CAPÍTULO III
A rapsódia mnemônica e o palavrório nervoso de sua voz interior adormeceram. A noite está duas horas mais velha. Profundas reflexões, … mutismo abençoado, … eis Morfeu. O dorminhoco se agita. Mesmo que a fuga para o inconsciente seja justa, mas penosa, Damien precisa despertar.
Levantando-se molengamente, de olhos semicerrados, prepara um café e, meio adormecido, contempla sua alma semicerrada. O silêncio é total. Os pensamentos se modulam em verbos. Sobem e descem nas profundezas do seu subconsciente com a intenção definida de ali deixar sua marca. Como se a vibração de uma palavra em suas cordas vocais, em sua garganta apertada, pudesse tranquilizá-lo, ele pronuncia o prenome sagrado.
— Nielle! "_ "Estou ficando louco? Distingo mal o presente do passado.
Já faz três dias que seu buquê suave depositou em meu ser a doçura interessada do germe do amor; desde então eu me perdia em meus silêncios, esperando o retorno dessa presença romântica.
A febrilidade dos últimos retoques. Os últimos preparativos da festa não bastavam para apagar essa impressão feérica deixada por uma breve passagem, uma simples saudação. Mesmo que a soma considerável de trabalho que ainda me restava a cumprir me desse excelentes argumentos para me ausentar de casa e rondar o estúdio, … rondar em torno dela! Eu estava em desvantagem! Para mil gestos, numerosas orientações, frequentes telefonemas aos participantes ou fornecedores, eu só aproveitava um único olhar para o terceiro andar ou para a escada. — Não pude avistá-la. Nenhuma chance! — Organizar esse tipo de evento está longe de ser diversão. Planejá-lo, organizá-lo, é se empanturrar de estresse, suores, discussões intermináveis. Perde-se energia, dinheiro, às vezes amigos. A plebe está pouco se lixando, contanto que se embebede no dia marcado. Paciência! Que a festa comece!
A celebração era, até ali, um vivo sucesso. Tudo corria às maravilhas, sem contratempo. Quase todos os moradores da rua tinham combinado de se fantasiar. Tivemos direito às misturas mais heteróclitas. Essas personalidades efêmeras se expressavam por meio de um burlesco improvisado. Como aquele falso cardeal oferecendo cerveja a um prisioneiro para, em seguida, ser agraciado com um solene chute na bunda; aquela fada rindo até se contorcer com as lisonjas de um dos numerosos cowboys, este acompanhado por uma condessa espanhola um tanto ciumenta, soltando sem constrangimento blasfêmias das mais latinas. Alguns compartilhavam seus trajes já incompletos, outros estavam apenas maquiados, mas todos participavam de coração, com essa generosidade típica dos que passam apertos.
No meio da noite, teríamos até tido direito a um Zorro atlético. Mas, pouco antes de saltar de telhado em telhado para se exibir, tomado pelo pânico, ele desistia em favor de um Zorro substituto, de barriga tão inchada de cerveja que a calça, impossível de fechar, deixava ver o alto das nádegas de alcoólatra. Felizmente, seu cinto não se abriu.
Eu, pela primeira vez, me achava natural, até bonito, no meu traje de bobo da corte. Minha fantasia vermelha e azul me dava a impressão de pertencer a todos e a ninguém ao mesmo tempo. Enquanto vigiava o desenrolar das atividades, eu me divertia como queria. Para todos, a liberdade era senhora, pois a festa havia substituído o cotidiano ofegante.
Meio querubim, meio demônio, eu me esgueirava pela multidão
meio bêbado. Eufórico, brincalhão, a íris perturbada pelo cannabis, eu gracejava com os velhos que aproveitavam seus últimos minutos antes de irem se deitar. Inventava palhaçadas para as crianças, que riam delas apenas para fazer seus pais acreditarem que não estavam pegando no sono. Eu divertia e distraía os dançarinos, os bebedores, os ativos, os passivos. A música estava endiabrada. O momento chegava ao paroxismo.
No bolso, mais que truques; na cabeça, mais que artimanhas: a ilusão do amor estampado. Comprados com desconto de uma velha vendedora do bairro, pequenos corações de papel, pré-colados, que eu distribuía com gentileza e humor, ou que eu aplicava, ao sabor da minha imaginação, em tudo o que se mexia…
— Xeque ao louco! "
Paralisei. Nielle estava diante de mim. Eu teria desejado ser apenas um sopro e me misturar ao dela. Reagir? Esconder-me? … Inútil! Ela já havia cinzelado minha alma em forma de abnegação. E, no entanto, a vida, a verdadeira, nos agarrava pelo coração, a nós dois, e fazia pouco de toda lógica.
Ao nosso redor, tudo desaparecia. A decoração, as bandeirinhas, as fleurdelisées voavam. A multidão, os risos e a música se homogeneizavam enquanto se apagavam. ("Por que não se mexe mais, Vossa Alteza? Eu a aborreci? … Ofendi? … Está surpresa com a exuberância do seu súdito? … Ou vive um amor à primeira vista? … Talvez? … Assim como eu. Sem dúvida!!!
Pronto! Majestade, de seu bobo, um coração em cada uma de suas faces reais, para que eu me pendure ao seu pescoço. Por você, rainha encantadora, reinventarei a paixão. Já me embriago dessa emoção que a congela, … toco-a com a ponta dos dedos…")
"- Nielle! Você vem? … Vamos para outro lugar. "
Desagrado! Seus amigos, esse cortejo que a seguia, cercando-a e protegendo-a, não apreciavam esse estado de hipnose em que estávamos mergulhados. Ciúme? … Suas grosserias eclipsavam aquela luz divina que, por um instante, nos havia soldado um ao outro.
— Nielle! … Você está no mundo da lua ou o quê? "
O encanto estava definitivamente quebrado. Sua comitiva a arrastava. Então a festa me interpelou com um baseado; e nossas sociedades nos aclamavam mais longe, cada um de seu lado, em nossos reinos distintos. A celebração terminava. No dia seguinte, o povo deveria retornar à sua miséria e aos seus furtos forçados.
"Jogo! … Game! … Spiel! …"
Delírio súbito do sonhopata em sua língua materna, na do invasor cultural e em alemão, porque ele se imagina descendente de longínquos ancestrais, senhores e mestres de um suntuoso castelo às margens do Reno.
— Diga-me, Herr Doctor! Quais são os sintomas dessa doença incurável que é o amor?
— Ich glaube! … Entschuldigen Sie! … Caro senhor Damien! … O amor? … Bem, trata-se de uma síndrome universal. Primeiramente, o doente atingido fica paralisado da cabeça aos pés, seu pulso acelera, a realidade desaparece. Mas sobretudo, característica particular, o tempo para num momento preciso!
— Qual?
— Quando o olhar de um viaja voluptuosamente nos olhos do outro e vice-versa! … Então, os subconscientes dessas vítimas se comunicam em detrimento da consciência de cada um, na linguagem soberana da alma, essa mística que é o amor. Finalmente, golpe fatal e irreversível… aparência de idiotice.
Oh! … Mein Herr Damien, o que pensava disso sua esposa?
— Ich weiss nicht! … I don’t know! … Não sei! "
Seu universo o estreita sem estrangulá-lo. A morte o observa, por enquanto, de longe. Ele a adivinha. A senha: "Fugir". A música permanece, as palavras passam. Cat Stevens em fita cassete, pois o disco está gasto pela mesma intenção. A loucura também se representa numa balada.
— Obstinar-me em me destruir, matar-me em fogo lento! Estropiar-me pelas palavras! Mentir para mim mesmo. Brincar com a vida por cansaço. Estou farto! … Farto! Aposto, com o vazio do esquecimento, todas as chances de me salvar. Um estranho torpor aperta sem fim o coração dos seres isolados, o temor de compreender a si mesmo ao se perder na solicitude do silêncio interior. "
***
A autoanálise se intensifica. O café esfriou, nada é consumido, nem mesmo a chuva que se prepara para cair. O vento tenta discretamente se fazer notar. O dia ouviu o chamado de um passarinho franzino.
— Nielle! O amor da minha vida! Como um agradável suplício, do seu terceiro andar, esse castelo dourado, ela reinava sobre meu castelo de If. Mas nada me desviava completamente da minha obsessão por Marilyn, pois eu me drogava a ponto de mumificar minha vida. Acorrentava-me, obstinado, às alucinantes toxinas. Imperturbável, prosseguia minha incrível busca da utopia.
Contudo, o choque mágico da festa e aquele perfume de dias embalsamados perturbavam meus pensamentos. No ateliê, naquele cômodo que me servia de laboratório místico e oratório consagrado à estrela de Hollywood, do verão ao outono, eu ouvia Nielle viver delicadamente. O silêncio, repousando sobre seus ecos e suas frequentes ausências demais, tornara-se a incubadora dos meus devaneios de solitário.
Cada um de seus passos se travestia inevitavelmente em palavra. De suas idas e vindas, eu interpretava frases, … como uma confidência. Cada um de seus deslocamentos era pretexto para uma pausa no meu trabalho, uma história em quadrinhos “humorístico-esotérica”. Um ruído, e eu deixava que a tinta seca se encarregasse de danificar ainda mais pincéis e penas; uma voz, e minha inspiração se quebrava em mil migalhas, abandonando por horas esse projeto maior.
Quando ela estava em outro lugar…, eu me debatia contra os sonhos que sua presença havia semeado. Vencedor, eu me alimentava de seus vazios; vencido, deixava de existir, vagabundeava como um sem-teto da realidade. Nos momentos neutros, eu fumava, procurando recomeçar o combate, pois sua imagem me assaltava em todas as frentes.
— O que significa esse estrondo repentino no assoalho do quarto dela? … Qual é a origem desse barulho? … Eu a julgava ausente! "
Eu, o sonhador impossível, corria sempre superexcitado pelos meandros do meu espírito barroco. O menor som, e eu me extraviava nos suspiros que remoía, projetando as ações e as palavras imaginadas até o centro do universo. Na minha imaginação, nada é impossível. Quanto mais me afasto de toda tangibilidade, mais o absurdo se manifesta e sua frequência se acelera, até me esmigalhar o crânio contra o muro do absoluto. A única importância: uma verossimilhança fulminante, … essa água viva que é Nielle.
— Que barulho é esse agora? … O que ela faz em casa? … Um amante ciumento a espancou? … Terá caído tentando transpor um dos meus sonhos? "
Essas possibilidades ordinárias demais, eu as refutava. Eu roteirizava até o esgotamento das hipóteses plausíveis, a noite inteira! Sem me cansar, sem me esgotar, vasculhando meu mundo abstrato, escavando histórias esquisitas, das mais apagadas às mais impessoais, das mais impessoais às mais íntimas.
Eu invocaria a Mylène a explicação habitual de estar sob a égide da inspiração pura, de não poder me afastar, abandonar esse voo criador. Se eu tivesse de dormir, dormiria no ateliê.
De manhã, o telefone…
— Bom dia, Damien. Aqui… Nielle! " Sua voz estava triste como minha alma que se interrogava, inquieta.
— Ladrões entraram por arrombamento na minha casa, ontem à noite. Você notou alguma coisa anormal? … Esses canalhas roubaram joias de família. Um presente da minha avó. Eu lhes atribuía um grande valor sentimental. Eu… estou… consternada. — Você viu algo incomum? "
Com as mãos crispadas no receptor, eu me fazia censuras imerecidas. Meu senso de culpa transbordava para a improbidade, levando-me a acreditar que, por ubiquidade, eu teria cometido o crime. No entanto, eu sonhava. Deveria ter confessado a ela que me deleitava com seu reflexo? … Mas o que eu poderia responder?
— Nielle, aquele barulho…, ladrões?
— Você ouviu um barulho, … nada mais? … E não fez nada?! "
Dos dois lados, as palavras se desprendiam para evitar aumentar ainda mais a confusão.
— Obrigada…, … tchau…! "
Uma conclusão abreviada, arrematada por um clique doloroso.
Nenhuma dúvida, ela dirigiu suas suspeitas para mim. Inocente! Eu tinha medo de ser acusado… Ai de mim, meu instinto anunciava que a culpa me seria destinada. Arrependimentos inclementes. No entanto, compreendo que o roubo é uma violação da liberdade. A dor, a revolta de uma infração falseia a análise e ceifa a inocência. A paranoia instantânea poupa então, em suas dúvidas sintomáticas, apenas a si mesmo! "
O pensador para, o vento também. A chuva, mal começada, cessa. Só o sol, que desponta, persegue as nuvens como um furioso.
— O prejuízo da desventura dela foi minha perda. Inocentar-me protegendo-a. Superprotegê-la para recuperar essa confiança adquirida de modo tão árduo, mesmo que ela fosse negligenciável antes do roubo… Essa era a única maneira de me limpar.
Ao menor ruído vindo da casa dela, eu me informava de sua presença. Ao menor silêncio, uma violenta inquietação me assaltava a ponto de romper meus nervos. O trabalho me enojava. Eu já não queria senão escutar. Quanto mais eu aguçava o ouvido, mais profundamente Nielle se enraizava no que eu presumia ser minha vida. O protetor invisível que eu me considerava ser era motivado apenas pelo restabelecimento de uma comunicação normal.
A cada chamada, a cada visita, sempre com brevidade, a confirmação de sua presença e o som de sua voz me ofereciam o repouso do guerreiro, a sesta do arauto. Quanto mais os contatos se acumulavam, mais eu me apegava a ela. Candidademente, pouco a pouco, eu começava a trair, em pensamentos libidinosos, Mylène, minha esposa, e minha amante espiritual… Marilyn. "
Da velha mala que o sonhopata arrastou consigo, ele tira um maço de Camel com filtro. Enquanto acende um cigarro, examina o famoso dromedário ocre e amarelo da embalagem. Depois pensa nos camelos que pôde cruzar até então.
— Eu percebia, vindo do terceiro andar, conversas altamente culturais entre Nielle e Jonathan, dito o professor, seu vizinho de patamar, um grande tolo, embora bonito. O antenado era ele; ela era o suspiro do desfalecimento. Ele a entretinha com seus conhecimentos de música clássica e, às vezes, como um encantador de serpentes, tocava para ela belas melodias em sua flauta transversal. Infelizmente, ele a tocava tanto e tão bem que eu imaginava Nielle completamente nua saindo de um cesto de vime e, em meneios lascivos, aproximando-se dele para enlaçá-lo… por encantamento.
Entre a audição de uma obra de um compositor romântico e uma de suas performances em seu instrumento de sopro…, às vezes jorravam de sua garganta sarcasmos a meu respeito. Teria ele o pressentimento de que eu amaria Nielle, daí a utilidade de me ridicularizar?
Eu me via ferido por suas piadas e atingido pelas horríveis pausas implícitas…! O riso, a comédia, sua cumplicidade com o professor me perturbavam, me chocavam; mas não eram obstáculo à minha ligação clandestina e insuspeitável do momento. "
Em sua ótica de salvaguarda, nenhum ruído ambiente e atual o distrai daqueles que jorram de seu passado. Nesta casa que já não é a mesma, sem espanto, ele respira o mesmo ar dos seus trinta anos.
Partir de manhã, voltar apenas à noite, depois retornar às suas noites loucas… ele a vira viver. Ainda hoje, quase a ouve respirar.
— Naquela época, eu me aplicava tão cuidadosamente a aguçar o ouvido que os ruídos da louça se entrechocando ou uma simples música de fundo na casa de Nielle tinham se tornado partes integrantes da minha rotina.
Como uma sobremesa, distintamente dos outros ruídos, eu me empanturrava dos rangidos da cama trêmula da bela, testemunha morna daqueles desejáveis orgasmos. Apesar da inveja que me estripava suavemente, eu saboreava a escuta daqueles instantes de ternura e exaltações sonoras.
Minha audição se desenvolvia, exercitava-se para captar tudo. Das rajadas do outono às nevascas pulverulentas sobre seu inverno, até o sopro de certa primavera, que, eu esperava, me permitiria alcançar os batimentos do coração de Nielle. Privilégio último! "
***
O sol ganhou mesmo a partida. A noite que partiu aplaude fracamente, ao longe, essa nova vitória de Hélio. A luz do dia chama à concretização das lembranças. Outras revelações de segredos…
— Os dias tendo assobiado os meses que a eles se juntaram; foi novamente verão. Já fazia um ano que Nielle se instalara no terceiro e abalara minhas frágeis bases. Eu, tão pouco realista, ziguezagueava cada vez mais em constantes fantasmagorias. Esse sonho vivo, palpitando acima dos meus miragens irrisórios… Que alegria!
A primeira noite quente do ano. A última do mês de maio. Instalado à minha mesa de trabalho, eu esboçava indolentemente novas ideias destinadas à próxima festa do bairro. Distraído pelos poros suados das minhas mãos agarradas ao papel como ventosas, eu ficava desconcertado com meu desejo de reviver os acontecimentos sentimentais do ano anterior.
Nessa época, com a temperatura a dois passos do sufocamento de uma canícula, eu cogitava com as venezianas abertas. Assim, ao repertório urbano dos ruídos de verão somavam-se as cócegas incessantes que minha concentração sofria. Nada afetava meu coração, que se fechava sobre as ausências de Nielle. Eu me surpreendia amando-a ainda mais; e, desses afastamentos… desejava que cada um fosse o mais breve possível.
— Um carro acaba de parar na rua… Batida de porta… O veículo parte de novo… Será ela voltando? "
Eu não verificava se se tratava de Nielle, preferindo vagabundear por diversos cenários para desfolhar uma paleta de desfechos diferentes.
— Passos na escada. Sim, os dela! … Revelações perturbadoras. Seus passos são palavras tristes… Aqui! Não entendo! … Contrariamente a seus hábitos, em vez de se dirigir à cozinha, ela passa diretamente da escada ao quarto. Seus passos mal murmuram, tanto ela parece aflita… Ela se joga sobre a cama, que a acolhe com seus lençóis abertos e consoladores. "
Não! Eu não sonhava, Nielle estava consternada. Chorava. Eu me imaginava bem perto dela, tentando reconfortá-la.
— Eu também sinto dor, pois assumo seu sofrimento. Esses minutos pálidos me torturam e cada uma de suas lágrimas se torna uma gota de ácido em minhas faces quentes de angústia. Estou perto de você…, não se preocupe. Ouça-me sofrer em sua alma. "
Silêncio. — Ela já não chorava, a tormenta enfim terminara, como se minhas ondas acariciantes a tivessem tranquilizado. Que bom! — Ela dormia. Felizmente! — Eu a amo! Paciência!
Os prantos de Nielle se oxidavam ao sabor dos dias que se desfiavam em meus devaneios. Quanto mais o tempo passava, mais a ansiedade me corroía. Ela não saíra de casa naquela semana que se seguiu à noite dos longos soluços. Emitindo apenas ruídos esparsos e leves, seus longos silêncios me inquietavam. Eu não parava quieto. Para meu equilíbrio mental, tentar verificar o bem-estar de Nielle. "Ela está bem?" Aquela decepção que a afetara, aquela dor cuja causa eu ainda ignorava, parecia ter abalado seus hábitos. Sem hesitar, fui tocar a campainha da minha bela e esperei…
— Tomara que ela não pense em suicídio! Não me imagino amando duas mortas! Minha loucura tem limites. Como dedicar minha arte a duas desaparecidas, Marilyn e Nielle! "
A esse pensamento, abriram-me a porta como uma resposta. Nielle estava no alto daquela estreita escada interior. Como uma passagem, com ares de casas trêmulas, os degraus gastos e a fraca luz provocavam constrangimento e temor.
— Bom dia, Damien!
— Bom dia, Nielle! … Posso subir só um minutinho…"
Quanto mais eu avançava em direção a ela, mais tremia sob a pele. Sua longa camisola, de barras largas e horizontais em tons que alternavam entre azul-marinho e branco, provocava minha libido. Essa roupa de dormir envolvia tão bem o corpo daquela mulher que eu podia avaliar o volume dos seios, dos quadris, das nádegas. Enquanto me esforçava para levantar os olhos, com medo de assustar minha interlocutora, eu me dirigia a ela…
— Eu estava preocupado, Nielle. Não ouvia o menor ruído na sua casa… ou quase… Está tudo bem?
— Sim! Não se preocupe comigo. Estou simplesmente gripada e de cama.
— Bom! … Então, pronta recuperação! … Se precisar de um cuidador, me avise! …"
Tranquilizado pelo riso de Nielle, que selava a breve troca, voltei para casa tentando imitar aquele precioso ricto com a intenção definida de acalmar meus sonhos. "
***
Do seu divã, torre de guarda do lugar de sua memória, Damien examina as prateleiras da biblioteca. Na encenação que precedeu o início das escavações de sua névoa, ele havia ali disposto dois objetos, indissociáveis um do outro.
Levantando-se como mecanicamente, sempre o mesmo gesto repetido; um cerimonial, uma missa negra de lembranças e de tristes manias, ele se apodera primeiro de uma foto gasta por seu olhar amargurado. Inegável enfeitiçamento.
Também o diário de suas viagens etéricas, de páginas amarrotadas, manchadas por café e prantos. Encadernado em papelão, preto, algumas folhas ausentes e rasgadas tanto quanto sua alma. Além disso, é incompleto, pois seu autor se comprometera em utopias errantes. Mas ele o segura! … Os gestos, os movimentos são ternos e contidos. Ele sonha com ela.
— No amor, de mão única…, por quê? Qual é a razão dessa aflição, dessa degenerescência dos meus sentimentos? Meu diário me indicará ao menos a fonte de uma explicação? … A via da libertação? "
Prendendo a respiração até o branco, ele ordena aos pulmões que expirem até o nada… ; depois respira novamente. Como uma intenção de viver para trás, o desejo obscuro de se ver nascer morrendo.
Logicamente, denegrindo o acaso e sua irracionalidade, ele se enclausura na cronologia e abre o diário no encadeamento consequente de suas lembranças.
(-"Hoje, cinco de julho. Domingo. Dia de separação…
Cinco horas da manhã. Trabalhei a noite inteira. Mal completo a reforma dos pisos do apartamento familiar. Aproveitando as férias de verão de Lysianne, que se diverte no campo, realizei esses grandes trabalhos. Enfim! … Última tintura, último verniz, última golfada de náusea.
Exausto, deixando pincéis, rolos e tigelas se deteriorarem; parti para encontrar Mylène no ateliê, onde havíamos instalado provisoriamente nossa cama. Tendo brincado a noite inteira com seu amante, selecionado pelo amor entre um casal de amigos, o anjo está relaxado, mas seu espírito vaga em outro lugar.
Que importância? … Nenhuma! … Talvez eu inale o bálsamo da infidelidade da minha esposa, mas Nielle exala da minha consciência. — Sem saber, o casal vencido que nos tornamos dormia junto para uma última troca de sonho. Um último despertar que não foi desagradável. Felizmente!
Antes de sua confissão, sua revelação e minha abjuração, uma última diversão, uma simples distração como desenlace. — Um jogo! — Como uma canção pueril de uma criança aprendendo suas primeiras palavras. Um palavreado engraçado. — "Ba, ba, bi, bo, bi! Eu! Eu!"_ Significando em linguagem clara… "Deposita na minha boca um beijinho e prescreve-me a mesma receita!"… E retorno ao remetente e retorno ao expedidor até o esgotamento sensível dos lábios. Um divertimento mágico e inconsciente, como o desejo de se oferecer a alguém diferente da pessoa beijada.
Duplo estado! Realidade hipócrita! Sou um diabo de homem. Fausto e Mefistófeles. A vítima e o carrasco. Um fogo de inferno num canto de paraíso. Depois desse dia de perturbação, considero-me cruel, por ter faltado com franqueza, lealdade e autenticidade.
— Você fez amor com François, não foi?
— Sim! E daí…!
— Vocês se amam? …
— Sim! Eu o amo, e ele também me ama! Isso pode surpreender você, Damien…, mas é mais do que uma simples atração física. Temos muitos pontos em comum. Quando converso com ele, sinto-me feliz. Você não se comunica, e… você já não é o mesmo.
— O que você diria de viver com ele? … Eu ficaria com o ateliê e ele se instalaria em nossa casa. "
Será fruto do mimetismo obrigatório de vários anos de vida comum? O espanto se impregnara em nossos rostos da mesma maneira, no mesmo momento. Eu teria de lamentar essa decisão? Possível, pois já percebo que minha impulsividade doentia traçou uma nova encruzilhada. Vidas se separam; outras se juntam. O mais incongruente é esse novo caminho em que me engajo e a esperança de que ele me una a Nielle. ")
Mais uma vez, a verdade choca, repreende. Ela fere, assombra e aconselha. Por ora, reler o diário se revela fortuito. O dia, por sua vez, não cessou de crescer, permitindo à vida desvelar dessas paixões noturnas às vezes mortíferas.
O banho refresca, o jato está no máximo. O sonhopata se veste sem modificar a ordem de seus tiques; apesar do diário que o distrai, atrai-o como um ímã.
— Esse mesmo dia…! Que perfeito desastrado! … E essa maldita droga, os prejuízos que me causou, os tormentos que fiz os outros sofrerem sob minha influência. Não pensar mais nisso! … Como eu deveria ter reagido?
Mudar de atitude!? … E se a História sofresse uma retificação. Napoleão Bonaparte sem a mão direita escondida! … Esquerda? — Van Gogh morto nos braços de uma puta, com as duas orelhas no lugar, … nos bolsos? — Marilyn…, uma eurasiana? …"
Damien retoma o caderno preto encadernado em papelão e blasfema tentando reler-se.
— Mas como eu escrevia mal! Terrivelmente! … como uma mosca amputada de suas patas e de seus genes. Coragem e decifra! Trata-se da sua própria merda. "
(-"Domingo, cinco de julho… Bis! …
Meio da tarde. Toda a vizinhança já está informada da separação. Os vizinhos reagem pior do que nós. Pouco importa! Esse dia do Senhor se anunciava calmo demais para eles. Tendo passado a véspera procurando um assunto interessante de fofoca que ainda não se apresentara, a desagregação da nossa união iria saciá-los. Trauma superficial que será incontestavelmente parafraseado!
Mas o cerne do drama reside sobretudo no esquecimento de prognosticar, Mylène e eu, as consequências de uma separação sobre Lysianne, neste momento feliz e despreocupada. Contudo, estando os dados lançados, eu me deixarei conduzir pela sequência dos acontecimentos.
Agora, aqui estou só no estúdio. Mudei para o ateliê tudo o que pude, até as lembranças despedaçadas do meu finado casamento. Esse vaivém, sob o olhar circunspecto e as perguntas mais insidiosas de todos e de cada um. Depois, no meio da noite, terminada toda a agitação, verificando se eu estava, ao menos, sumariamente instalado, pus-me a refletir, constatando meu cansaço e minha aparência bastante abatida. Eu tinha os pés sujos, as sandálias manchadas por uma identificável poluição urbana; os jeans desbotados, gastos até a corda; uma camiseta vulgar, uma regata azul, com a pigmentação matizada pelo suor dos esforços do dia. Eu estava arruinado!
Então minha reflexão tomou outra direção. Examinando como um lobo faminto o teto que me separava de Nielle, eu a imaginava me oferecendo, por piedade, uma noite naquele quarto que tanto me dava vontade.
Depois de consumir o ilegal, essa falsa coragem em cápsula, sem contudo me dar ao trabalho de me limpar, fui tocar a campainha de sua porta. Ela abre. Estou completamente chapado, estou sujo e fedendo.
— Posso subir? "
Sua resposta ainda não me chegou e eu já estou com o olhar lânguido e os pés soldados ao terceiro patamar. Sem hesitação, peço-lhe um café. Eis-me já servido.
Verificando se o ambiente continua favorável à realização das minhas intenções perversas, informo-a do inabitual, dessa súbita ruptura. Concedendo a mim mesmo a vantagem dessa situação, normalmente aflitiva, proclamo-lhe ainda, como bônus, o início da união damienntica de Mylène e seu amante François.
— Dou a eles minha bênção; não, isso não me afeta…! "
Evidentemente, minhas palavras soam falsas, mas a mentira untuosa parece me convir. Contudo, minha consciência me concede: sua beleza é tão grande que, diante dela, os pecados capitais se esforçam por se aprimorar. Quanto mais olho para ela, mais a desejo. Essa liberdade novinha em folha de me aventurar mais longe que a simples audição de seus deslocamentos me incita a elevar às alturas a trapaça e a concupiscência.
— Nielle, … eu… não sei como lhe pedir…? … Pronto! … A sequela que mais me assusta no afastamento da minha esposa…; eu…, é me encontrar sozinho numa cama… hum! … Você entende, tenho medo do choque! …
— E então? …"
Percebendo sua dúvida, faço-me mais meloso e ainda mais falacioso.
— … eu gostaria de dormir com você, apenas me deitar… Não tenha medo! … Não quero fazer amor! (?)… Apenas, … seu corpo em repouso…, como uma consolação!
— Não! Nem pensar! " Essa resposta clara acompanhava a oferta de uma segunda xícara de café. Uma gentileza espantosa, quase deslocada.
— Não! … hum! … Estou cansado, … preciso ir. Obrigado pelo café, Nielle. "
Envergonhado e desarmado, reconhecendo sem confessar a ela o mérito dessa lição, repeti a mim mesmo ao descer a escada, a cada degrau, que o rei dos imbecis pisava ali! ")
À lembrança dessa correção diplomática, apesar de tudo, um riso sincero. Primeira música do dia. Árvores bitonais. Luzes e sombras disputam um território fictício e flutuante ao sabor do itinerário do sol. A cidade mal desperta. Ainda é cedo.
Deitado de novo no divã, ele se refugia em sua loucura como num baú de tesouros transbordando velhas imagens classificadas de maneira ordenada demais.