Vítima do rapto, preocupada, ela se interrogava sobre a cumplicidade de que poderiam acusá-la. Seria expulsa do paraíso? Mandariam-na para o inferno, para definhar eternamente ao lado de seu raptor? Essas questões levavam Marilyn a tirar uma conclusão limitada: « A angústia existe no céu. »
Assim que passaram pelas portas, Henri não acreditou no que via, seu terceiro olho incluído, embora este se tornasse cada vez menos visível. Revelava-se diante dele uma paisagem fabulosa. Como se todas as paisagens de todos os planetas habitáveis do universo estivessem reunidas ali. Sua compreensão instintiva das coisas lhe permitia até mesmo isso.
— Inimaginável! Melhor do que Joujou City! Melhor do que meus projetos de reino dos brinquedos. A gente imaginaria estar dentro de um filme supra-ultra-alta definição de seis mil K, como holografias inteligentes, confidenciava ele à sua vítima, que lhe dava atenção motivada pelo desejo de fugir. Uma busca de liberdade puxa outra.
Como uma criança percebendo rostos pela primeira vez, Toutrec sorria enquanto observava o panorama. Gorjeava de maneira boba.
Faunas e floras de toda parte. E mais ainda! Nessa vista feérica (o qualificativo aqui empregado é sem grande alcance), ele via árvores do passado, do presente e do futuro; árvores que jamais cresceram, árvores híbridas… Entre elas… pinheiros com bananas, palmeiras com maçãs vermelhas fluorescentes, sequoias com cerejas recheadas de cacau, baobás cor-de-rosa. Flores inimagináveis perfumavam o espaço. Dentes-de-leão com aromas entrelaçados de lírio-do-vale e lavanda, gramados com cheiro de pomelo, cactos soltando eflúvios em fuso de pimentas cítricas.
Animais conhecidos e desconhecidos, espécies desaparecidas e até futuras. Cruzamentos ousados com nomes gastronômicos: pôneis alados com gás de cebolas frescas, como mini-Pégasos. Mosca-borboleta frugívora que não come nada (pois a fome não existe no paraíso), vaca de leite baunilhado, pterodáctilo-beija-flor de canto encantador e até tiranossauros rex refinados de olhar inocente.
Marilyn lhe revelou que todas as criaturas do paraíso podem reencontrar os prazeres ligados ao sistema digestivo. O prazer de comer, de salivar, de engolir, de digerir… até o prazer de evacuar sem ter engolido coisa alguma. Então, basta pensar nisso. Tudo se sente e passa pelo espírito graças a um simples olhar.
— Há espécies que eu não conheço. É incrível, expressava-se ele, com os olhos enormes como telescópios.
— Depois do que os livros chamam de sétimo dia, digamos assim, ele voltou ao trabalho no oitavo. Desde então, não parou mais de criar. É um trabalhador incansável. Tudo o que deve nascer nos planetas hospitaleiros passa primeiro por aqui. O paraíso não é apenas um ponto de chegada, é também um começo das coisas, informou ela.
Henri finalmente deu um passo. Depois outro. Recuou. Deu passos de lado, como um cha-cha-cha hesitante.
— Diga, Marilyn, tenho almofadas de ar debaixo dos pés!
— O senhor não acha que as tem na cabeça?… O senhor não está na Terra. Nossos pés não pousam sobre a grama, nem nossas mãos sobre as flores ou os insetos. São apenas nossas auras respectivas que se tocam de leve. Exceto o senhor, que não solta meu pulso.
— Se eu me deitar diante de um elefante, ele não vai me esmagar?
— O senhor sempre pode tentar.
De repente, Henri arrastou Marilyn para trás de um arbusto:
— Não diga nada. Preciso respirar. E além disso há tanta gente espalhada por toda parte. Sem que reconheçam a senhora, eu poderia chamar atenção. Uma surpresa a cada passo. Um verdadeiro delírio alucinógeno. Como se a gente se alimentasse por dentro de um grande cogumelo mágico. Não há comparação possível! sussurrou ele.
— Deus não é apenas aquilo que conhecemos, ele também procede do desconhecido. Nada a ver com droga, acrescentou Marilyn, filosofando com o objetivo de desconcentrar seu raptor.
— Hum!… Que jeito estranho de se expressar! murmurou Toutrec, afrouxando o aperto enquanto refletia.
A tática quase funcionava.
Sobreveio outra fantasmagoria celeste. Ele voltou a ficar tenso. Uma pergunta o atormentava…
— Marilyn… A senhora já viu Deus?
— Não, nunca!
— Ali! Veja, Marilyn, há uma nuvem de buracos passeando. Eles vêm na nossa direção! Vão nos atacar? exclamou Henri, angustiado.
— Calma, disse ela lentamente, embora seu interesse em acalmá-lo fosse inoportuno. Essas aberturas, semelhantes a escotilhas voadoras, são buracos de memória. Não aqueles que o senhor conhece. No começo, todos somos levados a acreditar que eles nos permitem esquecer. Na realidade, não. Eles são anti-nostálgicos. Como lembranças em reality show sem câmera. Depende do seu humor. Basta interpelá-los e eles se aproximam de você. Ao mesmo tempo, eles desbravam a realidade num instante e lhe oferecem a verdade da vida em bandeja de prata, sem que você lhes peça.
— Divertido, mas sobretudo interessante. Além disso, não temos tempo para nos estender sobre buracos… Não é? disse ele.
— O senhor se lembra de uma cigarra que tenha cantado durante apenas um nanossegundo quando estava vivo? Aqui, o tempo, na percepção de sua totalidade, é esse canto de cigarra! E, se isso o entristece, há um ditado celestial que diz: « a cada pensamento triste, seu esquadrão de anjos cuidadores », acrescentou Marilyn.
— O quê! Há ditados celestiais! respondeu Henri, espantado.
— Sim! Existe até mesmo um mestre dos ditados. O papel dele consiste em redigi-los. Infelizmente, nunca tive o prazer de conhecer Tio Máxima. Na verdade, ninguém o viu. Ele está tão ausente da paisagem quanto Deus.
— Um apelido e tanto para sustentar uma reputação dessas!
Então Henri inclinou a cabeça, franzindo as sobrancelhas, e balançou-se lentamente no mesmo lugar, cheio de questionamentos.
Marilyn bem que gostaria de fugir. Mas nenhuma possibilidade se apresentara a ela. Era quase inútil tentar se desvencilhar das garras implacáveis de Toutrec!