Na manhã seguinte, Louise Lang apresentou-se na Maison Valombre sob o nome de Louis Lange.
Dormira mal, mas aquela noite ruim lhe deixara uma espécie de lucidez nervosa. No espelho do hotel, antes de sair, corrigira três vezes o nó do lenço, reposicionara o chapéu, atenuara ainda mais a linha da boca, depois tentara aquele olhar direto que tantas vezes observara nos homens que jamais se perguntavam se tinham o direito de entrar em algum lugar.
Ela não parecia realmente um homem.
Parecia antes uma hipótese.
Uma hipótese elegante, ambígua, frágil, mas surpreendentemente convincente.
Na rua, ninguém a encarou. Foi a primeira surpresa. Em Montreal, ela teria se sentido fantasiada. Em Paris, parecia apenas um pouco elaborada. Um pouco estilizada. Um pouco oriunda de um meio onde as pessoas se dão permissão para ser compostas.
Caminhou até a Maison Valombre repetindo sua frase.
— Bom dia. Vim por causa da vaga de assistente de ateliê.
Seca demais.
— Bom dia. Vim me apresentar para a vaga de assistente de ateliê.
Polida demais.
— Bom dia. Disseram-me que vocês estavam procurando alguém para o ateliê.
Vaga demais.
No momento de entrar, esqueceu todas as versões.
A recepção era ocupada por uma jovem de cabelos negros e olhar rápido. Ela ergueu os olhos.
— Bom dia, senhor.
Senhor.
A palavra atravessou Louise como um alfinete fino. Não doloroso. Preciso.
— Bom dia, respondeu ela com a voz um pouco mais baixa. Vim por causa do anúncio. A vaga de assistente de ateliê.
A recepcionista a olhou, depois anotou algo num registro.
— O senhor tem horário marcado?
— Não. Vi o cartaz ontem.
— O senhor tem experiência?
Louise hesitou meio segundo.
— Trabalhei com vestuário. Muito. Corte, materiais, apresentação, ajustes, coordenação.
Não era mentira. Era uma verdade penteada de outro modo.
— Seu nome?
— Louis Lange.
Desta vez, o nome saiu melhor. Como se existisse havia mais tempo do que desde a noite anterior.
A recepcionista telefonou para alguém. Algumas frases rápidas. Depois sorriu.
— O senhor Vidal vai recebê-lo.
Louise baixou a cabeça.
— Obrigado.
Seguiu uma assistente por um corredor estreito cujas paredes exibiam croquis emoldurados. Silhuetas negras, vestidos brancos, perfis de manequins, anotações a lápis. Teve vontade de parar diante de cada um deles, mas não viera como visitante. Viera tentar uma invasão suave.
Fizeram-na entrar numa sala banhada por uma luz fria. Rolos de tecido dormiam contra uma parede. Dois manequins de costura permaneciam no centro como senhoras sem cabeça em conversa muda.
Um homem de uns cinquenta anos virou-se para ela. Magro, cabelos prateados, camisa impecável, olhar impaciente.
— Louis Lange?
— Sim, senhor.
— Armand Vidal. Chefe de ateliê. Disseram-me que o senhor veio por causa da vaga.
— Sim.
— Sabe costurar?
— Sim.
— Sabe escutar?
— Aprendo rápido.
— Resposta ruim. Aqui, os que aprendem rápido muitas vezes também fazem besteiras rápido.
Louise baixou ligeiramente os olhos.
— Então posso aprender devagar.
Armand Vidal a observou com mais atenção.
Um pequeno sorriso surgiu.
— Isso é melhor. Está disponível imediatamente?
— Sim.
— Por quanto tempo?
Louise sentiu a armadilha.
Estava em Paris apenas por alguns dias. Sua loja a esperava. Suas funcionárias. Suas dívidas. Pascal acima. Jean em Montreal, sempre pronto a julgar.
— Alguns dias, para começar, respondeu ela. Mais, se o trabalho justificar.
— O senhor é estrangeiro?
— Canadense.
— Ninguém é perfeito.
Ele apontou uma mesa sobre a qual repousavam pedaços de tecido alfinetados, cartolinas, bobinas, pedaços de fita e uma manga inacabada.
— Mostre-me suas mãos.
Louise aproximou-se.
— Perdão?
— Suas mãos. Os tagarelas me entediam. As mãos mentem menos.
Ela pousou as mãos sobre a mesa.
Armand Vidal as observou. Viu as pequenas marcas, os dedos precisos, as unhas curtas, o hábito da matéria.
— O senhor trabalhou.
— Sim.
— Não apenas falou.
— Não.
— Muito bem.
Ele lhe estendeu a manga inacabada.
— O caimento está ruim. Por quê?
Louise pegou a peça com cuidado. Sentiu imediatamente que o problema não vinha do tecido, mas de uma tensão mal distribuída.
— A cava puxa aqui. A inclinação está seca demais. O tecido quer descer, mas o corte o obriga a obedecer alto demais.
Vidal a encarou.
— Continue.
Ela esqueceu Louis por um instante. Voltou a ser Louise sem perceber, mas uma Louise mais calma, escondida atrás da aparência de Louis.
— Se liberarmos muito pouco aqui e retomarmos ali, a manga conservará a linha sem dar a impressão de estar sendo punida.
Desta vez, Armand Vidal sorriu francamente.
— Uma manga punida. É idiota, mas exato.
Ele retomou a peça.
— O senhor começa hoje.
Louise permaneceu imóvel.
— Hoje?
— Tem algo melhor a fazer?
— Não.
— Então tire o casaco.
Assim, Louis Lange foi contratado.
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O ateliê da Maison Valombre não tinha nada de um sonho vaporoso.
Era uma mecânica humana tensa, brilhante, cansativa. Tesouras estalavam. Máquinas ronronavam. Vozes baixas trocavam medidas, urgências, censuras. Tecidos passavam de mão em mão com mais respeito do que certas pessoas. Tudo parecia frágil e impiedoso ao mesmo tempo.
Louise foi apresentada rapidamente.
— Louis Lange. Ele nos ajuda por alguns dias.
Algumas cabeças se viraram.
Havia Camille, primeira assistente de ateliê, uma mulher redonda, viva, com óculos suspensos por uma corrente vermelha. Havia Noé, o assistente de cabelos descoloridos que Louise notara na véspera. Havia Baptiste, delicado e nervoso, que usava anéis finos em quase todos os dedos. Havia Sara, silenciosa, rápida, que parecia capaz de alfinetar uma bainha prendendo a respiração por um minuto inteiro.
— Canadense? perguntou Noé.
— De Montreal, respondeu Louise.
— Ah! Então conheceu o inverno e veio mesmo assim para a moda. É heroico.
— Ou inconsciente.
— Os dois são úteis aqui.
Baptiste observou seu lenço.
— Belo nó. Um pouco defensivo demais, mas bonito.
Louise levou a mão ao pescoço.
— Defensivo?
— Sim. Como alguém que esconde uma cicatriz que não tem.
Camille bateu palmas.
— Fim da poesia. Vamos trabalhar.
Louise trabalhou.
No início, temeu que o disfarce a atrapalhasse. Ao contrário, ele a protegeu. Louis falava menos. Louis observava mais. Louis não precisava justificar uma loja em dificuldade, nem tranquilizar fornecedores, nem sorrir para Jean, nem conter Pascal. Louis estava ali para fazer. Era repousante ser reduzida à utilidade.
Carregou rolos. Classificou amostras. Retomou bainhas. Ajudou a instalar um vestido no manequim. Verificou correspondências de tons. Não fez nada de extraordinário, mas fez tudo com uma atenção tão exata que rapidamente deixaram de tratá-la como uma curiosidade passageira.
Ao meio-dia, Noé lhe estendeu um café.
— Você tem cara de quem ainda não decidiu se quer sobreviver a nós.
— Eu achava que estava sendo discreto.
— Aqui, a discrição se nota.
Baptiste sentou-se na beira de uma mesa, apesar do olhar reprovador de Camille.
— Você tem um jeito estranho de tocar os tecidos.
— Estranho como?
— Como se pedisse a opinião deles.
Louise sorriu.
— Às vezes, eles respondem.
— Ah, muito bem. Um místico têxtil.
— Não. Apenas alguém que já viu muitas roupas se vingarem de um corte ruim.
Noé caiu na gargalhada.
— Gostei desse.
Camille passou atrás deles.
— Não estamos aqui para gostar dele. Estamos aqui para gastá-lo.
— É a versão de ateliê do afeto, murmurou Baptiste.
Louise sentiu um calor imprevisto invadi-la. Não uma gratidão espetacular. Algo mais modesto. Era aceita no ritmo. Na fadiga. Na brincadeira.
Em Montreal, ultimamente, sentia-se proprietária de um fracasso.
Aqui, sob aquele nome emprestado, voltava a ser uma mão entre mãos.
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No fim da tarde, Solange Arvay entrou no ateliê.
Louise se enrijeceu imediatamente.
Solange trazia a mesma precisão da véspera: óculos escuros, tailleur cinza, olhar que parecia cortar antes das tesouras.
— Senhor Vidal, disse ela, quero ver a proposta para a passagem doze.
— Ela não está pronta.
— Não perguntei se está pronta. Pedi para vê-la.
O ateliê se contraiu.
Colocaram num manequim um vestido em construção. Belo, sem dúvida, mas pesado. A parte superior tinha força, a saia tinha movimento, porém o conjunto parecia hesitar entre duas mulheres incompatíveis.
Solange girou ao redor.
— Não.
Uma única palavra.
Todos compreenderam.
Armand Vidal inspirou lentamente.
— O desenho inicial pedia esse volume.
— O desenho inicial mentia.
Silêncio.
Louise não queria falar. Louis ainda menos.
Mas viu o problema. Claro demais. O vestido queria escapar da própria importância.
Solange notou seu olhar.
— Você, o novo. O que vê?
Louise sentiu todos os olhos se virarem para ela.
— Talvez nada útil.
— Entrada ruim. Recomece.
Ela engoliu em seco.
— Vejo um vestido que procura impressionar antes de respirar.
Noé baixou a cabeça para esconder um sorriso.
Solange não sorriu.
— E?
Louise aproximou-se do manequim, com prudência.
— A saia é bela, mas chega cedo demais. O volume deveria nascer mais baixo, não aqui. Assim, ela infla como uma defesa. Se mantivermos esta linha mais próxima do corpo até este ponto, e depois abrirmos, ela parecerá escolher sua amplitude em vez de sofrê-la.
Armand Vidal olhou para ela.
— Mostre.
Louise pegou alguns alfinetes. Pediu permissão com um gesto. Vidal assentiu.
Seus dedos trabalharam rápido, mas sem precipitação. Ergueu uma prega, liberou uma tensão, deslocou ligeiramente o início do volume. O vestido mudou. Não completamente. O bastante.
Um murmúrio percorreu o ateliê.
Baptiste soprou:
— Ah, aí está ela.
Solange aproximou-se.
Observou longamente.
— Está melhor.
Na boca dela, era quase uma declaração de amor.
— Você estudou? perguntou ela.
— Não aqui.
— Não foi isso que perguntei.
Louise hesitou.
— Aprendi principalmente trabalhando.
— E desenhando?
A pergunta a atingiu.
— Sim.
— Você desenha?
Armand Vidal interveio:
— Ele tem olho, em todo caso.
Solange estendeu a mão.
— Mostre.
— Eu não tenho...
Louise se interrompeu. Tinha seu caderno. Claro. Mesmo disfarçada, mesmo sob um nome falso, mesmo num ateliê parisiense, trouxera alguns desenhos enrolados numa pasta.
— Tenho alguns croquis.
— Vá buscá-los.
Ela obedeceu.
Suas mãos tremiam levemente quando tirou as folhas. O vestido A Escapada. O casaco de ombros caídos. Um vestido preto com mangas fendidas. Uma silhueta marfim. Duas variações inspiradas na loja, desenhadas numa noite de desânimo.
Pousou-as sobre a mesa.
O silêncio mudou de natureza.
Noé se inclinou.
— Oh.
Baptiste aproximou-se também.
— É seu?
— Sim.
Camille pegou uma folha, sem delicadeza, mas com respeito.
— Esta gola é esperta.
Armand Vidal examinou outra.
— O corte às vezes é ingênuo, mas a linha é verdadeira.
Solange permaneceu diante de A Escapada.
— Conheço este desenho.
Louise sentiu o sangue fugir.
— Madame?
— A senhora me mostrou ontem.
Um silêncio brutal caiu.
Louise não se mexeu.
Solange finalmente ergueu os olhos para ela. Observou o lenço, o chapéu, o rosto modificado, a postura contida.
Depois, com uma lentidão quase cruel:
— Madame Lang?
Noé abriu a boca.
Baptiste piscou.
Camille pousou as duas mãos nos quadris.
Louise poderia negar. Mas a mentira já servira à sua entrada. Não devia servir à sua covardia.
Retirou o chapéu.
Seus cabelos presos baixos não caíram realmente, mas o gesto bastou.
— Sim.
Ninguém falou durante alguns segundos.
Então Noé murmurou:
— Magnífico.
Camille deu-lhe um tapa no braço.
— Cale-se.
Solange não parecia nem chocada, nem divertida. Apenas interessada.
— Explique.
Louise respirou.
— Ontem, vim apresentar meus desenhos. Estava nervosa demais. Proprietária demais. Pedinte demais. Vi o cartaz para assistente. Vi também seus rapazes do ateliê, a liberdade deles, a maneira de estarem no lugar deles sem pedir desculpas. Pensei que, sob outra forma, talvez eu ousasse entrar melhor.
— A senhora mentiu.
— Sim.
— Por que eu deveria manter alguém que mente logo no primeiro dia?
Louise baixou os olhos para os croquis.
— Porque Louis Lange não existe, mas teve a coragem que Louise Lang já não tinha.
O silêncio se aprofundou.
Baptiste murmurou:
— É quase bonito demais.
Camille o fuzilou com o olhar.
Armand Vidal, por sua vez, ainda examinava os desenhos.
— Eu digo que isso pouco importa. Homem, mulher, anjo, vigarista ou canadense: esta pessoa corrigiu a passagem doze em cinco minutos.
Solange lançou-lhe um olhar seco.
— Obrigada pela filosofia, Armand.
— É logística.
Solange retomou A Escapada.
— Madame Lang, seus desenhos são melhores quando a senhora não os vende. Por quê?
Louise teve um pequeno riso triste.
— Porque não sei me vender.
— Isso é visível.
— Obrigada.
— Não era um elogio.
— Eu sei.
Solange pousou o desenho sobre a mesa.
— Muito bem. A senhora fica no ateliê durante a semana. Como assistente. Ou assistente, se isso a ajuda a trabalhar. Pouco me importa o figurino, desde que as ideias se mantenham de pé.
Louise ergueu os olhos.
— A senhora vai me manter?
— Vou observá-la.
— Já é muito.
— Não seja grata, eu já disse que isso cansa.
Noé aplaudiu suavemente com a ponta dos dedos.
— Bem-vinda, Louis-Louise.
Baptiste acrescentou:
— Podemos dizer Lou? É prático, elegante e suficientemente ambíguo.
Louise sorriu apesar de si.
— Lou está ótimo.
Camille retomou os croquis.
— E agora, Lou, você vai nos explicar esta manga fendida. Porque, se for viável, pode salvar a passagem dezessete.
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Os dias seguintes estiveram entre os mais estranhos e felizes da vida de Louise.
Trabalhava sob dois prenomes, mas com uma única energia. Pela manhã, chegava como Louis: calça, camisa, lenço, silhueta contida. No ateliê, chamavam-na de Lou. Ninguém parecia querer resolver completamente o enigma. Ao contrário, a ambiguidade tornava-se uma comodidade, quase uma elegância coletiva.
Noé dizia:
— Lou vê os vestidos como animais feridos.
Baptiste respondia:
— Sim, mas ele os cura.
Camille corrigia:
— Ela os doma.
Armand Vidal decidia:
— Lou trabalha. Façam o mesmo.
Muito depressa, Louise propôs ajustes, depois variantes. Um vestido severo demais recebeu uma abertura inesperada nas costas. Uma jaqueta sem graça encontrou uma linha mais flexível graças a um deslocamento de costura. Um vestido de noite, julgado frio, ganhou um painel interno que só aparecia em movimento, como um segredo colorido.
Solange quase nunca elogiava.
Dizia:
— A rever.
Ou:
— Possível.
Ou:
— Vamos manter esta ideia.
Na Valombre, « vamos manter esta ideia » valia quase como um beijo na testa.
Numa tarde, em torno de uma mesa coberta de tecidos, Louise ousou mais.
— Para o próximo desfile de vocês, há muitas silhuetas fortes. Muito construídas. Muito seguras de si. Mas talvez falte um vestido que pareça hesitar primeiro.
Solange virou para ela seu olhar de lâmina.
— Um vestido que hesita?
— Sim. Não fraco. Não indeciso. Um vestido que retém alguma coisa. Que dá a impressão de que uma mulher poderia mudar de ideia no meio da própria entrada.
Baptiste pousou a mão sobre o coração.
— Quero morrer dentro dessa frase.
Camille suspirou.
— Vocês todos vão acabar comigo.
Solange não desviava os olhos de Louise.
— Desenhe.
Louise pegou um lápis.
Desenhou de pé, rapidamente. Uma silhueta longa, pálida, quase simples. Depois uma linha deslocada no quadril. Um fechamento invisível que não era bem um fechamento. Uma manga que podia se desprender parcialmente. O vestido tinha dois estados: um comportado, outro aberto, como se a roupa revelasse seu segundo pensamento ao longo da passagem.
Noé olhou por cima do ombro dela.
— É um vestido de arrependimento.
— Não, disse Louise. Um vestido de decisão tardia.
Solange pegou o croqui.
— Passagem vinte e um.
Armand Vidal ergueu as sobrancelhas.
— Já?
— Sim.
— Será preciso refazer a sequência.
— Então refaçam.
Ninguém protestou.
Louise permaneceu imóvel, a mão ainda suspensa acima da mesa.
Um de seus desenhos acabara de entrar num desfile Valombre.
Não oficialmente. Não gloriosamente. Ainda não sob seu nome. Mas estava lá.
A forma, pensou ela, havia mudado tudo.
Louise Lang, proprietária inquieta, suplicara que olhassem seu trabalho.
Louis Lange, assistente ambíguo, mostrara o que sabia fazer.
A diferença era injusta.
Mas era real.
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Todas as noites, telefonava para Montreal.
Por causa do fuso horário, ligava muitas vezes no fim do dia em Paris, em plena atividade lá. A primeira ligação foi tranquilizadora. Élodie vendera dois lenços e uma jaqueta. Claire impedira uma cliente de partir dizendo-lhe que um vestido não devia ser julgado sob uma luz de néon de provador. Marie-Soleil reposicionara a vitrine « segundo uma vibração mais acolhedora », o que, aparentemente, funcionara.
— E Pascal? perguntou Louise.
Seguiu-se um silêncio.
— Ele obedece, respondeu Élodie.
— Isto é?
— Obedece à maneira dele.
Louise apertou a ponte do nariz.
— O que ele fez?
Claire pegou o telefone.
— Nada grave. Só propôs um haicai a uma cliente que experimentava um casaco.
— Claire.
— Ela comprou o casaco.
— Ah.
— Mas também perguntou se o poeta vinha junto.
— Isso não tem graça.
— Um pouco.
Marie-Soleil pegou a linha em seguida.
— Não se preocupe. Estou vigiando-o.
— Isso também me preocupa.
— Sua loja está se mantendo. Concentre-se em Paris.
Louise respirou melhor.
— Talvez eu tenha uma chance aqui.
— Eu sabia.
— Você não podia saber.
— Eu podia sentir.
— Evidentemente.
— E Jean ligou duas vezes.
Louise se crispou.
— O que ele queria?
— Saber onde exatamente você estava. Respondi: tornando-se mais difícil de controlar.
— Marie!
— Preferia que eu mentisse?
— Sim.
— Da próxima vez, mentirei com poesia.
Louise desligou quase leve.
No dia seguinte, ligou de novo. Tudo ainda ia mais ou menos bem. As vendas não eram extraordinárias, mas a loja respirava. Uma cliente encomendara um ajuste. Outra perguntara se o vestido vermelho existia em preto. Pascal ajudara a carregar caixas sem fazer declaração pública. Era um progresso.
A terceira ligação mudou tudo.
Louise saía da Maison Valombre. Chovia sobre Paris, uma chuva fina que tornava as pedras mais inteligentes. Abrigou-se sob o toldo de um prédio e discou o número da loja.
Élodie respondeu.
— Coração de Tecidos, bom dia.
— Sou eu.
Um silêncio.
Longo demais.
— Élodie?
— Senhora Lang...
A voz da jovem tremia.
— O que aconteceu?
— Não sei como dizer.
O ruído da rua pareceu se afastar.
— A loja?
— Não. Não é a loja.
— Então o quê?
Élodie respirou com dificuldade.
— É o senhor Chauvet.
Louise sentiu o estômago se apertar.
— Jean?
— Sim.
— O que ele fez?
A pergunta lhe veio naturalmente. Com Jean, as catástrofes muitas vezes tomavam a forma de um ato.
Mas, desta vez, Élodie não respondeu imediatamente.
— Ele morreu, senhora Lang.
Louise não compreendeu.
— O quê?
— Morreu. De repente. Esta manhã.
A chuva parisiense continuou a cair.
Louise olhou os passantes, os guarda-chuvas, os táxis, os reflexos amarelos nas poças. Tudo prosseguia em movimento com uma indiferença obscena.
— Como?
— Ainda não se sabe exatamente. Marie-Soleil diz que seria o coração. Ele estava no escritório. Alguém o encontrou. Sinto muito.
Louise se apoiou na parede.
Jean.
Jean Chauvet, com suas frases de proprietário do mundo, seus conselhos que pareciam ameaças, seus beijos de assinatura, seu dinheiro, suas condições, sua maneira de querer ajudá-la amarrando-a.
Morto.
Aquela palavra não combinava com ele. Jean era ocupado demais para morrer. Convencido demais de ter dossiês a resolver. Certo demais de que as coisas importantes deviam esperar que ele entrasse na sala.
— Senhora Lang? A senhora está aí?
— Sim.
Sua voz parecia vir de outro lugar.
— A senhora... a senhora vai voltar?
Louise fechou os olhos.
Voltar.
Coração de Tecidos. As funcionárias. As dívidas. Pascal. A morte de Jean. Maison Valombre. Seus desenhos. Louis. Lou. Tudo começou a girar dentro dela.
— Não sei.
Ouviu então outra voz do outro lado da linha. Marie-Soleil pegou o aparelho.
— Louise?
— Sim.
— Respire.
— Estou respirando.
— Não. Você está respondendo. Não é a mesma coisa.
Louise inspirou, lentamente.
— O que aconteceu?
— Jean foi encontrado morto no escritório. Falam de um mal-estar cardíaco. Foi muito súbito. William Lee ligou. Queria falar com você.
— William Lee...
— Sim.
— Por quê?
— Acho que há documentos. Talvez coisas ligadas à loja. Não entendi tudo. Ele quer absolutamente falar com você.
Louise sentiu uma nova inquietação subir.
Mesmo morto, Jean encontrava um jeito de deixar papéis para trás.
— E Pascal?
— Está silencioso.
— Pascal?
— Sim. É raro.
— Ele sabe?
— O bairro inteiro está começando a saber.
Louise pousou uma mão sobre a boca.
Já não amava Jean como se ama um homem. Talvez nunca o tivesse amado assim. Mas ele ocupara um lugar maciço em sua vida. Apoiara-a, ferira-a, impressionara-a, diminuíra-a, estimulara-a. Acreditara nela com a condição de que permanecesse dentro do quadro em que podia compreendê-la.
E agora, ele já não estava ali.
Teria querido chorar.
Nada veio.
Apenas um imenso cansaço.
— Louise, disse Marie-Soleil, não decida nada agora.
— Estou em Paris.
— Justamente.
— Estou trabalhando na Valombre.
— Então trabalhe hoje. Chore mais tarde, se vier.
— É um conselho horrível.
— Não. É prático. Os mortos já não têm horário. Os vivos, sim.
Louise soltou um riso quebrado.
— Você é impossível.
— Eu sei. Ligue para William Lee quando conseguir. Não antes.
— Está bem.
Desligou.
Durante um longo momento, permaneceu sob o toldo, imóvel, vestida como Louis, trazendo na bolsa os croquis de Louise.
Jean estava morto.
E Paris, ao redor dela, continuava vendendo vestidos.
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Quando voltou ao ateliê, Solange Arvay notou imediatamente seu rosto.
— O que aconteceu?
Louise hesitou.
— Alguém morreu em Montreal.
Solange não fez a pergunta idiota que muitos teriam feito. Era alguém próximo? Era grave? Foi de repente? Contentou-se em dizer:
— A senhora pode ir embora.
Louise olhou os tecidos sobre a mesa. O croqui da passagem vinte e um. Os alfinetes. O manequim.
— Não.
— Não?
— Quero trabalhar.
Solange a observou longamente.
— Muito bem. Mas não toque nas tesouras se suas mãos estiverem tremendo.
— Elas não estão tremendo.
Era mentira.
Baptiste aproximou-se suavemente.
— Posso fazer o alinhavo.
Noé acrescentou:
— E eu posso fingir que não estou preocupado. Sou excelente nisso.
Camille pousou uma xícara de chá perto de Louise.
— Beba isso. Depois, trabalhamos.
Louise olhou aquelas pessoas que mal conhecia. Aqueles colegas de poucos dias. Aqueles cúmplices de ateliê nascidos de uma mentira e de uma necessidade. Nenhum lhe pediu que contasse sua dor. Nenhum tentou consolá-la com grandes frases. Abriram espaço para ela.
Isso a abalou mais do que condolências.
Tomou o chá.
Depois voltou ao manequim.
O vestido de decisão tardia esperava.
Louise passou os dedos sobre o tecido, como se tocasse a testa de um ser vivo.
— Retomamos aqui, disse ela. A linha deve sustentar, mas não deve aprisionar.
Armand Vidal, atrás dela, murmurou:
— Exatamente.
Trabalhou até a noite.
Jean Chauvet morrera pela manhã.
E, num ateliê parisiense, um vestido que ele talvez tivesse julgado invendável começava a encontrar sua forma.
FIM DO CAPÍTULO V