SEQUESTRO NO PARAÍSO
FICÇÃO
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CAPÍTULO 18 — BREVE RETORNO

Como previsto, todos estavam no vernissage, exceto a própria Flor-Deus, Rosa dos Ventos e sua mulher Seiscentossessentalinguiças, uma fêmea de australopiteco com um verbomotor muito desenvolvido, que Flor-Deus havia criado para ele. Marilyn também não apareceu. Essas ausências não deixaram de inquietar Henri. Por mais que o Lulum se deslocasse… o caminho para encontrar sua meia-lua não era evidente.

O que atormentava profundamente o prefeito de Joujou City era o progresso notável que Rosa dos Ventos havia feito em tão pouco tempo. Todas as etapas de sua psicanálise em uma única, porém longa sessão. O trabalho de Freud e Jung sobre Rosa havia sido tão eficaz que, segundo eles, o paciente lhes dava a impressão de ter se humanizado. Os esforços de Rosa para se recuperar tinham sido recompensados, e de forma admirável, pela chegada junto dele de Seiscentossessentalinguiças. Seria ele sincero? Seria uma armadilha?

Agora que tinha um sexo e uma companheira… o que faria? Sisse, apelido que Rosa lhe dera, feita para ele, era uma obesa de cabelos ruivos, mas de grande inteligência. Um pouco como a costela de Adão, Deus havia fabricado essa companheira a partir de um dos chifres de Rosa, pouco antes de abençoá-lo. Rosa, um unicórnio? Não, sem um dos chifres, agora podia passar despercebido.

Henri informou Tio Maxime, Cascas e Guili-guili sobre a situação dramática que o desconcertava.

— Pois bem, Henri, nós vamos explorar o norte, o sul, o oeste e o leste. Vocês outros, vão em direção aos céus escalonados.

— Não se esqueçam de usar sua maravilhosa e eficaz zirguilha, Tio! tentava dizer, com ar tranquilizado, Henri Toutrec.

Mas ele também pensava: «Rosa e Sisse sequestraram Flor e Marilyn?»

Henri partiu então à procura de Marilyn e de Flor-Deus com essa preocupação crescente.

A cada passo que dava, ele mesmo revivia o sequestro que havia cometido. Imaginava-se na pele de Rosa.

Ele adivinhava como este reagia naquele exato momento.

— Mas para onde ele pode ter ido?… Como ele pode fazer Marilyn passar despercebida? E como pode controlar Flor? Outra boneca vodu? É preciso dizer… como duas cabeças pensam melhor do que uma… certamente, com a ajuda da mulher dele, ele encontrou uma artimanha inacreditável. Como não cair na paranoia? pensava Henri, que também buscava um meio de permanecer fleumático.

Ele nada podia fazer. Sua inquietação estava voltada para o destino que talvez aguardasse Marilyn.

— Na minha ansiedade, eu tinha esquecido onde devia procurar! Os céus!

Então Henri se dirigiu àquela pedra que camuflava o sexto céu e entrou por ali. Em poucos instantes, encontrou-se um nível abaixo. Aquilo lhe pareceu muito estranho, cair do sétimo. Porque, na realidade, ele não caía de muito alto. Apenas dois metros, no máximo.

Só quando olhou para o firmamento do sexto céu é que compreendeu que o efeito era milagroso, pois não havia dois metros entre aquele céu e ele, mas uma imensidão. Ele, que já não era muito alto, como conseguiria sair dali?

Subir de volta ao sétimo céu? Como? E deveria?

Mas ele não estava com a cabeça para se afundar em tristeza por causa do próprio destino. Só pensava na sua meia-lua. Perguntava-se que direção iria tomar no sexto céu. Seu Lulum apareceu e desapareceu imediatamente.

— Onde estou? É realmente o sexto? perguntou a um pensamento que passava por ali.

— Você está no país dos pensamentos perdidos. Oh! Estou vendo um. Não diga nada. Fique calado, eu também vou me calar!

O pensamento, de fato, já não dizia nada, mas continuava a girar em torno de Toutrec, que começava a sentir uma leve tontura. Quando o pensamento perdido se afastou, a conversa recomeçou.

— Pronto! Ele foi embora! Em que ponto estávamos?

— Você me dizia que estávamos no paraíso dos pensamentos perdidos…

— Exatamente! Eles estão todos aqui. Os bons e os maus, os doces e os tortuosos, os geniais e os feios, etc. Os mais perigosos são aqueles que se esquecem com mais facilidade e aqueles dos quais deveríamos nos lembrar. Pensamentos do tipo: Vamos ver onde foi que coloquei minhas chaves? – Ou então… — Mas o que eu devia fazer? — Mas qual é o nome dele? Todas essas coisas de que você não se lembra. Deus é sentimental demais. Você não acha?

— Meu Deus! Flor-Deus! Marilyn! Preciso procurar em outro lugar, concluiu Henri Toutrec, apavorado, e não demorou a cavar, já que não podia subir até o céu. Cavou e soprou, desejando de todo o coração reencontrar sua dulcineia, sua pedra angular, sua Norma Jean. E sobretudo esperava que houvesse um céu mais abaixo e que nenhum pensamento perdido o seguisse.

O nível entre o sexto e o quinto céu não foi mais difícil de perfurar do que o outro solo. Ele nem se deu ao trabalho de olhar antes de se lançar para baixo. Não se machucou mais. E o firmamento daquele céu era tão alto quanto o dos outros dois.

Um outro mundo o esperava. Ainda mais surpreendente do que o anterior. Tratava-se do paraíso das emoções e dos sentimentos.

Henri se via como um fantasma através de imagens e sons. Lembranças poderosas. Emoções sentidas em épocas distintas, por seres diferentes.

Quanto mais distante no tempo, mais doloroso era. Mas também havia suas próprias emoções, que ele cruzou. Como era homem de reprimi-las, evitou encará-las. Teria sido um mundo realmente fascinante para os psicanalistas de Rosa dos Ventos. Chegou até a surgir diante dele um transtorno de apego que o levou a cavar novamente… pois lhe lembrava seu amor por Marilyn. Ele soprava enquanto cavava, sem deixar de esperar reencontrá-la mais abaixo.

Desta vez, ao cair, torceu o pé. Sem levantar a cabeça, sentado, esfregou o tornozelo. Enfurecia-se consigo mesmo ao pensar «como se pode ser idiota a ponto de se machucar sendo uma alma». Enfim, levantou a cabeça para observar o lugar onde havia chegado dessa vez. A flora e a fauna eram idênticas às do sétimo céu. Haveria sentimentos esquecidos flutuando no espaço daquele céu?

Henri só viu um pequeno grupo de indivíduos que conversavam pacificamente entre si.

Ao ver Henri com o tornozelo dolorido, um deles se levantou e se aproximou:

— Você se machucou? perguntou o homem vestido com uma longa toga branca e que se parecia com um rabino.

Em seguida, impôs as mãos sobre o pé machucado sem dizer uma palavra.

Por fim, levantou-se de novo.

— Pronto, você está curado.

— Obrigado, meu pé não dói mais. Mas, quem é você? perguntou Henri, aliviado.

— Cuidado! Abaixe-se! Lá vem uma nova fábula, disse o homem rapidamente, sem demonstrar nervosismo.

A raposa e o ardiloso passou assobiando pelo ar.

— De onde elas vêm? Que provérbio é esse?

— Elas vêm de todos os lados. Talvez até emanem de um passado muito antigo. Nunca foram ditas, pronunciadas. Apenas pensadas, refletidas, inspiradas. Podem ter sido escritas por desconhecidos, por mulheres ou homens sábios, conhecidos ou não. Mas tenha cuidado para não ser atravessado por uma delas, porque ela se tornaria uma obsessão para você. Aí vem outra!

A gatinha e o ratinho passou perto deles, ziguezagueando languidamente.

— Eu me apresento: sou Jesus de Nazaré. Talvez você já tenha ouvido falar de mim?

— Quem não conhece você?

— Oh! Há muita gente, acredite em mim. Eu leio em seus pensamentos. Você se chama Nome de Pluma.

— Chame-me Henri.

— Você é um novo deus?

— Um deus? Eu?!… Por que me pergunta isso?

— Porque aqui… só há deuses. Venha! Vou apresentá-lo aos meus amigos.

Naquele momento, Jesus e Henri Toutrec se encontraram no meio do grupo. Henri ficou estupefato quando Jesus o apresentou a membros pertencentes a épocas diferentes.

— Meus amigos, apresento-lhes Henri! Na verdade, ele diz que não é um deus e, no entanto, está entre nós.

Quando esses misteriosos indivíduos ouviram isso, não puderam deixar de rir. Pois até os profetas riem. Quando a calma voltou, Jesus prosseguiu com as apresentações.

— Henri, permita-me apresentar-lhe, no sentido de um relógio solar, os companheiros com quem eu conversava. Aqui está Buda, o mais sábio do grupo. Thor, o deus nórdico; ele dorme, porque ingere melatonina demais. Maomé, um verdadeiro irmão para mim. O grandalhão à sua frente é o Grande Espírito. A mulher com capacete de soldado é Atena. Ela está aqui para manter a ordem caso a gente não se entenda. Abraão, um dos meus preciosos antepassados. Aquela vestida como uma deusa egípcia é Hátor; sua especialidade é o amor carnal. Ela anda um pouco confusa nos pensamentos. Aliás, nós brincamos com ela dizendo que faz Thot a Thor e através. Esses são os que participam da reflexão. Sem querer me gabar, somos um dos grupos de discussão mais prolíficos. Lá vem uma citação, abaixem-se todos. lançou Jesus.

Todos obedeceram sem dizer uma palavra.

«Toda mensagem só existe dentro de uma função temporal» flutuou acima deles em bloco, deixando cair selos multicoloridos que desapareciam ao tocar o chão…

— Prolíficos?… Mas o que vocês fazem? E de quem são compostos os outros grupos? retomou Henri Toutrec como se nada tivesse acontecido.

— Quantas perguntas de uma só vez! Você não sabe que a simplicidade é o único farol que permite navegar sem perigo? Mas mesmo assim vou tentar responder… Os outros grupos são compostos de deuses diferentes vindos de outros lugares. Mas há aqueles que têm o dom da ubiquidade. Fazem parte de várias mitologias. Podem dormir e pregar ao mesmo tempo. Quanto à sua primeira pergunta, nós apenas discutimos sabedoria. Hoje é um grande dia para nós. Ficamos sabendo que o criador agora é… uma criadora e que ela suprimiu, aniquilou o mal no universo. Você sabe, nós até convidamos e consultamos alguns filósofos que nos dão conferências muito cativantes sobre assuntos oportunos…

— Vocês convidaram Tio Maxime?

— Você conhece Tio Maxime, o guardião do nada?

O espanto tomou esses sábios por um instante, depois Buda não conseguiu evitar um comentário.

— Quer que eu te diga, Jesus? Esse pequeno deus é certamente o mais simples dentre nós e o mais hábil. Veja como ele nos leva ao espanto com seus pensamentos sem sequer pretender se apresentar como um deus.

— Mas eu não sou um deus! Merda!

— Merda!?… Aí está. A prova de que você não é um deus. Mas, então, o que faz aqui?

— Estou perseguindo o diabo que sequestrou minha meia-lua.

Henri não ousou inquietar ainda mais o grupo com o desaparecimento de Deus pela segunda vez.

— Vocês podem me ajudar a encontrar o diabo? perguntou Henri, ao mesmo tempo em que se perguntava há quanto tempo já estava conversando com esses deuses.

Maquinalmente, eles se abaixaram de novo, porque vinham ali fábula e citação em fila indiana.

A pequenina e a coruja gentil, seguida magistralmente por «A alma só responde à invocação sincera, ao amor absoluto.»

— Encontrar o diabo! Você não está falando sério, nós buscamos evitá-lo desde sempre. Mas, se ele se apresentasse a nós, pode ter certeza de que lhe faríamos reprimendas até o fim de sua eternidade…

Henri se sentia mais do que perdido entre esses deuses eruditos, sábios e diferentes uns dos outros. Eles, que em suma transcendiam a maior inocência. Assim, tentando guardar para si seus pensamentos, procurou não ser transparente demais, sincero demais. «Essa confissão me prova que eles não o viram. Agora preciso partir e continuar meu caminho. Se eu passar por aqui de novo, contarei a eles o fundo desta história abracadabrante. Preciso reencontrar Marilyn. É urgente! Preciso cavar até o terceiro céu.»

No momento em que cavava, uma citação que o roçou timidamente o fez refletir sobre sua epopeia… «Não importa o reino, sempre há uma lição a tirar de uma viagem.»

Bem consciente do incômodo que causaria aos deuses filósofos se passasse do quarto ao terceiro céu diante deles, fingiu afastar-se para meditar num lugar isolado durante quarenta dias. Pretexto para cavar e alcançar o «andar» inferior.

Ao chegar ao terceiro céu, acreditou que estivesse nevando. Mas desses flocos suaves desprendia-se um calor delicado. Ele tinha até a impressão de estar sendo observado por eles. Tomado pelo assombro diante dessas coisas, a fim de perceber melhor a constituição e a natureza desses grãos ondulantes, estendeu a mão para apanhar um que havia pousado sobre ele. Apenas um!

Justo no momento em que seus dedos roçavam um deles, uma voz interveio…

— Se você tocar em uma dessas crianças, está frito como um ovo!

— O quê? Como um ovo?… Crianças? Quem está falando?

— Eu, a via guardiã do limbo. O que você faz aqui? Ninguém tem o direito de assustar esses embriões de almas. Alguns estão até prontos para o sétimo céu. Eles se perturbam com facilidade. Fuja depressa antes que sejam afetados pela sua presença. Se você não fizer isso em dois instantes celestes, vou devolvê-lo ao mesmo estado em que eles se encontram. Então, se não quiser recomeçar tudo do zero, siga meu conselho! Você pode partir da mesma forma. Já selei o firmamento. Não é preciso que esses pequenos evacuem o terceiro céu. Vá! Eu fecharei atrás de você.

Arrepiado, Henri não precisou ouvir duas vezes. Nem abriu a boca para perguntar pela passagem do diabo. Havia compreendido a fragilidade daquele lugar. A sensibilidade daqueles seres que esperavam encontrar-se bem no meio de um coito ou, mais infelizmente, dentro de uma proveta. E quem sabe, se demorasse mais, não acabaria engolindo um daqueles anjinhos.

Com as últimas precauções, cavou de novo o solo. Feito isso, lançou-se de «corpo» perdido na atmosfera do segundo céu. Não sem antes receber na cabeça uma porção daquela mesma terra do terceiro céu.

Ao cair, Henri teve a impressão de não ter saído do terceiro céu. Era idêntico. Flocos dançavam por toda parte. A mesma mornidão os caracterizava. Desta vez, não tentou tocar nas coisas. Sabia que se tratava de seres vivos.

— Você não está no seu lugar, aqui só são reencarnados aqueles que acreditam nisso. Não se mova! Espere! Tenho uma comunicação telepática do guardião do limbo, ouviu Henri. Uma voz diferente, mais grave.

Obediente, Henri, que já tinha visto de tudo desde sua morte violenta, acatou pacientemente a ordem. Tudo o que percebeu foi: «Sim… hum… entendo… hum… sim, hum, certo! Hum… Ok!… Certo! Almoçamos juntos qualquer dia desses. Tchau!»

Henri ficou mudo. Enfim, alguém voltava a falar com ele.

— Cale-se! disse ele à voz.

— Por que me pede para me calar? Eu, o guardião deste céu.

— Não quero ferir essas almas.

— Não se preocupe, as almas que devem ser reencarnadas são imunes a certos choques. São mais resistentes do que as almas novas que estão no limbo. Elas estão acostumadas a choques. Já viram de tudo. Ainda assim, como todo mundo, não gostam muito de traumas.

— Fico feliz em ouvir isso.

— Ora! Dá para dizer que você tem toda uma história nas costas! O guardião do terceiro céu acabou de me contar tudo isso. Ele ficou sabendo de coisas ainda mais de cima. Informações que lhe foram comunicadas pela Sociedade Universal dos Deuses e dos Profetas. Que, por sua vez, as souberam por um filósofo que afirma vir do nada. Ou algo assim? Não é ridículo? Porque o nada não existe! Enfim! Esse aí vinha de um pouco mais acima, de um pouco de todos os lugares. Parece até que passou de céu em céu comendo ratatouille ou zirguilha. Enfim, algo desse tipo.

— Talvez ele venha me alcançar? Ele sabe muito bem que Marilyn certamente está em má situação. E o que dizer de Flor?

Henri respirou fundo uma vez, depois outra…

— Paciência! Não posso esperar Tio Maxime por mais tempo.

O Lulum reapareceu e logo desapareceu outra vez.

— Vou encontrar minha Marilyn sozinho. Adeus!

Henri, que começava a ter mais habilidade para cavar buracos entre os níveis dos céus do que para pentear o cabelo, levou apenas alguns instantes para desaparecer e depois surgir no nível inferior.

— Ei, espere!… soltou a voz do segundo céu, que reagia muito lentamente, espantada com a rapidez com que Henri atravessara o solo de seu mundo. Esse sujeito está estressado demais. Eu tinha uma mensagem de um anjo chamado Cascas para lhe transmitir! Bah! Paciência, de todo modo tenho trabalho acumulado para retomar, completou em solilóquio a voz guardiã da reencarnação, fechando tudo e fazendo desaparecer muito rapidamente a brecha.

Ao cair no primeiro céu, Henri se machucou de verdade.

Caiu sobre um «i» e depois sobre um «3». Tropeçou em dois algarismos duplos para em seguida cair de traseiro sobre três novas letras. Já não via senão letras e números, formas, pontos, sinais e linhas. Esses princípios iam e vinham em multidões de linhas horizontais, verticais e diagonais, em todos os ângulos. Em todas as direções! X, Y, Z! X’, Y’, Z’, etc. Esse primeiro céu era dedicado aos relatórios financeiros rasgados, às frases apagadas, às palavras e números riscados, cortados, apagados, esquecidos, omitidos, aos erros de cálculo ou de matemática mental, escrita ou falada, aos discursos e a tudo o que se dizia e se escrevia no universo e que era rejeitado. Às ciências e às artes passadas e atuais, mas negligenciadas.

Henri viu o guardião. Não era apenas uma voz, nem apenas um anjo. O guardião parecia, ao mesmo tempo, com Proust e Einstein, pois usava um bigode com lados diferentes. Um lado Marcel e um lado Albert. Este último convidou educadamente Henri a calcular e a ler com ele tudo o que havia no primeiro céu.

— Fique comigo! chamou o guardião de dupla função. Poderíamos reunir esses vestígios e criar novas hipóteses, novos textos.

— Minha compreensão instintiva das coisas me mostra que Marilyn não está aqui, formulou Henri, que voltava a cavar, soprando o solo.

Como começava a ficar acostumado a cair, saiu-se dessa sem hematomas. Salvo na alma, mas nada demais. Caiu com os dois pés no chão, sobre a artéria principal de Joujou City, que havia sido rebatizada após sua morte como boulevard Adolph Teresa.

Como já não era senão uma alma, ninguém o notou.

Perguntas estranhas e fascinantes giravam em redemoinhos dentro da cabeça de seu antigo eu de ex-PDG.

— Como? O universo e a Terra são apenas o começo do meu mundo? Uma base material? Ou de múltiplas possibilidades? Por que a humanidade nunca soube de nada disso? Marilyn? Meu Deus! Flor! Mas por que procurá-las aqui? Como Rosa as teria trazido até aqui? Vou ter ainda mais dificuldade em encontrá-las aqui do que nos paraísos infinitos. Tio vai vir me reencontrar. Ainda bem que Cascas me deu o dom da compreensão instintiva das coisas. Ufa!

Uma única coisa o consolava do infortúnio e do abismo no qual estava mergulhado. A esperança de encontrá-las sãs e salvas. E, sobretudo, de tomar em seus braços de aura sua bela Norma Jean.

Em Joujou City tudo estava fechado. Os comércios, os restaurantes, os estabelecimentos, tudo. Até as portas da loja de brinquedos e da pet shop estavam fechadas. A temperatura, porém, era muito agradável. O sol lhe parecia mais brilhante do que antes de sua morte. Aquele dia em que o peso considerável de sua estátua arrebentara o piso sobre o qual a erguera, e que havia desabado sobre ele. Apesar dos pássaros migratórios retardatários, que já não podiam mais atingi-lo com seus excrementos, Henri não estava com vontade de rir.

Imaginava Marilyn, enfeitiçada por Rosa dos Ventos, preparando pequenos pratos para um jantar a dois com Seiscentossessentalinguiças.

— Como vou conseguir alcançar o céu? Como poderei encontrar Marilyn? Não posso ir mais para baixo. Mas onde ela está?

Como para aumentar ainda mais a presença de Marilyn, que lhe fazia uma falta terrível, a nostalgia de sua cidade o dominava. Henri decidiu então ir até a rua Curva Fanfarrona para ver o que seus herdeiros haviam feito de sua casa.

Quanto mais se aproximava daquele bairro onde todas as ruas têm nomes de cães, mais gente havia se dirigindo para lá. Reconheceu seus funcionários, o dono da loja de ferragens, a dona do salão de estética. Todos.

Nessa multidão, que se tornava cada vez maior à medida que se aproximava de casa, ouvia comentários que não desagradavam ao seu ego. Entre essas pessoas, ouvia-se frequentemente:

— Foi na casa do maluco que essa coisa aconteceu!
— Fico me perguntando o que o fundador da fábrica tem a ver com tudo isso?…
— O fato é que foi pouco depois da morte dele que todos esses fenômenos começaram a acontecer!

Ele não precisou, como todas aquelas pessoas, esperar para ver o que estava acontecendo em sua casa. Ficou abalado ao perceber que ela já não existia. Não entendia como em tão pouco tempo tinham conseguido planejar e erguer um edifício. Perguntou-se quanto tempo havia se passado desde sua morte. Um dia.

O prédio, em forma de disco voador, tinha como único elemento decorativo duas grandes portas semelhantes às do paraíso. Nada mais! Por uma delas entravam pessoas de ar inquieto; pela segunda, saíam outras, todas sorridentes.

Em cada lado da entrada e da saída estavam, muito eretos, quatro corcundas tão altos quanto anjos de grande porte. Vestiam longas capas de chuva brancas, que desciam até os calcanhares. Henri teria realmente sentido medo deles se ainda estivesse vivo. Então avançou para o interior a fim de verificar o que os habitantes de Joujou City buscavam ali.

— Ei, você! disse a Henri o corcunda mais próximo.
— O quê?… Você está me vendo?
— Claro que estou vendo. Por quem você me toma, por um anjo cego?
— Não estou julgando você. Mas diga-me, se eu lhe dissesse que sou um fantasma e que sou até mesmo o espectro do herói desta cidade, que morava aqui não faz tanto tempo… isso não o assustaria?
— Eu, medo de espectros? Você está se enganando redondamente! E no terceiro olho também, respondeu secamente a Henri o corcunda que queria urinar.

O corcunda voltou-se para Henri e pousou suavemente a mão sobre seu ombro. Com cuidado, como se quisesse lhe fazer uma confissão. Henri ficou surpreso com a calma daquele guarda.

— Os mortos não me dão medo. Eu convivo com eles todos os dias… Devo lhe fazer uma confissão; não sei de onde você vem, mas isto aqui não é um museu, é uma estação. Uma estação muito especial. Uma estação de céus.

— Uma estação de céus?
— Eu não disse que ela era especial? E como você talvez seja um fantasma, se eu fosse você e quisesse assombrar os habitantes desta encantadora cidadezinha, eu não entraria. Porque, depois de subir, talvez já não tenha vontade de voltar.
— Mas para onde se vai ao entrar nesse lugar?
— Mas para o além, senhor! Para o além!

Henri respirava alegria, deslumbramento, exaltação, para grande surpresa do corcunda. Talvez tivesse descoberto um meio de retornar ao sétimo céu, e assim reencontrar Marilyn seria mais fácil. Talvez. Seu Lulum voltava até ele cada vez mais devagar. Ele havia se afastado de Marilyn. Mas naquele momento estava tão emocionado que se lançou ao pescoço do corcunda.

— Ei! Cuidado com minhas asas, senhor!
— Suas asas! Então você é realmente um anjo?

— Não fale tão alto! Não é preciso assustar as pessoas. Sim, sou, e daí?
— Você conhece Cascas de Batata e sua namorada Guili-guili?
— O quê? Você os conhece pessoalmente?
— Claro! Porque venho do paraíso. Posso até lhe dizer que, não faz muito tempo, suas asas deviam estar cobertas de melaço.
— De fato! Mas, o que você está fazendo aqui?
— Não tenho tempo de lhe explicar. Preciso encontrar Flor-Deus e Marilyn Monroe, minha Norma Jean, agora. Não posso dizer mais nada. Essa ideia que Deus teve de autorizar os vivos a visitar os outros mundos sem morrer… bem, essa ideia talvez me permita reencontrar minha meia-lua.
— Se, além de conhecer Cascas de Batata, você também goza das boas graças de Deus, por favor, entre, concluiu o anjo disfarçado de corcunda, apontando a Henri uma espécie de pequena placa no interior. Algo como um mapa onde estavam indicados os céus que os vivos podiam visitar. Havia o primeiro, o quarto até o sétimo. E até mesmo o inferno.

— Certamente será mais fácil assim do que cavar buracos entre os céus. Vejamos o que diz esse mapa… Inferno: andar «H»; sexto céu: andar «C»; quinto céu: andar «D»; sétimo céu: andar «B»; domínio divino: andar «A». Outros andares… inacessíveis.
— Ah! Então é como um elevador, murmurou ele, um tanto sonhador, lendo a folha de rota destinada aos vivos. Então, rapidamente, escolheu o andar «A». Num instante, ele chegou. A porta se abriu. Diante dele, uma pequena placa. Nela, escrito em letras de forma: «Estamos esperando você.»

Ao ler esse aviso, Henri teve a impressão de fraquejar, pois acreditava que Rosa dos Ventos ainda havia se apoderado do além e que o general tinha retomado seus ataques ao paraíso. Imaginava que aquela mensagem lhe era pessoalmente destinada. Mas, sem refletir por mais tempo, também pensou que Deus poderia ter recuperado toda a sua potência e que uma deusa prevenida vale por duas. Muito provavelmente, aquilo não poderia se repetir. Ele se tranquilizou. Inclinou levemente a cabeça e avançou.

Uma espessa névoa no domínio de Deus se dissipou imediatamente. Felizmente, porque ele já conhecia a morte, sabia que aquele efeito visual fazia parte do cenário. A porta do elevador se fechou com um golpe atrás de Henri, sem que ninguém a tivesse tocado.

Ele teve a surpresa de sua vida após a morte. Todo mundo estava ali esperando por ele. Inclusive Tio Máxima havia convidado alguns «fis» do quarto céu. Aqueles mesmos que ainda conversavam entre si, mas em voz baixa.

Mas o que lhe importava era ela, Marilyn em todo o seu esplendor. Ela estava ali, belíssima, exatamente ao lado de Flor, que, para a ocasião, estava acompanhada de uma encantadora asiática.

Henri correu até Marilyn e a apertou com ardor e paixão nos braços; depois, deslizou lentamente as mãos pelos braços dela e, sem romper o contato, deu um passo para trás e olhou-a nos olhos.

— Mas o que aconteceu? Eu estava muito preocupado, perdido, angustiado! Rosa dos Ventos teve uma súbita tomada de consciência e libertou vocês? Ou foi Deus quem o alcançou?
— Nada disso! Eu estava quase terminando de me arrumar para o vernissage quando Flor veio me procurar. Quando me viu neste vestido encantador que estou usando, um vestido que Yves Saint-Laurent desenhou e criou para mim com folhas de eucalipto, ela se inspirou. Então me pediu que a seguisse, para que eu posasse para ela. É incrível, Flor escolheu justamente a mim, Norma Jean, para posar para ela.
— Então, durante todo esse tempo, você estava posando para Deus. Prefiro isso. Eu tinha tanto medo de que Rosa estivesse te torturando ou algo assim.
— Rosa! Ha! Ha!… Ele estava preocupado, impaciente. Mas não para nos ver juntas. Hum! Adivinha onde ele estava. Bem ali atrás de um arbusto! Depois atrás de outro. Depois de outro ainda. Acho que percorreu todos os arbustos do paraíso. Sim, atrás dos arbustos, mas com sua namorada australopiteca!… Eles…

— O quê? E eu, imaginando o pior!
— Você me ama mesmo, não é?
— Não vejo como eu poderia te provar isso ainda mais.

Deus «Flor», que até então nada dissera, deixando aos amantes o prazer de se reencontrarem, compreendeu que Marilyn já não sabia como explicar certas coisas a Henri, como torná-las mais claras. Assim, em toda a majestade de sua energia e da elegância que seu corpo de mulher lhe conferia, pediu a Henri e Marilyn que a seguissem.

— Henri, vou lhe conceder excepcionalmente o privilégio de ver a obra que Norma Jean me inspirou. E isso antes do vernissage que acontecerá depois do seu casamento com Marilyn, animado pelo seu Lulum.
— Casar-me? Estou perfeitamente de acordo. É honra demais a que você me concede.

Os quatro deslocaram-se então entre as obras-primas de Deus, até que finalmente se encontraram diante daquela famosa escultura. Henri não cessava de elogiar.

— É absolutamente magnífico! Genial! Divino! De verdade! Você restituiu à sua Marilyn de granito todo o encanto e toda a elegância que a aureolam. E essa roupa que ela veste, as linhas, as curvas, os relevos… é fenomenal! Mas, ainda assim, você me permite um pequeno comentário? Embora, na verdade, seja antes uma pergunta.
— Faça, Henri!

Você conhece a história de Norma Jean. Sim, esses querubins representam seus filhos. Sim, mesmo que Marilyn não tenha podido ser mãe na Terra… aqui ela é uma. Sim, seus filhos realmente existem. E Norma Jean não é a única nessa condição, acredite em mim.

Novo silêncio.

— Não foi um favor que lhe concedi, porque isso é uma regra. – Na Terra, há a força e a lei. – Aqui, há a força e a vida!

— Mas, como isso é possível? Eu entendo no caso dessas crianças da Terra. Mas nós… fizemos amor há tão pouco tempo. Isso é realmente um milagre. Eu nem sequer estava no parto! O que essas crianças vão pensar de mim? Que eu não as amo?… Onde elas estão agora? despejou Henri, atônito, mas feliz.

Os olhos de Marilyn se encheram de lágrimas de alegria; lia-se o infinito no segredo do seu olhar.

O Lulum arco-íris deles se metamorfoseou em um pequeno sol vivo cercado de todas as cores.

Ela, Norma Jean, aproximou-se tranquilamente de Henri, que abria os braços. Eles se beijaram como todos os novos pais que se amam sabem sentir. Depois desse beijo longo e terno, olharam-se longamente, como se falassem sem dizer uma palavra…

Então Henri olhou para Flor-Deus de modo que ela compreendesse a incapacidade, quase a inutilidade, de ser agradecida por seus benefícios. Isso, tão incomparável era sua alegria em relação a todas as que conhecera até então. Depois, não podendo mais conter-se, rompeu aquele silêncio impossível de reproduzir, de descrever no mundo material.

— Muito bem! Temos um casamento para celebrar! Uma união paradisíaca. Deus, você poderia agora me conceder a graça de ir buscar nossos filhos para que assistam à cerimônia? E não se preocupe com suas obras vivas. Durante o vernissage, vou me divertir com os pequenos. Vou cuidar deles com ternura. Vou vigiá-los. Vou estimá-los tanto quanto Marilyn Norma Jean. Por favor, apresse-se… apresse-se, porque estou ansioso para conhecê-los.

— Não se preocupe, senhor Toutrec. Não demorará. Eles estão logo acima, no nono céu.

— O quê? Um nono céu?

— Isso o surpreende? Há um número infinito deles, multiplicando-se exponencialmente, e eles próprios são eternos, infinitos e exponenciais. Mas quem pensa você que eu sou?… Um simples dia de chuva?

FIM