CORAÇÃO DE TECIDOS
ROMANCE
art-felx.com
CAPÍTULO III - O INQUILINO DO ANDAR DE CIMA

Louise deveria ter dito não.

Soube disso no exato momento em que Pascal Pascal pousou seu chapéu sobre o balcão de Coração de Tecidos, como se depositasse ali uma prova do destino.

— Vim por causa do apartamento, repetiu ele.

A frase parecia simples. Não era. Com Pascal, nada permanecia simples por muito tempo. Uma informação se tornava um presságio, uma falta de jeito virava lenda, uma dívida moral se transformava em capítulo de romance.

Louise cruzou os braços.

— O senhor está realmente procurando moradia?

— Há anos.

— Então o senhor é um péssimo pesquisador.

— Ou muito paciente.

— Ou muito exigente.

— Eu diria antes que esperava o teto certo.

Marie-Soleil, de pé perto dos lenços, conteve um sorriso. Claire e Pierrette, que fingiam precisar voltar ao café havia vinte minutos, não se mexeram um centímetro. Até os manequins na vitrine pareciam ter se inclinado para a conversa.

Louise apontou para a porta.

— O anúncio está ali por engano. O proprietário deveria tê-lo retirado.

— Um anúncio colocado por engano costuma ser mais sincero do que um convite.

— O senhor sempre fala assim?

— Só quando me faltam defesas.

— Estranho. Eu teria dito: quando o senhor tenta contornar uma porta fechada.

Ele inclinou levemente a cabeça, quase admirado.

— A senhora me atribui muita habilidade.

— Eu lhe atribuo muitas intenções.

Pascal sorriu.

O sorriso era doce, quase humilde. Mas Louise sentiu que, por trás daquele sorriso, alguém tomava notas. Não com um lápis. Com uma espécie de inteligência mais escorregadia. Ele não observava apenas a loja. Avaliava as pessoas. As distâncias. As hesitações. Os pontos fracos.

Jean, por sua vez, teria visto o apartamento como um investimento. Pascal, sentia-se, queria ocupá-lo como se ocupa um palco.

— Fique tranquila, disse ele. Sou um inquilino muito discreto.

Claire tossiu.

Pierrette ergueu os olhos para o teto.

Pascal virou-se para elas.

— O quê?

— Discreto? repetiu Pierrette. Você?

— Eu disse muito discreto, não invisível.

— Você usa capa num restaurante de bairro.

— Justamente. Concentro minha extravagância nas roupas para não espalhá-la em outros lugares.

— Não funciona, disse Claire.

Louise não conseguiu evitar o riso. Um segundo. Um só. Mas Pascal viu. Recebeu aquilo como um encorajamento.

— Está vendo, senhora Lang, defendeu-se ele imediatamente. Sou inofensivo. Ridículo, às vezes. Pobre, muitas vezes. Mas inofensivo.

Louise se enrijeceu.

Ele acabava de jogar sua carta preferida: diminuir-se para desarmar.

— Pessoas que se dizem inofensivas me deixam prudente.

— Sábio reflexo.

— O senhor não ajuda sua causa.

— Pelo contrário. Prefiro lhe dar razão antes que a senhora precise se defender de mim.

A frase era brilhante. Brilhante demais. Dava à desconfiança de Louise um ar quase nobre, ao mesmo tempo que o colocava do lado dos homens lúcidos e sinceros. Ele perdia e ganhava no mesmo movimento. Essa era sua força.

Marie-Soleil aproximou-se lentamente.

— Dizem que o senhor é escritor?

— Em princípio.

— Publicado?

Louise quase sorriu. Marie-Soleil acabava de tocar exatamente na mesma ferida daquela manhã no café.

Pascal levou a mão ao coração.

— A senhora também?

— Eu também o quê?

— A senhora também gosta de acertar os homens onde eles guardam seus rascunhos?

— Gosto de saber com quem estou falando.

— Então, sim, sou escritor. Não, não sou publicado. E sim, essa contradição me segue como um cachorro magro.

— Um cachorro magro às vezes morde, disse Marie-Soleil.

Pascal a encarou. Desta vez, seu sorriso foi mais lento.

— A senhora é perigosa.

— Não. Eu observo.

Louise olhou a amiga com gratidão. Marie-Soleil tinha esse dom: podia dizer algo estranho e, apesar de tudo, tocar exatamente o centro.

Pascal voltou-se para Louise.

— Deixe-me visitar. Apenas visitar. Se o lugar não servir, desaparecerei do seu limiar e da sua manhã.

— O senhor promete?

— Prometo desaparecer do seu limiar.

— Não da minha manhã?

— Senhora Lang, a senhora já manchou a minha ao me recusar seu perdão.

— Foi o senhor que manchou meu vestido.

— Veja. Já temos um passado em comum.

Louise quis responder. A sineta tilintou. Uma cliente entrou. Depois outra. A abertura continuava, apesar das catástrofes que já tentavam fazer morada nela.

O proprietário, contatado por telefone, aceitou que ela fizesse uma visita rápida. Estava encantado. Encantado demais. Pelo que dizia, qualquer inquilino sem cachorro, sem bateria e sem falência recente representava uma bênção.

Pascal não possuía cachorro. Quanto à bateria, jurou jamais ter sentido vocação rítmica. Quanto à falência, respondeu que sua pobreza era constante demais para conhecer desmoronamentos.

Uma hora depois, ele subia a escada atrás de Louise.

O apartamento acima da loja era maior do que ela imaginava. Uma sala estreita voltada para a rua, um quarto claro, uma pequena cozinha meio antiga, assoalhos que rangiam com distinção e uma janela dos fundos de onde se viam os telhados, as escadas, alguns fios elétricos e uma porção de céu.

Pascal visitou em silêncio.

Aquele silêncio inquietou Louise mais do que suas frases.

Ele passou a mão no parapeito de uma janela. Parou no centro da sala. Escutou o assoalho sob os pés. Depois inclinou-se levemente, como se o lugar lhe falasse havia muito tempo.

— Então? perguntou Louise.

— Aqui, eu poderia escrever.

— Isso não é uma referência de locação.

— Não. É mais grave.

Aproximou-se da janela que dava para a rua. Dali, via-se a placa dourada de Coração de Tecidos, invertida no vidro.

— Eu também poderia vigiar sua placa.

— Ela não precisa ser vigiada.

— Tudo o que brilha atrai corvos.

Louise suspirou.

— Senhor Pascal, nunca sei se o senhor está me bajulando, me ameaçando ou preparando uma frase.

— As três coisas são compatíveis.

Ele a olhou. Menos teatralmente desta vez. Quase com simplicidade.

— Preciso deste apartamento.

— Por que este?

— Porque fica acima da sua loja.

— Essa é uma resposta muito ruim.

— É a única honesta.

Ela recuou um passo.

— O senhor não me conhece.

— Não. Mas já a encontrei.

— O senhor derramou café em mim.

— Foi nossa primeira colaboração.

— Colaboração?

— A senhora me deu uma cena. Eu lhe dei uma mancha. Não é equivalente, admito.

Louise permaneceu severa. Teria querido descer, fechar a porta, ligar de novo para o proprietário, explicar que aquele inquilino não era conveniente. Mas uma parte dela, mais curiosa que prudente, perguntava-se de que matéria aquele homem era realmente feito.

Ele não era bonito no sentido comum. Talvez baixo demais, vestido demais de si mesmo, consciente demais de seus efeitos. Mas tinha presença. Uma presença inquietante. Parecia sempre estar caindo, e, no entanto, caía exatamente onde queria.

— O senhor pagará o aluguel?

— Sim.

— Em dia?

— Sempre que possível.

— Resposta ruim.

— Então, sim.

— O senhor não espantará minhas clientes?

— Por que eu faria isso?

Louise o olhou longamente.

— Não sei. É justamente isso que me incomoda.

Pascal ergueu a mão direita como diante de um tribunal.

— Juro solenemente não prejudicar voluntariamente Coração de Tecidos.

A palavra voluntariamente ficou suspensa.

Louise notou.

— O senhor é impossível.

— Estou disponível.

Ela deveria ter dito não.

Disse:

— Vou falar com o proprietário.

Pascal inclinou-se levemente.

— A senhora não vai se arrepender.

O que, na boca de certos homens, muitas vezes significa: a senhora vai se arrepender tarde demais.

________________________________________

As primeiras semanas de Coração de Tecidos foram belas na aparência.

A vitrine atraía olhares. As clientes entravam para tocar os tecidos, fazer perguntas, elogiar, prometer voltar. Louise recebia cada frase amável como uma pequena moeda depositada num cofrinho invisível.

Mas elogios não pagavam o aluguel.

As vendas, por sua vez, continuavam frágeis.

Mulheres demais hesitavam. Muitas achavam os vestidos magníficos, mas esperavam uma ocasião. Muitas voltavam com uma amiga para mostrar uma jaqueta, depois iam embora as duas, enriquecidas por um entusiasmo gratuito.

Louise mantinha o sorriso. Embalava as raras compras com cuidado. Respondia às perguntas. Anotava os tamanhos pedidos. Modificava a vitrine a cada três dias. Fazia suas contas à noite, sozinha, atrás do caixa fechado.

Os números tinham menos tato do que as clientes.

Diziam: cuidado.

Depois: mais cuidado.

Depois: isso não será suficiente.

Jean passou numa terça-feira à tarde, três semanas depois da abertura. Entrou com seu perfume caro, o telefone na mão e aquela segurança que dava a cada lugar a impressão de estar sendo inspecionado.

— Está bonito, disse ele.

Louise arrumava blusas.

— Obrigada.

— Muito bonito. Talvez bonito demais.

— Bonito demais?

— Pessoal demais. As clientes precisam se projetar. Aqui, sente-se muito a sua sensibilidade.

— É a minha loja.

— Justamente. Uma loja deve pertencer às que compram, não apenas à que sonha.

Ela pousou lentamente a blusa na arara.

— Você veio me encorajar ou me corrigir?

— As duas coisas, se você for inteligente.

Jean percorreu o espaço com o olhar. Tocou uma etiqueta.

— Você deveria reduzir alguns preços.

— Não posso.

— Você não pode não vender.

— Estou começando.

— Você está gastando.

— Estou investindo.

— Palavras não mudam colunas de números.

Ela não respondeu. Ele tinha razão, o que o tornava ainda mais irritante.

— Posso apresentar você a alguém, retomou ele. Uma consultora de marketing. Muito eficiente.

— Não tenho condições.

— Eu posso adiantar.

— Não.

— Louise.

— Não, Jean.

O rosto dele se fechou um pouco. Não muito. Jean era treinado demais para mostrar imediatamente sua contrariedade.

— Você prefere fracassar por orgulho?

— Prefiro não dever ainda mais a você.

Ele sorriu.

— Você já me deve muito.

A frase entrou na loja como uma corrente de ar frio.

No mesmo instante, passos ressoaram na escada interna. Pascal descia.

Apareceu perto da porta dos fundos, uma xícara de chá na mão, vestido com um longo colete preto que lhe dava o ar de um padre secularizado que perdera uma carreira na ópera.

— Que frase encantadora, disse ele.

Jean virou-se.

— Perdão?

— « Você já me deve muito. » Admirável. Ouve-se nisso o amor terno de um credor.

Louise fechou os olhos.

— Pascal…

— Vou me calar.

— O senhor é? perguntou Jean.

— O inquilino do andar de cima.

— Ah. O poeta.

— Ah. O senhor dos adiantamentos.

Jean estreitou os olhos.

— Já nos vimos.

— Através de uma vitrine. O senhor tinha uma mão muito eloquente nas costas da senhora Lang.

Louise interveio imediatamente.

— Pascal, já basta.

Ele baixou a cabeça.

— Desculpe. Às vezes confundo franqueza com decoração inútil.

Jean sorriu por sua vez, mas seu sorriso não tinha nada de leve.

— Louise, estou entendendo melhor por que você recusa meus conselhos. Recebe-os de um homem que desce de roupão durante o horário de abertura.

— Não é um roupão, disse Pascal. É um colete trágico.

— Sobretudo pouco comercial.

— Nisso, o senhor é especialista.

Os dois homens se encararam.

Louise sentiu algo perigoso instalar-se entre eles. Jean era arrogante, mas direto. Pascal, por sua vez, parecia divertir-se em fazer tropeçar a arrogância dos outros para melhor esconder a própria.

— Jean, disse ela, falaremos mais tarde.

— Certamente.

Ele pegou o telefone, inclinou-se para ela e depositou em sua face um beijo que parecia uma assinatura.

— Pense bem. O orgulho custa caro.

Ele saiu.

Pascal esperou três segundos.

— Rapaz encantador. Dá vontade de lhe vender uma gravata para que se estrangule com elegância.

Louise voltou-se para ele.

— O senhor não deveria estar trabalhando?

— Eu escutava o silêncio comercial.

— O senhor escutava através do assoalho.

— O assoalho é fino. Sou inocente.

— O senhor raramente é inocente.

Ele pareceu tocado.

— A senhora está progredindo.

— Em direção a quê?

— À lucidez.

Louise o encarou, exasperada.

— Pascal, minha loja não vai tão bem quanto eu esperava. Preciso de calma. De seriedade. De clientes. Não de duelos de espírito no meio das araras.

— Posso ajudar.

— Não.

— A senhora nem ouviu minha proposta.

— É isso que me permite responder mais depressa.

— Posso escrever um pequeno texto para a vitrine. Algo sóbrio. Elegante. « Os vestidos não escondem as mulheres, revelam-lhes uma maneira de caminhar. »

Louise permaneceu em silêncio apesar de si.

A frase era bonita.

Bonita demais.

— Está vendo, disse Pascal. Posso ser útil.

— É isso que me preocupa.

________________________________________

À noite, quando a loja se esvaziava, Louise desenhava.

Fechava o caixa, apagava parte das luzes, trancava a porta, depois se instalava no balcão com seus lápis, seus papéis, suas amostras de tecido e um chá que quase sempre esquecia de beber.

Desenhar a apaziguava.

Os números lhe diziam que precisava vender. Os tecidos lhe lembravam por que começara.

Traçava linhas longas, cinturas, mangas, golas, pregas. Alguns vestidos nasciam como respostas. Outros como recusas. Quando Jean a inquietava, ela desenhava tailleurs retos, precisos, quase implacáveis. Quando Pascal a irritava, desenhava vestidos mais fluidos, mais perigosos, como se quisesse criar roupas capazes de escapar dos homens que as comentavam.

Certa noite, Marie-Soleil a encontrou assim, inclinada sobre uma folha.

— Ainda aqui?

— Vou fechar já.

— Você diz isso há uma semana.

Louise não ergueu os olhos.

— Olhe.

Virou o croqui para a amiga.

O vestido era estranho. Um corte simples à primeira vista, mas atravessado por um movimento oblíquo, quase secreto. O tecido parecia dever mudar conforme a luz. Sóbrio de frente, perturbador de perfil.

Marie-Soleil sentou-se lentamente.

— Esse você precisa fazer.

— Não tenho tempo.

— Justamente. Faça.

— Marie, tenho contas, caixas, estoque, clientes que admiram sem comprar e Jean falando comigo como se eu fosse uma filial mal gerida do ego dele.

— E Pascal?

Louise suspirou.

— Pascal fala com todo mundo.

— É o ofício dele.

— O ofício dele é escritor.

— Não. O ofício dele é entrar.

Louise finalmente ergueu os olhos.

— Entrar?

— Nas conversas. Nos silêncios. Nas feridas. Nas lojas. Nos apartamentos acima das lojas. Nas ideias das mulheres que deveriam estar dormindo.

— Você dramatiza.

— Talvez. Mas ele olha para você como um homem que já começou a usá-la numa frase.

Louise baixou os olhos para o croqui.

— Eu sei.

— E isso lhe agrada?

— Não.

Um silêncio.

— Um pouco, admitiu ela.

Marie-Soleil assentiu, sem julgamento.

— Então tome cuidado. Jean quer possuir você. É pesado, mas visível. Pascal quer narrar você. É mais leve. É pior.

Louise permaneceu muito tempo sem responder.

Acima, passos atravessaram o apartamento. Pascal caminhava. Ou escrevia caminhando. Ou preparava uma entrada. Desde que ele morava ali, a loja nunca mais era inteiramente silenciosa.

— Este vestido, disse Louise, vou chamá-lo de A Escapada.

— Bom título.

— Não é um título. É um modelo.

— Com você, os dois se confundem.

Louise sorriu fracamente.

Então a sineta tilintou.

Ela sobressaltou-se.

— Eu tinha trancado.

Pascal entrou pela parte dos fundos, pela escada interna. Trazia uma folha na mão.

— Escrevi o texto para a vitrine.

— Eu não lhe pedi.

— Eu sei. Isso me deu mais liberdade.

Marie-Soleil levantou-se.

— Boa noite, senhor inquilino.

— Boa noite, senhora intuição perigosa.

Ele depositou a folha diante de Louise.

Ela não queria ler.

Leu.

« CORAÇÃO DE TECIDOS

Para aquelas que não procuram apenas um vestido, mas o instante em que sua silhueta encontra sua coragem. »

Louise se amaldiçoou por gostar da frase.

— É literário demais.

— Tire « apenas ».

— Por quê?

— Porque acabei de perceber.

— O senhor corrige a própria ênfase?

— Raramente. Aproveite.

Marie-Soleil leu por sua vez.

— É bom.

— Obrigado.

— Bom demais.

Pascal sorriu.

— Isso parece um elogio honesto.

— Não. Um aviso.

Ele fingiu não compreender. Era outra de suas habilidades.

Louise dobrou a folha.

— Vou pensar.

— A senhora vai usá-lo.

— Não esteja tão seguro de si.

— Só estou seguro das frases que a deixam em silêncio.

Ele acabava de espetá-la. Suavemente. Exatamente.

Marie-Soleil percebeu. Louise também.

Mas Pascal já recuara um passo, como se tivesse apenas depositado uma flor.

— Boa noite, senhoras. Volto às minhas ruínas.

Subiu de volta.

Marie-Soleil esperou que os passos desaparecessem.

— Está vendo?

— Sim.

— Ele provoca você, depois se retira antes que possam acusá-lo.

— Estou vendo.

— E mesmo assim você vai usar o texto dele.

Louise olhou a folha.

— Talvez.

________________________________________

O texto foi colocado na vitrine no dia seguinte.

Teve efeito imediato.

As mulheres paravam para lê-lo. Algumas sorriam. Algumas entravam por curiosidade. Duas clientes compraram lenços. Uma terceira experimentou um vestido sem comprá-lo, mas voltou no dia seguinte com a irmã.

Louise deveria ter ficado encantada.

Ficou.

Também deveria ter desconfiado mais.

Pascal, por sua vez, compreendeu muito depressa o poder do limiar.

Todas as manhãs, descia ao café do senhor Prahallis, depois voltava lentamente diante de Coração de Tecidos. Saudava a vitrine. Às vezes, ajeitava o pequeno cartaz com seu texto, como se fosse o guardião dele. Fingia ajudar.

Mas ajudava à sua maneira.

Ou seja, atraindo a atenção para si antes de redirecioná-la para a loja, quando lhe dava vontade.

— Senhora, dizia a uma passante elegante, perdoe minha intrusão. Seu casaco mereceria um diálogo com aquele vestido azul.

— Perdão?

— Não tema, eu não vendo nada. Sou apenas testemunha de uma harmonia possível.

As mais apressadas o evitavam.

As mais curiosas paravam.

As mais românticas sorriam.

Ele sabia reconhecê-las.

Logo passou a abordar mulheres diante da loja com a desenvoltura de um chamariz metafísico. Elogiava uma manga, uma cor, um tecido, mas quase sempre acabava falando de si. De seu romance. De sua pobreza. Do vestido manchado. Do destino. De Louise, às vezes, com delicadeza suficiente para parecer respeitoso e insistência suficiente para se tornar invasivo.

Algumas clientes entravam divertidas.

Outras iam embora irritadas.

Uma mulher muito elegante, que a princípio parecera interessada por um casaco marfim, deu meia-volta depois que Pascal declarou:

— A senhora tem o andar de uma heroína que ainda ignora a tragédia de seu pescoço.

Ela o encarou friamente.

— E o senhor tem a segurança de um homem que ainda ignora o ridículo de sua boca.

A mulher foi embora.

Louise vira tudo do caixa.

Saiu imediatamente.

— Pascal!

Ele se virou, falsamente surpreso.

— Sim?

— O senhor acaba de espantar uma cliente.

— Talvez. Mas que resposta! Ela tinha um temperamento magnífico.

— Eu não vendo temperamentos. Vendo roupas.

— Justamente. Ela não teria comprado nada. Armadura demais.

— O senhor não sabe disso.

— Sei ler silhuetas.

— O senhor lê sobretudo o que lhe convém.

Desta vez, ele não sorriu imediatamente.

— A senhora prefere que eu pare?

— Sim.

— Muito bem.

Retirou o chapéu, inclinou-se e atravessou a rua em direção ao café, como um ator ofendido abandonando uma cena ruim.

Louise entrou furiosa.

Lá dentro, uma jovem funcionária que ela acabara de contratar em meio período, Élodie, recolocava cabides com um sorriso sonhador.

— O que faz você sorrir?

— Nada.

— Élodie.

— O senhor Pascal é engraçado.

Louise sentiu um novo problema despontar.

— Ele falou com você?

— Um pouco.

— Quando?

— Ontem. E hoje de manhã. Ele diz que tenho mãos de pianista e que deveria usar verde-escuro para realçar minha alma.

Marie-Soleil, que viera ajudar durante a tarde, ergueu lentamente a cabeça.

— Sua alma?

Élodie corou.

— Foi bonito.

Louise fechou os olhos.

Pascal não se contentara com as clientes.

Começava a cortejar toda a atmosfera da loja.

Alguns dias depois, foi Claire quem entrou rindo, com um pedaço de papel na mão.

— Seu poeta deixou isto para mim num guardanapo.

Louise pegou o guardanapo.

« Claire, você carrega os cafés como outras carregam notícias de guerra. »

— Ele está escrevendo para você agora?

— Ah, ele escreve para tudo o que se mexe. Não se preocupe. Mas me perguntou se eu achava que Pierrette era uma trágica impedida.

— E ela?

— Respondeu que era sobretudo impedida de trabalhar quando ele entrava no café.

Louise não riu.

O problema era que Pascal agradava.

Não a todo mundo. Não de modo duradouro. Não claramente. Mas perturbava. Lisonjeava. Dava às mulheres a impressão, às vezes agradável, às vezes irritante, de serem subitamente observadas como personagens importantes. Distribuía atenção como outros distribuem cartões de visita.

E, a cada vez, Louise perdia um pouco o controle do próprio cenário.

Uma cliente perguntava:

— Ele é seu marido?

Outra:

— O senhor de pena trabalha aqui?

Uma terceira:

— Voltarei quando ele não estiver diante da porta.

Essa última frase ficou muito tempo na cabeça de Louise.

Pois os números continuavam falando.

As vendas subiam em certos dias, depois caíam novamente. As clientes entravam mais, mas várias não compravam nada. Algumas vinham para ver o personagem. Outras o evitavam. A loja se tornava conhecida, sim, mas de uma maneira que Louise não escolhera.

Coração de Tecidos corria o risco de se tornar o teatro de Pascal Pascal.

E ela, a proprietária do palco.

Certa noite, Jean entrou sem avisar.

Encontrou Louise sentada ao balcão, cercada de croquis. Ela desenhava com obstinação. O vestido A Escapada já tinha três variantes. Uma curta. Uma longa. Uma preta com uma lapela clara. Ela já não desenhava apenas para criar. Desenhava para não gritar.

Jean pegou uma folha.

— É novo?

— Sim.

— Não é o que se vende com mais facilidade.

— Eu sei.

— Então por que perder tempo?

Ela arrancou suavemente a folha da mão dele.

— Porque é a única coisa que me impede de perder a cabeça.

Jean observou os croquis, depois a loja quase vazia.

— Louise, precisamos falar seriamente.

— Estou ouvindo.

— Se as coisas continuarem assim, você não aguenta seis meses.

Ela não respondeu.

— Eu posso ajudar, retomou ele.

— Em quais condições?

— Por que você sempre fala de condições?

— Porque, com você, até a ternura tem condições.

Ele sorriu tristemente, mas seus olhos continuaram frios.

— Eu poderia assumir uma participação maior. Reestruturar. Reposicionar a loja. Podar.

— Podar?

— O estilo pessoal demais. Os modelos impossíveis. Os textos na vitrine. O poeta.

Ela ergueu os olhos.

— Pascal não tem nada a ver com isso.

Jean soltou uma risadinha.

— Pelo contrário. Já tem a ver demais. Esse homem prejudica sua imagem.

— Minha imagem só interessa a você porque pode servir à sua.

— E ele? Você acha que ele serve ao quê? À arte? À poesia? Ele está se servindo de você, Louise. Está se servindo da sua loja, da sua luz, do seu nome. Vai transformar você em personagem secundária da pequena mitologia dele.

Ela não respondeu.

Desta vez, Jean acertara em cheio.

E isso a contrariava quase tanto quanto se Pascal tivesse mentido.

— Você deveria fechar por dois dias, retomou Jean. Repensar tudo isso. Posso mandar alguém vir.

— Não.

— Vai insistir?

— Sim.

— Então não venha chorar se Coração de Tecidos virar um capricho caro.

Ele deixou a loja.

Louise ficou sozinha.

Acima, Pascal caminhava.

Na rua, os carros passavam.

Sobre o balcão, seus croquis pareciam esperar que ela escolhesse entre a prudência e a teimosia.

Pegou um lápis.

Na parte inferior de uma nova folha, escreveu:

VESTIDO PARA MULHER QUE SE RECUSA A FECHAR.

Depois desenhou.

Por muito tempo.

Muito tempo mesmo.

Quando finalmente ergueu a cabeça, a vitrine estava escura. No reflexo, viu o próprio rosto, cansado, mas ainda ereto. Atrás dela, na escada interna, uma sombra descia.

Pascal.

Ele permaneceu na sombra.

— A senhora trabalha até tarde.

— O senhor também espiona até tarde.

— Eu escrevo.

— Sobre mim?

Um silêncio.

— Não apenas.

Ela se virou lentamente.

— Saia da minha loja, Pascal.

Ele não se mexeu imediatamente.

— Posso salvá-la.

A frase era baixa, quase terna.

Louise sentiu um arrepio de raiva.

— É exatamente por isso que o senhor é perigoso.

— Porque quero ajudá-la?

— Porque chama de salvar aquilo que lhe permitiria entrar mais longe.

Pascal permaneceu imóvel. Pela primeira vez, não encontrou imediatamente uma frase para se tornar belo.

Depois sorriu.

Um sorriso triste. Bem escolhido.

— Boa noite, Louise.

Subiu de volta.

Ela ficou sozinha com seus croquis, suas dívidas, seus vestidos e aquela estranha certeza: Jean podia fechar sua loja por cálculo, mas Pascal, ele, podia fazê-la morrer fingindo lhe dar uma alma.

FIM DO CAPÍTULO III