondicional ao mal. O aniquilamento da consciência de vocês e da minha razão. O assassinato voluntário em fogo lento de inferno!
Seres fétidos! … Como posso evitar a paranoia? Estou preso numa ratoeira por vocês, os inquilinos de cima, e por vocês, meus vizinhos de baixo. Todos vocês me demonstram crueldade.
Os Brouillette, … cada vez que pronuncio “Nielle” diante deles, perguntando por um encontro com que ela poderia tê-los honrado; todos me respondem sem exceção, esquivando-se: “Nielle? … Nielle quem? … De quem você está falando, Damien? …” Ora essa! — Faz mais de dois anos que ela lhes paga regularmente o aluguel. O dinheiro talvez não tenha cheiro, mas se apalpa! — Por quem vocês me tomam? … Quais são seus objetivos? … Está bem, um desregramento da minha personalidade triturou minha alma, e não nego que eu me tomava por Kristos! … Talvez vocês não saibam; eu o dispensei…! Excomunguei-o da minha loucura.
Então, de que adianta me fazer sofrer inutilmente? … A crucificação psíquica? … “A quê? …” vocês me diriam! "
Damien, refugiando-se na cama, amortecia o eco dos prantos no travesseiro e entrecortava suas queixas com análises cada vez mais torturantes. Recuperar uma respiração normal? Difícil! Opunham-se a seus esforços pensamentos devoradores de consequências ilógicas.
— Derisório! Eles me degolam como um cordeiro de sacrifício, velando-a com uma proteção que não merecem aplicar. Nenhum perigo a conter, a prevenir, pois nenhuma firmeza, nenhuma coragem me ergue contra suas estripulias. O confronto me assusta; sou um covarde.
Como alcançar meu amor a partir de agora, roçar seu espírito, subjugar sua alma? Escrever-lhe? Mesmo um poema épico sobre meus sentimentos por ela seria vão; a obra arriscaria a interceptação apesar das advertências. — Vê-la? Eles a escondem, enterram-na ao se afundarem eles próprios em sua desprezível astúcia.
Como recuperar essas palavras perdidas e roubadas que salvaguardavam a esperança de retificar minha vida; elas, que eu considerava um tapete vermelho desenrolando-se até minha musa? … Transcender sua perda, sublimar seu massacre, enriquecendo o espectro desses verbos decaídos pela menor nota, pelas vibrações mais significativas. Não me cansar de escrever-lhe… por essa música que lhe imporei. Não me queira mal, sinto tanta dor. “Hard headed woman.”
***
O plexo solar geme; tornado como uma identidade independente. O sonhopata se encolhe sobre seu inseparável divã. Em execução sobre suas sinapses: sua memória, o ponto do teatro de sua vida.
A tempestade é intensa. A chuva se gemina, espirrando no chão, como minúsculas e incontáveis fontes de lágrimas que se engolem. A volubilidade interior se reinstala na antecipação de uma alegria que virá excitar seus neurônios já sobrecarregados. Em seu horizonte desenha-se a silhueta de mensageiros inesperados vindos de longe, como de outro planeta. O mundo hertziano.
Damien havia enriquecido sua discoteca com novidades; ampliando assim seus modos de entrega, sob forma de decibéis, entre discos emprestados de amigos. Já seletivo, Damien se tornaria eclético. Medindo as repercussões de todas as canções sobre os sentimentos de sua musa, avaliava as emoções transmitidas por sua música. Projetava pintar o quadro de seus sonhos de maneira exaustiva. Calculava como um atuário; extrapolava como um futurólogo, persuadido de que, dessas longas horas de escuta, ao menos uma onda atravessaria o coração de Nielle. O discófilo jubilava com suas evocações musicais. Depois, como um disc-jóquei, iniciou a euritmia destinada à graciosa. As reações? Sabia que não as veria, nem as ouviria, nem as arrebataria, mas, por mania, melhor, por cisma, imaginava-as.
Sua consciência e sua integridade se esfarelavam. Subornava sua moral e se desculpava por motivos cândidos e apaziguadores; sabendo que, por esse estratagema, comprometia-se num assédio tortuoso e desleal. Às vezes impávido, batia no peito com três socos; vacilando no desconhecimento do erro, zombava simultaneamente: “Tenho escolha? … Tenho escolha? Tenho uma escolha muito grande? … Assim seja!” Admitindo a repugnância de recorrer a esse carrossel, julgou que aquilo era, fundamentalmente, o mínimo.
Recorreu a todas as formas, a todos os estilos musicais. A ingenuidade do popular e o dinamismo do rock; a alma vaporosa de certos jazz e de numerosos blues; a notoriedade dos clássicos e as verdades, às vezes messiânicas, de grandes cantautores. Em suas projeções, chamava as outras Musas do universo para que lhe sussurrassem palavras ignoradas por sua alma, palavras que lhe dessem a coragem de se debater.
— Nielle, meu amor! Sim, tenho a impertinência de continuar evocando esse sentimento cuja abdução imediata e definitiva você preferiria! Amo você, mas é tarde demais, pois a abertura desta ode multicultural é o seu trovador elétrico, Cat Stevens, seus textos e sua voz que você saboreia e que a desarvorarão. É ele que a inicia. Ouça “Hard headed woman…!”
Naquele dia, sem que a última nota aparecesse na atmosfera, Damien se autorizava uma pausa para apoiar, sublinhar, justificar pelo silêncio o impacto e a veracidade da canção. Uma manhã envelhecia, pois alguns segundos haviam acabado de franzir a décima primeira hora. Enquanto isso, nada para atenuar essa ferida causada por sua exclusão, a não ser os passos de Nielle. Mas a possibilidade de um ardil revogaria a certeza.
— …E se esses passos fossem, de certo modo, apenas uma parada de imitação? A liga dos semeadores da grande dúvida cultivada, manifestando-se e trabalhando para me enganar? Não! … Impossível!
Esses passos se parecem demais com os dela… Meu coração só pode admitir sua presença; harmonizando-se, batendo na velocidade dos deslocamentos dela. Um código ritmado.
Lá, … ela toma o café da manhã e meu pulso se alimenta do despertar dela_ Ela terminou; dirige-se ao quarto para se vestir, maquiar-se, perfumar-se, … ele palpita! — Agora sai de lá, passa pela sala, imobiliza-se bem perto de seu aparelho de som… meu coração já não transmite…! Jamais, antes, ela ouvia música de manhã! "
Damien empoleirou-se sobre o divã, de pé, com os pés juntos, quase nas pontas, para se aproximar da musicalidade ligeiramente filtrada pelo teto. Essa posição, à beira do desequilíbrio, era incômoda. Como com a clarividência de uma vidente prevenindo um acidente, Nielle aumentou o volume do som.
Sem deixar de aguçar o ouvido, ele se sentava de novo, perguntando-se se essa atenção, por mais involuntária que fosse, não lhe indicava diretamente a raiva e o embaraço nos quais ele a havia, egoisticamente, catapultado. No entanto, reconheceu o célebre “Let it be” dos Beatles.
Seus conhecimentos da língua inglesa eram limitados e, mesmo cantarolando desafinado, isso não o impediu de traduzir por modulação, conforme suas capacidades. “É assim mesmo! Deixa acontecer! É assim…!” Essa melodia lhe lembrava a adolescência, mas também uma intrusão que não acontecera e danças loucas e imaginárias com Nielle de fazer as estrelas tremerem. Ele se lembrava do inexistente.
Não ser o disc-jóquei lhe era agradável. Aproveitou esse prazer interessando-se pela faixa seguinte, “Across the Universe”.
Subitamente, seus ouvidos foram irritados por flutuações na intensidade do volume. Nielle se divertia em enfraquecer as estrofes, acentuando o refrão. Essas variações pontuadas o irritaram, mas ele as explicou por uma apreciação singular de Nielle por essa passagem: “Nothing’s gonna change my world”_ (Nada vai mudar meu universo!)_ Essa frase cintilava, discriminava amplamente as outras. Essa segregação sonora inclinou Damien a acreditar que ela lhe dava o troco. Fim da pauta, fim dos compassos. Nielle retirava o disco e selecionava outro.
Amordaçado! Estupefato! A nova escolha de sua bela o deslumbrava como verdadeiro ectoplasma. Contudo, sem saber, ela tentava exorcizá-lo com a assistência de Léo Ferré, o poeta supremo denunciador da injustiça social e da extravagância pérfida: “Com o tempo, tudo se vai… a gente esquece…”
Alguém tocou na casa dela, o que a obrigou a se mover. Seus passos, como um metrônomo, indicavam a cadência do coração de Damien. Ela abriu para Marc, seu amigo e conselheiro…, depois foi diminuir o volume, quase imperceptivelmente.
— Como vai, Marc?
— Muito bem, e você, Nielle, tudo bem? … Está pronta? …
— … já estou indo! " dizia ela, deslocando-se para o quarto a fim de pegar a bolsa.
— Nielle, há um disco tocando, quer que eu desligue o aparelho…?
— Não! Vou deixar a música terminar.
— Por quê?
— …mmm… porque…! " respondeu ela a Marc, com uma voz melosa. Depois, evitou uma ladainha de zombarias acrescentando astuciosamente: "…também corremos o risco de acumular atraso… com o tempo, se não sairmos. "
Claro e nítido para o sonhador. Essa resposta dava forma tangível ao jogo de sua musa. Ela acabava de se comprometer, confessando involuntariamente a intenção determinada de comunicar.
Nielle e Marc partiram. A porta se fechou atrás deles.
Gravado durante uma apresentação em sala, o canto de Ferré, guilhotinando os nódulos do tempo, acolchoou o retorno à solidão de Damien até os aplausos, até os chamados de volta dos aduladores interrompidos pela técnica.
Bruscamente, como rumo ao derretimento de um sonho quando, em seu fim iminente, uma conclusão subconsciente se impõe, Damien analisou os fatos e extrapolou sobre o modus operandi de sua musa. — Paralisada! — Por mais inusitadas e frágeis que fossem suas comunicações interlopes, elas haviam dado frutos.
— Bull’s eye! Atingi minha encantadora mira! Minha teoria da mensagem de plástico transportada nas ondas espalhadas pela caixa acústica; tão tarada e pérfida quanto essa hipótese pudesse ser, cobre-se de eficácia! Jubilo! — Mesmo que Nielle tenha me transmitido que “Nada mudará; que com o tempo tudo se apaga; e que é assim!” Ela me respondeu!
Essa delicada atenção, essa ternura velada, exclui-se necessariamente da piedade? São inconciliáveis? Pouco importa, eu que acreditava que ela não me amava nem um pouco… Que agradável desmentido!
Mas há mal-entendido! Amarrado, ferrado como o ás de espadas, ainda assim sou o rei de copas; pois jamais o tempo banirá seus olhos da minha memória. O amor não se expulsa de uma existência, de um ser, aviltando como por biópsia esse sentimento mirífico. Nenhuma cirurgia, por mais precisa que seja, nenhum bisturi, por mais incisivo que seja, pode podar, amputar sua cicatriz. O gesto reavivaria a ferida sem aliviar o operado, lembrando-lhe, na dor, que o amor se espreguiçará escondido em seu espírito até a morte dos dois.
***
A Quinta sulca a audição do sonhopata. Os graves potentes e arrebatados titilam as membranas dos alto-falantes medíocres. Vibrações incômodas massacram sua única e acessível deleitação.
Apesar da soma de imagens aglutinadas, enclausurada em seu antigo quarto, ele ainda não encontrou o erro; esse espaço-tempo definido que o teria fisgado, empalando sua vida, suprimindo outros apegos. Está inquieto, o fim do prazo temerário se aproxima…
Sua gata ronronava em seus braços enquanto ele vigiava nas janelas; mutuamente, proporcionavam-se segurança e afeto. As paisagens da rua e do quintal dos fundos, ele as desenharia de olhos fechados, tanto as descascava e coligia os detalhes para se distrair em suas esperas.
— Desde essa associação Beatles-Ferré, você vive em mim, lasciva, invadindo-me com uma alegria excepcional e avidamente misteriosa. Já não preciso baixar as pálpebras ou sequer pestanejar para imaginá-la; você está aí, persistente tanto dentro quanto fora do meu sopro. Está mais presente que nunca. Paradoxalmente, porém, deixo meu rosto criar círculos de gordura e suor no vidro, aguardando sua vinda. "
Angustiantes, essas quimeras com que ele alimentava o tempo. Implacavelmente, encorajavam aquela inquietude cáustica que o atormentava. Esta o petrificava quando se via confrontado com os atordoantes manejos de seus vizinhos. Diante deles, de suas mentiras, de suas objurgatórias acabadas com uma moral condenatória, preferia mentir por omissão, enganá-los pelo silêncio e por suas reações que comprimira, recluso em seu abrigo.
— Que delícia seria surpreender Nielle em flagrante e desmascarar Lou, que a camufla. A ele, eu degolaria o orgulho, pouco me importa! Mas a ela, intimidá-la, jamais! Entretanto, os dois sentem um prazer maligno em enganar minha vigilância…
…Quase todas as manhãs, ele transporta, com o braço estendido para o alto, um terno sustentado por um cabide de metal e coberto por um celofane. Como se saísse da lavanderia. Enquanto desce a escada, desloca progressivamente sua carga para trás, mudando assim o ângulo ao longo dos degraus. Toda essa disciplina para esconder os movimentos de Nielle, que se dissimula atrás do mesmo traje sempre bem passado. À noite, no retorno, … estratagema idêntico.
Estupidez! Desde as primeiras neves, o subterfúgio é inviável. Nem é preciso dizer que deixar quatro rastros de passos quando se é humano, portanto bípede, cria um efeito bruto.
Que pensar do efeito “ovo”? … Quem gerou quem? … A galinha? … Essa pergunta é uma casca vazia? — Mia repete o mesmo refrão, sem mudar um iota, para me levar a crer que a irmã dela “…talvez…” tenha realmente deixado o lugar. Nessa condição, o que motiva os jogos de esconde-esconde? As encenações e essas respostas balizando ambivalência e certeza? — Suas tiradas estudadas, roçando a concertação e repletas de desconfiança, inclinam-me a estimar que Nielle vive lá em cima quando não está lá, e que está presente quando, na realidade, respira em outro lugar? Seu objetivo é resolutamente fazer crescer meu desespero, alimentando-o de ambiguidade para aguilhoá-lo rumo ao pânico, a fim de concentrá-lo num magma perigoso? … Para que mais tarde haja uma ab-reação cuja fonte eu não poderia conotar?
Quem pode, com dignidade e franqueza, informar-me sobre Nielle? … Mia? Carlos? Lou? Os Brouillette, vizinhos de baixo? … Alguns deles mentem com uma facilidade tão desconcertante que transcendem a mentira até em seus comportamentos viciosos.
Como se eu estalasse os dedos…, basta pronunciar “Nielle”; desde então, atraio-os para seus sofismas. No instante mesmo em que o prenome do meu amor vibra no ar, um levíssimo sorriso distintivo se esboça preguiçosamente em seus rostos; depois evacuam pelos olhos cintilantes a ironia e o nojo insípido da minha pessoa.
Depois desse estágio, vem meu espanto. Suas bocas (… quem acreditaria que eram bocas…), entreabrem-se completamente; seus lábios se agitam num tique sincrônico. Enfim, pela amplitude de seus pestilentos orifícios, notam-se suas papilas gustativas que, como flores carnívoras, se escancaram para melhor saborear seu ódio e seu despeito. Sua fome do mais fraco. "
***
Karajan e a Orquestra Sinfônica de Berlim encadeiam com o andante con moto. Mesmo que os ventos da tempestade percam sua velocidade; em suas paixões, os músicos são verídicos. A simbólica da morte permanece uma constante na tempestade, na música e na alma do sonhopata. Seu desejo de uma extração consciente desses tumores do passado ganha vontade, por desespero…
Estaria sentado na cozinha? … Estendido no divã? … Deitado na cama? … De pé, diante das janelas? … Imóvel no ateliê? … Após seus numerosos avatares, ele já não trabalhava; sua imaginação apodrecia tentando solucionar a retirada paródica de Nielle.
— A independência que Nielle me demonstra, posso compreendê-la, até compartilhá-la… um pouco; mas ela a cavalga selvagemente. Pisoteia com ela minha vida, tomando-me por morto, e aí se situa minha agonia.
Com todas as minhas forças, alieno a maioria das minhas emoções, em recuo, deixando-as sufocar. Quanto às que lutam, acabam incineradas no fogo da minha paixão. Essa embriaguez amarga, nascida do desperdício de nossos encontros e das infelizes intervenções da fatalidade. "
O sonhopata sofre menos do que sofreu, mais do que deveria. Purga essa sentença severa imposta pelo destino, a condenação às lembranças forçadas nesse presídio que é seu espírito.
A sinfonia termina… ; da tempestade já não se ouvem senão resmungos distantes. O tempo, segundo seu infatigável hábito, continua a escoar-se em percepções diferentes, conforme todas as coisas humanas.
O mais árduo, o mais doloroso, ainda não aparece. O cortejo das últimas “recordâncias”. Instantes suspensos, imagens que ele retirará e desejará reciclar em êxtase na memória-guia.
Abre a janela. Esquece o ar poluído. Para ressecar sua acrimônia, toma uma lufada de umidade e de terna frescura que a tempestade naturalmente subtraiu de seus cumulonimbus. Depois, voltando ao divã, dá várias voltas ao redor dele. Não para se soltar, mas para se autorizar à anquilose, atordoando-se, embrutecendo-se, insensibilizando-se ainda mais. Buscar mais longe que a aberração enquanto nela se instala.